Comerciantes amargam prejuízos com orla fechada em Natal

Publicação: 2021-03-02 00:00:00
Milka Moura
Repórter

Na praia de Ponta Negra, a primeira segunda-feira após o decreto do prefeito Álvaro Dias (PSDB) de fechamento das praias nos fins de semana e feriados, um número considerável de banhistas aproveitou o local pela manhã, mesmo com o tempo nublado. Nas barracas que colorem a orla, muitas famílias com crianças aproveitavam o mar, conversavam e ouviam música. 

Créditos: Milka MouraNo final de semana, cena mais comum nas praias urbanas era a do guarda-sol e mesas guardadasNo final de semana, cena mais comum nas praias urbanas era a do guarda-sol e mesas guardadas

Jair Brasiliano trabalha há 4 anos em Ponta Negra como barraqueiro, em um ponto próximo ao Morro do Careca. Ele conta que desde o primeiro fechamento, no início da pandemia do novo coronavírus ainda em 2020, as vendas na praia caíram cerca de 90%.

Em relação à nova medida da Prefeitura do Natal, publicada no final de semana passado no Diário Oficial do Município, Jair explica que com as barracas fechadas,  muitos trabalhadores que dependem da praia tiveram perda no faturamento, com a drástica queda no movimento.

“No final de semana tivemos que fechar as barracas. O pessoal que depende da praia, os garçons, barraqueiros, ambulantes, tiveram bastante prejuízo, praticamente não venderam nada. O público foi zero... e todo mundo depende da praia para sobreviver”, afirma o autônomo.

Na barraca de Jair, outras oito pessoas estão empregadas. Os três presentes no momento da entrevista eram jovens. Todos à espera de um novo cliente. Para Jair as novas medidas sanitárias adotadas para a contenção do aumento de casos de Covid-19 não estão equivocadas. Sua queixa é relacionada ao desamparo, em sua opinião, com os comerciantes locais.

“O prefeito tomou a medida correta. A saúde sempre vem em primeiro lugar. Mas para o trabalhador, isso prejudicou bastante porque não tivemos nenhum auxílio da Prefeitura, do Governo... devem ser tomadas medidas também para beneficiar os trabalhadores. Praticamente não tivemos nenhum auxílio, nenhuma assistência”, detalhou o trabalhador. 

Créditos: Milka MouraLuís Carlos, vendedor de churrasquinho há 25 anos, diz que vai procurar outra fonte de rendaLuís Carlos, vendedor de churrasquinho há 25 anos, diz que vai procurar outra fonte de renda

Para os próximos 15 dias, tempo de validade do novo decreto nas praias, as perspectivas de Jair e de seus funcionários são de poucas vendas.

Na Praia do Meio, por volta das 11h dessa segunda-feira, a maré ainda estava seca e nas poças d´água que escaparam das pedras um pequeno grupo de pessoas se banhava. Aos pés da estátua da rainha Iemanjá não tinha ninguém, só a 'presença' de alguns guarda-sóis fechados.

Mais à frente, muitas barracas também estavam fechadas ou agrupadas e guardadas esperando serem abertas. As que estavam dispostas na areia da praia, foram ocupadas por poucas famílias.

Em meio à solidão da manhã de segunda-feira na praia, era possível ver Luís Carlos, 34 anos, em pé, junto ao seu carrinho de espetinho. De boné branco virado para trás, enquanto grelhava algumas peças de frango e carne, ele parava por alguns segundos e olhava para longe, como se esperasse  alguém.

Novos clientes, talvez. Ele vende comida na orla há 25 anos. No último fim de semana já estava se preparando para as vendas quando foi surpreendido pela restrição. 

Luís Carlos também lamenta a falta de movimento nos últimos dias. Ele conta que as vendas estavam consideravelmente boas até a publicação do novo decreto no último dia 26 de fevereiro. Ele também considera que as medidas são necessárias, todavia, não sabe como serão os próximos dias no trabalho, que é o seu único sustento. 

