Cena Urbana - Vicente Serejo
Como um rio...
Publicado: 00:00:00 - 23/01/2022 Atualizado: 15:04:05 - 22/01/2022
Vicente Serejo
serejo@terra.com.br
Reprodução

Todos os anos, quando dezembro vai findando seus dias e janeiro aponta nas esquinas, fico daqui, do meu pequeno posto de sentinela dos morros, a acompanhar a vida humilde da pequena orquídea que Rejane cultiva no canto da varandinha do nosso apartamento. Não sei dizer seu nome, muito menos sua classificação. Faz tempo, não lembro mais como chegou, mas sei que é das mais simples, esquecida de todos os orquidários, afinal falta-lhe a nobreza das florações majestosas.

O seu luxo está na simplicidade de cumprir o destino - esse de oferecer a beleza das coisas simples. Se fosse rara e exigisse as mãos sábias de um orquidófilo, especialista em coisas nobres, talvez não fosse tão fiel ao ofício da beleza. Vive do seu mistério, cuidada pelos olhos amorosos de Rejane. Pra que mais? Quando chega janeiro, lança um pequeno pendão - seria o termo exato na orquidofilia? - que vai se desdobrando, luxuosamente, ao peso do pequeno cacho de orquídeas.

Os exigentes dirão, por certo, que a mim, um cronista mundano, a vida não ensinou as lições do conhecimento. Acredito. Não costumo lutar contra a certeza dos desafetos e deixo que a cultivem sem contestação. Mas, é no seu silêncio e na sua resiliência - para usar uma palavra tão em voga - que aprendi a acreditar na vida, mesmo quando desabam sobre os ombros os medos das más notícias que chegam e que é preciso enfrentá-las como se viver não fosse uma grande dádiva.

Também não sei dizer, a essa altura de uma vida que já se estira ao longo de setenta anos, se vale à pena sentir que as dúvidas vão aos poucos substituindo as certezas que antes luziam como estrelas de um firmamento íntimo pobre de conquistas. Nem mesmo se compensam novos sonhos, se agora, viver cada dia, é mais urgente do que ter a certeza de muitos anos. O tempo ensina a mão a guardar a espada diante da exaustão. Nada como ter a sombra, a água fresca, o remédio e o pão.

Mas, há os que teimam e a teimosia, reconheçamos, não é de todo boa ou má, um bem ou um mal, como preferir o leitor. A vida também tem seus pesos e contrapesos na medida em que é feita de pecados e virtudes. Mais do que a uns desejar e a outros renegar, é vivê-los como se tivesse razão o brocardo, velho como a noite, de que é preciso trabalhar como se fosse morrer amanhã e viver como se não fosse morrer nunca, ainda que cada um carregue o grande fardo de suas perdas.  

A vida - e não há novidade na certeza - é como um rio: passa. Não importa se suas águas não sejam mais aquelas que passavam felizes. Elas passam como se não fossem acabar nunca.  Se é do homem - repita-se Unamuno - arrastar na própria alma o sentimento trágico do fim, então viva-se como as águas do rio que passa. O caminho que anda, no verso triste da canção popular. Não há muito o que fazer ou desfazer. Nunca é cedo e nunca é tarde para um rio que passa. Nunca...

ROLETA - Frio e certeiro o jogo do MDB quando aceitou o convite para almoçar com o prefeito Álvaro Dias e o ex-prefeito Carlos Eduardo Alves: avisou ao PT a cotação do seu apoio nas urnas.

EFEITOS - O gesto de Garibaldi e Walter, pai e filho, mostra ao PT e ao PSDB que não é refém de um ou de outro. Walter pode ser vice da melhor proposta. Em política toda roleta tem um crupiê.

AVISO - O maior adversário político de um presidente e o único a abatê-lo nas urnas é a economia quando vai mal, mas Bolsonaro pensa que é Lula. Foi a economia que derrubou Dilma Rousseff.

QUEM? - A coluna, há quem duvide, mantém a pergunta: ‘Quem vai à direção nacional do MDB pedir a expulsão de Henrique Alves ou o veto à sua candidatura? Garibaldi? Walter? Ou os dois?

LUA - Março vai trazer o livro de Saddock Albuquerque, feito de um longo e belo poema que é o seu testamento poético aos macauenses - os vivos, os mortos e os eternos. Um marco que se ergue.  

GANSOS - Já nos dias de abril, quando o mar se ausenta, para lembrar o verso célebre de Lêdo Ivo, outra notícia: o novo romance de Francisco Sobreira - “O Homem que Passeava com Gansos”.  

NATAL - Em junho, quando ardem as fogueiras de São João, sai dos prelos o livro de Jair Navarro, reunião do que viu e viveu na sua Natal dos Reis Magos. O desportista, o rapaz galante e o médico.

POESIA - Do poeta Jalâl ad-Dîn Rûmî, Afeganistão, tradução de Marco Lucchesi: “Perdi-me no tempo e no espaço. / Perdi-me nos mares do verbo. / O gosto deste vinho / conhece quem sofreu”.

SOLIDÃO - Agora só o prefeito Álvaro Dias, na solidão da sua decisão, poderá decidir, e mais ninguém, sua candidatura ao governo. Como fez Wilma de Faria quando passou a poltrona oficial do Palácio Felipe Camarão a Carlos Eduardo Alves, e foi enfrentar uma avalanche de poderosos.

CRIVO - Para renunciar, colocou a condição ao vice, Carlos Eduardo Alves: romper politicamente com o PMDB e, portanto, com a família, o que ele fez através de uma carta dirigida a Agnelo, o pai; e a Aluízio Alves, tio e líder maior do partido. E apoiou Wilma que governou por duas vezes.

AGORA - Como Wilma e Carlos que renunciaram - Álvaro assumiu na renúncia de Alves - outra vez o quadro: para disputar o governo precisa decidir, na absoluta solidão, se renuncia ao mandato como a única saída capaz de unir a tradição com chance de derrotar Fátima Bezerra. Renunciará?  


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