Comendo com os olhos: série baseada em livro de Cascudo entra na Amazon

Publicação: 2020-06-02 00:00:00
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Tádzio França
Repórter      

Uma história bem contada sobre gastronomia abre o apetite de qualquer um – ainda mais se for uma narrativa sobre o mais tradicional cardápio nacional. Câmara Cascudo fez isso em 1967 com o livro “História da Alimentação no Brasil”, um clássico que 50 anos depois inspirou a série do mesmo nome. Após a estréia na televisão em outubro de 2017, no Canal CineBrasil TV, a série chegou agora à internet, e está à disposição de assinantes da Amazon Prime Vídeo. A saga da mesa brasileira está posta.


Créditos: Brum


“História da Alimentação no Brasil”, a série, foi dirigida pelo cineasta paulista Eugenio Puppo, e conta com 13 episódios de 30 minutos cada, tendo como fio condutor o livro do historiador e folclorista potiguar. A série traz depoimentos de diversos personagens brasileiros, entre chefs, artistas, estudiosos de diversas regiões do Brasil e de Portugal, e uma gama de informações sociais e históricas levantadas a partir da formação da culinária nacional - resultado da miscigenação entre indígenas, a população africana escravizada, e os colonizadores portugueses.

O banquete audiovisual de Puppo exigiu uma jornada extensa para ser preparado. Para reunir as cenas e os depoimentos necessários para recontar a história escrita por Cascudo em imagens, ele declarou à Tribuna do Norte que foi um processo de cinco anos de trabalho. “Contabilizo cinco ano de processo, desde que falei com a família de Cascudo pela primeira vez até a pré e a pós produção da série. Não quis fazer uma série documental padrão e engessada. Quisemos fazer jus à importância do livro e trouxemos várias cabeças falantes à história”, disse.

As locações do documentário pela Bahia, Pará, Maranhão, Minas Gerais, São Paulo, Rio de Janeiro, Goiás, Pernambuco, e, claro, Rio Grande do Norte, onde a equipe esteve por cerca de 15 vezes. Foram 34 cidades visitadas no Brasil. Já nas gravações em Portugal, o diretor passou por 11 cidades lusitanas, entre elas Porto, Évora, Mirandela e Lisboa. No livro Cascudo selecionou os ingredientes essenciais ou aspectos culturais determinantes e dedicou capítulos específicos a cada um deles, formato que a série também adotou.

Os entrevistados mostram através de diferentes pontos de vista como a comida participa das relações sociais. Entre os entrevistados estão Carlos Alberto Dória (sociólogo), Mara Salles (chef), Ana Luiza Trajano (chef), Fernanda Takai (cantora), Alberto da Costa e Silva (historiador), Chico César (cantor), e José Avillez (chef). Os depoimentos são complementados por imagens de arquivo, algumas bastante raras, retiradas de curtas e longas metragens de Humberto Mauro, Caravana Farkas, e obras do acervo do Instituto Ludovicus Câmara Cascudo, Museu do Índio, Cinemateca Portuguesa, e acervos particulares.

Entre as viagens para construir a série, Eugenio Puppo constatou que o interior do país se destaca na conservação das tradições culinárias. “Há uma tendência de que no ambiente interiorano e rural essa cultura seja mais forte, mas o resgate das tradições também está com muita força nas áreas urbanas. As pessoas querem comer como no tempo dos seus avós. E ainda tem a cultura orgânica que está com tudo. A série mostra como as coisas eram feitas antigamente”, explicou.

Filmar a série trouxe ao diretor muitas surpresas e redescobertas. “Não cansei de me surpreender com a riqueza de nossas comidas. 

Descobri frutas, sementes, folhas, plantas, chás, e até muitos azeites que as pessoas desconhecem, tão ou mais saborosos que os portugueses e espanhóis. Não podemos deixar que essas belezas sejam apagadas ou obscurecidas pelo desconhecimento da maioria das pessoas”, disse.  

Sabor em capítulos
A série foi dividida de forma a ter quatro episódios dedicados a cada uma da tríade mestiça que formou a cultura culinária brasileira: a indígena, a africana, e a portuguesa. O primeiro episódio, “A Rainha do Brasil”, é uma ode à mandioca. O título, aliás, foi dado pelo próprio Câmara Cascudo. Até hoje muito consumida em todas as partes do país, a mandioca é um dos produtos-chave para entender a alimentação brasileira. O Pará é o centro desse episódio, mas também passou por São Miguel do Gostoso, aqui no RN.

O segundo episódio é o “Verde milho, doce milho”, ingrediente versátil e sempre presente na dieta alimentar indígena, de alta importância histórica na cultura brasileira. O episódio três, “O caso das bananas”, mostra a construção da identidade dessa fruta trazida pelos portugueses na cultura latino-americana. O episódio quatro, “Temperos da panela indígena”, explica o uso das pimentas, das ervas, a caça e o moquém, precursor do característico churrasco brasileiro.

“Bebidas inebriantes e alimentos líquidos” é o tema do quinto episódio, mostra o poder e o sabor de papas, mingaus, pirões e refrescos, além das bebidas alcoólicas fermentadas pelos indígenas. “Leite de coco”, o episódio seis, mostra como o coco (de origem asiática) foi abrasileirado com muito gosto pela colonização. No episódio sete, “A história do cuscuz”, conta-se a aventura de um dos legados africanos mais saborosos na gastronomia brasileira. O oitavo episódio, “Dieta africana”, se aprofunda ainda mais nessa história, mostrando como se faz o azeite de dendê, a comida de terreiro, o arroz hauçá, e o frango com ginguba.

O episódio nove, “Ementa portuguesa”, mostra como essa é uma história de trocas e adaptações. “A comida real”, do episódio dez, apresenta o cardápio que se servia nos palácios e cozinhas reais de Portugal, que na verdade era discreta e de poucos gastos. A parte mais doce da história portuguesa vem no 11º episódio, “O doce nunca amargou”, mostrando como se fazia desde antes do açúcar, a influência dos mouros e dos conventos.

O Brasil entra na sobremesa histórica no episódio 12, “Doces Histórias”, que mostra como a abundância de espécies frutíferas aliada à onipresença da produção açucareira fez nascer um grande número de doces de frutas e compotas de todos os tipos. O filme veio ao RN para mostrar a produção do alfenim, doce que alia o açúcar com a técnica da tradição doceira portuguesa. Por fim, o 13º episódio “Todo trabalho do homem é para sua boca” é dedicado à vida e obra do homem que inspirou a série. É mostrado o processo de pesquisa de Cascudo, suas viagens pelo Brasil e fora dele. O mestre potiguar pesquisou quase 20 anos para escrever “A história da alimentação no Brasil”.   







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