Comitê aprovou plano de retomada

Publicação: 2020-06-06 00:00:00
A+ A-
A TRIBUNA DO NORTE conversou com a médica infectologista Marise Reis, que integra o Comitê Científico da Sesap/RN. No dia 19 de maio,  Comitê aprovou o plano gradual de reabertura do comércio e retomada das atividades econômicas elaborado pelos setores produtivos. Entretanto, a médica afirmou que a possibilidade de retomada está diretamente vinculada à capacidade do RN de achatar a curva de contágio e óbitos pela doença, o que demanda comprometimento da população com as medidas de isolamento social. Confira a entrevista.

Créditos: Elisa Elsie


O Comitê apontou que esse é o decreto mais rígido editado pelo Governo do Estado até o momento. Mesmo assim, não se fala em isolamento mais amplo, o ‘lockdown’.  O Comitê avalia que as medidas adotadas são suficientes diante da situação do Rio Grande do Norte?
A avaliação que nós fazemos é que o Rio Grande do Norte fez um padrão de isolamento social inicialmente que deu conta de manter uma curva mais lenta de crescimento da epidemia. Isso foi observado no mês de abril, no comecinho da transmissão. O decreto adotado inicialmente deu conta de fazer com que essa ascensão se desse de forma mais lenta, diferente do que a gente observou em Recife, Fortaleza e Manaus, por exemplo. O que a gente observou é que, a partir de maio, houve um descumprimento geral do decreto: serviços não essenciais abertos, serviços essenciais sem controle rígido, filas nos bancos, sobertudo na Caixa Econômica, com aglomeração de pessoas, inclusive na rua. 

Isso foi ruim para o combate à pandemia?
Aquele processo foi bastante complicado para o Rio Grande do Norte, e isso resultou em uma mudança da curva. Saímos de uma condição mais equilibrada para uma condição de aceleração de casos. A avaliação que nós fazemos é que, se nós conseguirmos implantar tudo que já foi definido anteriormente e apertar um pouco mais o cerco com supervisão, vigilância e cobrança de quem não cumpre, nós conseguiremos fazer a curva chegar a um nível em que o serviço de saúde dê conta de cuidar dos pacientes. O isolamento social não é para retirar o vírus de circulação, mas sim para reduzir a taxa de transmissão, fazendo com que o adoecimento se dê de forma mais lenta, o que vai permitir com que o serviço de saúde atenda àqueles que precisarem de assistência. No entendimento do Comitê, mais importante que o decreto em si, é a questão do pacto que a governadora está fazendo com os prefeitos dos municípios, porque a supervisão e a cobrança para que se cumpra o que está determinado é feito pelo município, então o pacto é tão importante quanto o decreto nesse momento. 

No dia 19 de maio, o Comitê Científico emitiu um parecer técnico a respeito do plano de retomada das atividades no RN. O novo decreto traz a possibilidade de reabertura, com uma série de condicionantes, para o dia 17 de junho. É prudente falarmos de reabertura e retomada nesse momento, ou o Comitê considera a possibilidade precipitada?
Essa data não é uma recomendação do Comitê, mas sim uma decisão do Governo. É a data que eles entendem que é importante que se revise se há possibilidade de abertura. É importante deixar claro que a data não significa que no dia 17 de junho as coisas vão reabrir e a vida vai voltar ao normal. Existe um plano estratégico de um grupo de trabalho, com a equipe de empresários do setor econômico, que montaram um plano de reabertura em quatro fases. Esse plano foi avaliado e aprovado pelo Comitê, e lá está claro que a abertura só vai acontecer se as condições sanitárias permitirem. Isso está tanto no Decreto como no Plano, então a data que está apontada, no nosso entendimento, é principalmente para que as pessoas vislumbrem essa possibilidade e tenham um horizonte à frente e pensem “eu vou fazer meu máximo para ter a possibilidade de começar o processo de abertura nesse dia”. A efetivação disso só pode acontecer se nós conseguirmos baixar a curva. 

Em algumas cidades do Brasil, já ocorreu um movimento semelhante de reabertura do comércio após a intensificação das medidas de isolamento durante um período de tempo. Nessas cidades, já foi observado um novo aumento na curva de contágio após a reabertura. Corremos esse risco no RN?
Corremos esse risco desde que não tenhamos o rigor necessário em avaliar se está realmente na hora e o que é essencial pra abrir. Esse é um ponto importante: não vai ser reaberto tudo de uma vez. Os serviços vão reabrir de acordo com o quão essenciais forem, e também de acordo com os riscos de transmissão que eles proporcionam. Ainda assim, os que vão abrir vão precisar ter um protocolo de trabalho que reduza a transmissão e o movimento das pessoas. O Comitê entende que o processo de reabertura precisa ser planejado com muito cuidado, e o grupo dos empresários locais tiveram muito cuidado com o plano, por isso ele foi acatado. Várias coisas precisam ser olhadas com cuidado, como o transporte dos profissionais, que preferencialmente não deverá acontecer por transporte público. O risco de aumentar novamente a transmissão da doença com a reabertura é real, mas o que vislumbramos é: um aumento progressivo, de forma que o serviço de saúde dê conta de atender à demanda, e que permita minimamente à cidade retomar sua atividade econômica, que é importante também para preservar empregos e vidas. Temos clareza de que o controle dessa epidemia passa por um olhar multilateral. O próprio plano de reabertura prevê que, se após a reabertura da primeira fase, caso haja um aumento da curva, a segunda fase não vai poder acontecer, por exemplo.







Deixe seu comentário!

Comentários