Companha de Polícia Feminina tem mais homens

Publicação: 2020-01-26 00:00:00
A ausência de mulheres na Polícia Militar do Rio Grande do Norte se reflete, inclusive, no único destacamento da PM feminino no Estado. São apenas 12 mulheres lotadas na Companhia de Polícia Feminina (CPFEM). O contingente da Companhia não foi divulgado pela assessoria da Polícia Militar, mas a TRIBUNA DO NORTE apurou que esse efetivo é de cerca de 40 pessoas. 

Créditos: Alex RegisNo Corpo de Bombeiros do Rio Grande do Norte, de 653 profissionais, 22 são mulheres. A proporção é de 1 mulher para 30 homensNo Corpo de Bombeiros do Rio Grande do Norte, de 653 profissionais, 22 são mulheres. A proporção é de 1 mulher para 30 homens
No Corpo de Bombeiros do Rio Grande do Norte, de 653 profissionais, 22 são mulheres. A proporção é de 1 mulher para 30 homens

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“A Companhia hoje é muito pequena. São de 9 a 12 mulheres e o resto é de homem. A gente está tentando reestruturar a Polícia Militar”, explica o coronel Zacarias Mendonça, subcomandante da Polícia Militar do RN. 

De acordo com o coronel Mendonça, são poucas as mulheres que prestam serviço nas ruas do Estado atualmente. Das 131 na corporação, cerca de 20 delas estão nas ruas. A maioria dessas mulheres policiais, atualmente, presta serviços em áreas administrativas, como diretoria de Ensino, Pessoal, Saúde, Finanças, Apoio Logístico, Pessoal Inativo, entre outras. Não há mulheres no serviço ostensivo no Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope) ou no Batalhão de Polícia de Choque (BPChoque), por exemplo. 

Atualmente, uma viatura exclusivamente feminina circula todos os dias pelas ruas de Natal fazendo o policiamento ostensivo. “A mulher atua em alguns tipos de ocasiões em que haja uma abordagem que seja necessário a presença de uma mulher, tipo de revistas que a gente precisa fazer”, explica o subcomandante. 

“A mulher tem uma visão mais apurada, o trato às vezes é melhor, forma de abordagem com pessoas. A questão de viver aquilo, a experiência feminina pode ajudar nisso”, cita o coronel Mendonça, citando situações específicas vividos pelas mulheres, como uma violência doméstica, por exemplo.

Mesmo com a reposição em curso, com 62 vagas para soldados, o número de mulheres na Polícia Militar tende a diminuir em breve. Isso porque a primeira turma de mulheres praças da PM do Estado foi formada em 1990 e as mulheres estão perto de atingirem a idade de ir à reserva. As outras turmas aconteceram nos anos de 1992, 2000 e 2004, esta última com 100 vagas.

Situação dos Bombeiros
Segundo a Pesquisa Perfil das Instituições de Segurança Pública, o Corpo de Bombeiros Militar do Rio Grande do Norte tinha, em 2017, apenas 3 mulheres em sua corporação e 575 homens. A proporção era de 1 para cada 191 homens, a maior disparidade do Brasil. 

A distância entre homens e mulheres se reflete na maioria dos estados brasileiros respondentes da pesquisa (apenas o Piauí não respondeu). Após o RN, aparecem Ceará (49,06), São Paulo (17,84) e Pará (15,62). As unidades federativas com os melhores índices de equidade em suas corporações de bombeiros são Amapá (2,3), Bahia (2,87), Rio de Janeiro (4,3) e Roraima (4,90). 

A reportagem da TRIBUNA DO NORTE entrou em contato com o Corpo de Bombeiros do RN e solicitou o atual quadro da corporação. Dos 653 profissionais, 22 delas são mulheres. A proporção agora é de 1 mulher para 30 homens. O último concurso para o quadro foi em 2017, com 70 vagas. 

Nacionalmente, o Brasil tinha, em 2017, 59.901 bombeiros homens e 7.463 mulheres. A proporção era de 8,02. De acordo com o comandante do CBM-RN, Coronel Luiz Monteiro, a corporação ter se desmembrado da PM em 2002 pode ter sido um fator para que o grupo tenha poucas mulheres.

Ele conta que, neste período, foram feitos três concursos, mas só o último foi de livre concorrência. “Esses três, só o último que foi aberto. E os próximos vão ser. Está comprovado que as mulheres são tão competentes quanto os homens”, disse.

“Aqui no Corpo de Bombeiros é aberto. O último foi para 90 vagas, se tivesse passado 90 mulheres, iria ter um curso de formação só para mulheres, respeitando a Constituição Federal que não pode fazer discriminação alguma”, disse. 

A Polícia Civil é a que apresenta as melhores proporções em todos os estados. A mais alta, para se ter ideia, entre 25 estados respondentes, é a do Piauí, com 1 mulher para cada cinco homens. No Rio Grande do Norte, essa proporção, em 2017, era de 3,66.

A Polícia Civil do Estado enviou dados à TRIBUNA DO NORTE relativos ao atual quadro de profissionais. São 181 agentes, 85 escrivães e 30 delegadas. As escrivães mulheres representam mais da metade do efetivo, sendo 53,80%. As agentes fazem parte de um universo de 18% e as delegadas são 18,99% de sua função.

Mulheres contam suas histórias na Segurança Pública

Créditos: Alex RegisMarivânia Souza SilvaSargento da PM, 38 anosMarivânia Souza SilvaSargento da PM, 38 anos
Marivânia Souza Silva
Sargento da PM, 38 anos

Inspirada nos filmes de Kate Marrone e sonho de criança, a sargento Marivânia Souza Silva, 38 anos, já está há 15 anos na Polícia Militar e fala com orgulho da profissão. “Sou muito suspeita para falar da minha profissão, eu respiro polícia”, conta.

