Comemorar com qual Panamajuru?

Publicação: 2018-07-08 00:00:00 | Comentários: 0
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Dr. Jorge Boucinhas
Médico e Professor

Tempos de Copa, tempo de reuniões festivas, comedeiras e bebedeiras!  E vão garganta abaixo as bebidas mais usuais, quais uísque, cerveja, vinhos, cachaça.  Afora essa última, autóctone, todas com tradição em outras e distantes terras.  Mas bem que se poderia dizer que haveria Panamajuru (bebidas fermentadas) mui autenticamente brasileiras para brindar (ou chorar!), as quais, apesar de não poderem assegurar vitórias contra adversários aguerridos, bem que merecem ser lembradas a bem da brasilidade.  De fato vinhos, como os preparados a partir das cepas de uvas, tampouco cervejas, rigorosamente falando não podem ser computados como tendo feito parte do regime alimentar indígena, embora alguns etnólogos estrangeiros, notadamente André Thevet e Theodor Grünberg, refiram, respectivamente, uma “bière de manioc” (cerveja de mandioca) e um “Palmwein” (vinho de fruto de palmeira) desta Terra Brasílis. 

Típico era o Cauim (kawi) ou Caxixi, a bebida alcoólica tradicional dos povos indígenas da Terra de Vera Cruz, o qual parece ter sido bastante espesso para poder servir de alimento ao mesmo tempo que de estimulante.  Ainda hoje se o prepara por meio da fermentação de mandioca ou milho, às vezes misturados com sucos de fruta (como caju, cajarana, murici).  Uma característica interessante dele é que a matéria-prima é cozida, depois resfriada e mastigada (de forma que a  amilase salivar possa quebrar o amido em açúcares fermentáveis, princípio tradicionalmente usado no Japão para produzir saquê).  Depois de repousado é recozido.  Tal preparação do Caxixi é uma tradição que quase sumiu já do mapa, talvez por seu teor alcoólico ser mais fraco que o dos vinhos d’Europa, tanto que se relata que, de certa feita, os Tupinambás, tendo roubado tonéis de vinho espanhol, dele abusaram confiadamente tendo por resultado ficarem 3 dias um tanto erráticos e entorpecidos.

Com os europeus haviam vindo mudas de cana-de-açúcar, trazidas da Guiné com passagem pelas ilhas da Madeira e de São Tomé.  Com elas chegaram também as técnicas de destilação e surgiram as aguardentes.   Mas houve quem não aderisse à cana, tendo ficado com o Cauim, a partir dele produzindo a Tiquira (nome igualmente originário do tupi, significando “líquido que goteja”, referência direta ao processo “pingado” de destilação).  Os preciosistas dizem que a Tiquira é a genuína aguardente brasileira, já que a mandioca é lidimamente nacional.  Dentre as bebidas obtidas de raízes é a única a ter legislação própria, a qual reza dever ser obtida da destilação do mosto fermentado e manter teor alcoólico entre 38° e 54°GL.  Outros destilados do tubérculo que não sigam os padrões devem ser designados apenas como aguardentes de mandioca.  Ainda hoje tem farta manufatura em diversas áreas do Maranhão, sendo igualmente popular em sítios do Piauí e do Ceará. Originalmente incolor, alguns produtores adicionam-lhe folhas de tangerina durante o processo de destilação, dando-lhe suave cor lilás, que esmaece com o tempo.  Outros optam um corante antisséptico, violeta de genciana, que garante vívido azul-arroxeado.

Voltando-se à relação devida ao Dr. Grünberg, têm-se mais bebidas de mandioca: o Kachiri Sábulu (branco), o Kachiri Kazalumaicu (preto), o Parakali, o Kazili (vermelho, feito da raiz torrada da mandioca).  Acresçam-se ao rol o Anaiyeuku (feito de milho, dito a'naig), o Pilizaeku (feito de uma espécie de planta, a pilizá) e o Kazanalieuku (feito outra planta, a ka'naiiv), o Elupayeuku (feito de uma variedade de banana, a elupá).  Não menos variados eram (e ainda o são) os preparados à base de milho torrado, de cor, aroma e dulçor geralmente suaves, quais o Anaiyeuku, feito de um cultivar dito a'naig.  E também os de batata doce, como o Yzayeku (feito de uma variedade chamada izág).
Grünberg descreveu, minuciosamente, o preparo de três dessas bebidas: Payua, Parakali e Kazalumaiuku.  E pasmem os adoradores do Deus do vinho, seja ele Dionísio ou Baco, que se atenham a amar engarrafados estrangeiros: de uma feita ousou afirmar sobre outra delas:  "De uma batata violeta prepara-se um Kachiri que tem a cor e a delicadeza de uma espumante Champanhe (francesa)”.  Uau!

Os “vinhos” de palmeira (perdoe-se a inadequação do nome, mas optou-se por chamar assim!) continuam a ser usados.  Açaí e Bacaba permanecem deveras reputados como suas matérias-primas, sendo pitoresco o fato de ainda hoje as “amassadeiras”, em geral mulheres de raízes indígenas ou negras, oferecem-nos em barraquinhas ou casas de subúrbio onde põem uma bandeirinha vermelha ou branca, respectivamente indicando venderem a bebida feita a partir do primeiro ou do segundo dos coquinhos.  

Ah, lindo e vasto Brasil, de costumes diversos e pitorescos, que mereceriam muitos Câmara Cascudo para os ajudar a divulgar!

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