“No carnaval deu até um movimento. Mas, depois, baixou mais. E agora a gente só pode trabalhar até a sexta-feira, fim de semana será fechado. Ele (o prefeito) deu quinze dias, né? Depois dos quinze dias vamos ver como vai ficar”, diz. 

Após quase uma vida inteira de trabalho na praia, Luís Carlos conta que planeja procurar outro trabalho.  “Eu tô pensando em procurar outro trabalho já, porque se for depender só da praia não vai dar... Viemos hoje, mas olha o movimento (enquanto fala aponta para o vazio da praia), quase nada. Espero que melhore”, declara. 

Infrações ao toque de recolher são registradas
O final de semana foi marcado por fiscalizações ao cumprimento, ou não, das determinações do Governo do Estado relativas ao toque de recolher no Rio Grande do Norte, das 22h às 5h. Segundo a Secretaria da Segurança Pública e da Defesa Social (Sesed/RN) o primeiro fim de semana de vigência do decreto foi considerado tranquilo pelas forças de segurança, com o registro de duas ocorrências policiais.

A tranquilidade registrada durante as fiscalizações do final de semana, segundo o titular da Sesed, Francisco Araújo, tem a ver com um processo maior de conscientização das pessoas em relação ao cumprimento dos decretos estabelecidos pelo Governo Estadual. 

“Normalmente, quando o efetivo policial chega a um lugar para a fiscalização sempre há um pouco de resistência, mas basta uma conversa e as pessoas compreendem que devem ir para casa. Elas estão mais conscientes da gravidade do momento. Agora, tem gente que está percebendo a falta de leitos e a dificuldade de internação. Tem muitas pessoas que estão perdendo familiares ou que conhecem alguém que perdeu um parente. Então, há uma compreensão da necessidade do isolamento social”, destaca Francisco Araújo.

O toque de recolher no Rio Grande do Norte teve início na noite do sábado (27), e deve seguir em todo o Estado até o dia 10 de março. Dois homens foram detidos nas duas primeiras noites de fiscalização – um deles no bairro Potengi, na zona Norte, ao se recusar a deixar o bar em que bebia no sábado – e o outro em São José do Campestre, no domingo (28). Nesse caso, o homem foi detido e levado para a Delegacia Regional de Nova Cruz. Nas duas ocorrências, segundo a Polícia Civil, foi assinado um Termo Circunstanciado de Ocorrência (TCO) e os detidos liberados para seguirem imediatamente para seus lares.

Natal
Foram 11 autos de infração, duas interdições totais e apreensão de um paredão de som durante o fim de semana passado em Natal. As ações integradas com o Governo do Estado na operação Pacto Pela Vida ocorreram nas quatro zonas administrativas e também contam com agentes da secretaria  de Serviços Urbanos (Semsur), Guarda Municipal (GMN), além das Polícias Militar,  Civil e Corpo de Bombeiros.

 “Três lanchonetes, em Neópolis, foram autuadas com multa grave por descumprirem o horário de funcionamento previsto pelo decreto, pois estavam funcionando além das 23h. E uma delas teve suas atividades interditadas totalmente devido às condições sanitárias  por ter sido notificada anteriormente e seguia na desobediência”, disse o supervisor geral de fiscalização ambiental da Semurb, Leonardo Almeida, sobre as ações desenvolvidas no sábado (27). Já durante o domingo (28) foram cinco autos de infração e uma interdição total a um bar na Avenida Ayrton Senna. 

  A população também pode ser um agente fiscalizador realizando denúncia, que pode ser anônima, entrando em contato pelo telefone da Ouvidoria da Semurb no (84) 3616-9829, de segunda a sexta-feira, das 8h às 14h, ou ainda pelo e-mail ouvidoria.semurb@natal.rn.gov.br. Além do canal 24h do Ciosp pelo 190 e o 181 (Disque Denúncia- Polícia Civil) nos fins de semana e feriados.