Comércio da Avenida Afonso Pena tenta se reerguer

Publicação: 2020-02-23 00:00:00
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Sentado num banquinho de madeira do lado de fora de casa, Orizon Fernandes olha para as lojas do outro lado e nomeia: "aquela ali era a casa de Dr. Sarinho; aquele café, casa de Dr. Fonseca; essas duas lojas aqui de frente, de Jackson". Continua sem titubear: "do lado era o Café de Maria; ali…" e não para. Aos 65 anos, reconstrói o passado da avenida Afonso Pena, que atravessa os bairros do Tirol e Petrópolis, zona Leste de Natal, e o coloca em choque com presente. A avenida se transformou, viveu o auge e declínio. Agora tenta se reerguer, mas, ao longo dos seus 2 quilômetros de extensão, 25 estabelecimentos estão vazios.

Créditos: Magnus NascimentoNa Avenida Afonso Pena, um dos prédios abandonados é o do antigo shopping Alamanda Mall, que abrigava lojas importantes até 2011 e fechou há oito anosNa Avenida Afonso Pena, um dos prédios abandonados é o do antigo shopping Alamanda Mall, que abrigava lojas importantes até 2011 e fechou há oito anos

A Afonso Pena do passado viveu uma intensa mudança ao longo das décadas. Até meados dos anos 1980, era uma avenida de grandes casas e quintais. Na década seguinte, começou a receber lojas e restaurantes sofisticados, além de clínicas e hospitais. E em 2000 já era chamada de "Oscar Freire de Natal" pelo então prefeito Carlos Eduardo, em referência à rua da capital paulista conhecida como um dos principais endereços de modernidade. Esse título era adequado até meados de 2010, quando começou a declinar.

Estabelecimentos começaram a fechar, imóveis foram abandonados e moradores se desertaram. Para Ivone Freire, ex-moradora da avenida e proprietária do restaurante Talher, aberto desde 1989, o declínio tem dois fatores principais. O primeiro é a construção do shopping Midway Mall, em 2006, que quando se consolidou começou a ser um ambiente mais atrativo para as lojas.

O segundo, a proibição de estacionar na via, que vigorou de 2009 a 2017. "Sem estacionamento, os carros só passavam por aqui, não paravam. Isso acabou com o comércio, que foi se instalar em outro lugar, seja em outras avenidas ou nos shoppings. Isso acabou com a Afonso Pena, se tornou uma avenida deserta. Antes, era um shopping a céu aberto", afirma Freire.

Mesmo três anos após o restabelecimento dos estacionamentos na avenida, a Afonso Pena ainda não voltou ao que foi no auge. Nos 2 quilômetros de extensão da avenida, não é raro encontrar imóveis abandonados ou com placas de venda e aluguel, alguns há mais de cinco anos nessa situação e outros fechados recentemente. A crise econômica iniciada em 2014 contribui para o cenário – apesar da melhora dos índices econômicos, a recuperação ainda é lenta. "Agora ela está se recuperando, mas é preciso ter uma atenção maior a ela aqui", continua Ivone.

Créditos: Magnus NascimentoNos 2 quilômetros de extensão da via, se vê imóveis abandonados ou com placas de vendaNos 2 quilômetros de extensão da via, se vê imóveis abandonados ou com placas de venda

Contraditoriamente ao número de imóveis fechados, a demanda de procura por aluguel na avenida voltou a crescer nos últimos anos, segundo o corretor de imóveis Alexandre Sampaio. Na avaliação dele, o problema é o preço ofertado pela maioria dos proprietários, que não se atualizou à queda do mercado na avenida. "Demanda para a Afonso Pena existe, mas o valor de locação quem determina é o mercado. Ainda tem muito imóvel para alugar com os preços elevados, acima da realidade", diz o corretor.

"Até 2012, o valor de mercado de um imóvel na avenida Afonso Pena era alto, chegava a R$ 45 o m². Foi no período que muita gente começou a quebrar financeiramente. A crise econômica 'foi boa' para muitos entenderem que era preciso se adequar. Hoje, o valor do m² é entre R$ 18 e R$ 25 para locação. Mas cerca de 70% ainda estão fora do preço de mercado."

Mas, na avaliação do corretor, o que levou o declínio da avenida por volta de 2012, antes da crise econômica, e por que estabelecimentos continuam fechando? "Não acho que foram os estacionamentos, porque ainda havia estacionamento na época. Mas a segurança  foi um fator, e o consumidor acaba indo para o shopping, que tem mais segurança", avalia Sampaio. "E os estabelecimentos fecham porque Natal se vive muito de moda, então uma hora os restaurantes de um certo perfil estão em alta, outras não e aí acabam fechando. Isso sempre acontece."

Ao lado da casa de Orizon Fernandes, um estabelecimento envelhece com a placa de "fechado". Era um restaurante até poucos meses atrás. "Mas daqui a pouco vem outro. Loja abrindo e fechando aqui sempre tem."


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