É curiosa a forma como ela entrou na PMRN. Morando no Rio de Janeiro, ela veio à Natal, cidade onde nasceu, para cursar Enfermagem e acabou prestando o certame de 2004. Detalhe: não contou aos pais e só revelou quando estava formada como sargento de polícia. “Ela quase caiu para trás, tinha muito medo, achava uma profissão perigosa. Hoje ela respeita, sabe que eu gosto”, comenta. Nos seus 15 anos de polícia, ela já passou pelo BPChoque, Força Nacional e outros destacamentos. Atualmente está na Companhia de Operações e Patrulhamento em Áreas Rurais (CIOPAR).

Por ser mulher, ela conta que passou por preconceitos no tocante a tentarem impedi-la de participar de operações e missões especiais. “A primeira ação foi essa, não me deixar ir, mas sempre justifiquei com argumentos porque eu, que sou cursada, não posso ir. Por que sou mulher?”, disse. “Meus superiores viam a minha capacidade, minhas apreensões, meu trabalho e me aceitaram e sentiam maior respeito por mim”, acrescenta.

Na sua carreira, ela conta que uma das missões que mais se orgulha foi quando, voltando ao BPChoque com a viatura, viu um homem prestes a pular da Ponte Newton Navarro. Ao lado de um companheiro, conseguiu salvar o homem com ajuda de uma corda. O homem já estava suspenso, se segurando apenas no ferro. Ela conta que até hoje ele é grato pela ação. “Ele agradeceu demais. Inclusive, fizemos um churrasco para ele na minha casa”, revela.

Créditos: Alex RegisMárcia Fazolo MartiniCapitã do Corpo de Bombeiros , 35 anosMárcia Fazolo MartiniCapitã do Corpo de Bombeiros , 35 anos
Márcia Fazolo Martini
Capitã do Corpo de Bombeiros , 35 anos

Prestes a completar 13 anos no Corpo de Bombeiros do Rio Grande do Norte, a capitã Márcia Fazolo Martini é uma das 22 mulheres que compõem a corporação potiguar atualmente. Ela lamenta o baixo número de mulheres no quadro, mas fala com orgulho da profissão. 

Natural do Rio de Janeiro, ela entrou nos Bombeiros em 2007 pelo interesse em Educação Física e esportes. “Como eu era nadadora, sempre quis ser guarda-vida. Sempre procurei uma profissão que pudesse agregar tudo”, diz. Em 2017, quando o CBM-RN atingiu um dos seus menores efetivos femininos, ela era uma das três mulheres que compunham a corporação. 

“A gente lamentava porque quanto mais é sempre melhor. Apesar dos meninos serem acostumados com a nossa presença e não ter nenhum grande preconceito, de achar que a gente é menos ou mais, mas a gente sempre queria. É mais fácil o diálogo, poder angariar mais espaço, alojamento melhor, avanços para o feminino”, explica. No seu tempo de profissão, ela conta que já fez vários cursos de especialização nos Bombeiros e revela ainda um dos seus casos mais emblemáticos. Em 2011, um caminhão invadiu uma casa em Brasília Teimosa, zona Leste de Natal, e soterrou três pessoas. 

“Logo quando eu cheguei, ainda era aspirante. Eu tinha acabado de fazer um curso de estruturas colapsadas, para resgatar pessoas de escombros, e eu vi a situação acontecendo. Eu estava lá e foi um resgate muito legal de participar. Por mais perigoso que seja, você fica na expectativa de poder ajudar e querer resolver”, revela. 

Créditos: CedidaSandra Maria de SouzaSargento da PM, 50 anosSandra Maria de SouzaSargento da PM, 50 anos
Sandra Maria de Souza
Sargento da PM, 50 anos
A sargento Sandra Maria de Souza, 50 anos, viu na Polícia Militar a realização de um sonho que sempre esteve presente em sua vida: o militarismo. Admiradora das Forças Armadas, ela conta que sempre prestou atenção na PM, mas lamentava que não havia espaço para as mulheres na sua época.

Foi quando em 1990, na primeira turma de praças do RN, ela resolveu prestar o concurso. “Eu sempre admirei a PM. Sempre me chamava a atenção e às vezes eu até me imaginava sendo uma deles. Minha mãe nem acreditou porque não tinha mulheres na Polícia”, revela. Natural de Riachuelo, ela trabalha na 2ª Companhia Independente de PM de João Câmara, onde mora há 17 anos. Há outra mulher ao lado dela nesse destacamento.

Ela cita a falta de estrutura para as policiais mulheres, como banheiros e alojamentos. “A gente trabalha com os homens. Não tenho alojamento feminino e me moldei e me acostumei em dividir o mesmo espaço com o masculino”, revela.

Além de trabalhar no serviço ostensivo de rua, a sargento Sandra conta que coordena, nas folgas, o projeto Polícia Mirim Batalhão Esperança, com 130 crianças em João Câmara. “Há um investimento muito grande na criança  na prática de crimes, e se tiver algo que envolva a criança nas práticas esportivas ou outros atrativos, certamente ela ficará longe do crime”, aponta.

Perto de completar 30 anos de serviço, ela revela o dia em que participou da desarticulação de um quadrilha que estava prestes a fraudar caixas eletrônicos em João Câmara. “Articulei forças especiais e a a quadrilha foi presa em uma pousada as margens da BR-406 em João Câmara”, revela, com orgulho.







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