Compre uma ideia

Publicação: 2017-06-09 00:00:00
Ramon Ribeiro
Repórter

Num cenário não muito favorável para investimentos na cultura, seja pela iniciativa privada ou pública, a saída para os artistas é buscar o apoio daqueles que, faça chuva ou faça sol, estão sempre ao lado: os fãs. É com o apoio deles – e daqueles que valorizam novas ideias – que projetos de livros, curtas-metragens, discos, espetáculos, festivais, dentre outros, têm conseguido sair do papel, de uma maneira menos burocrática e dentro do ambiente virtual. O mecanismo para esse custeamento direto de projetos é o  crowdfunding – trazendo para o português: financiamento coletivo.

A estratégia está cada vez mais popular no Brasil e em Natal não é diferente. No país, sites como o Catarse e o Kickante viabilizam projetos através do financiamento coletivo. É pela ferramenta que a banda Dusouto está buscando recursos para finalizar a gravação de seu quarto disco “Conecta” e a banda Talma e Gadelha está juntando fundos para sua primeira turnê europeia. Os dois grupos estão com suas campanhas de financiamento coletivo abertas.

Créditos: DivulgaçãoFaltam alguns dias para encerrar a campanha do “Conecta”, novo disco da banda DuSoutoFaltam alguns dias para encerrar a campanha do “Conecta”, novo disco da banda DuSouto

Faltam alguns dias para encerrar a campanha do “Conecta”, novo disco da banda DuSouto

Em 2016, as bandas Plutão Já Foi Planeta e Far From Alaska apostaram no crowdfunding e arrecadaram parte dos recursos necessários para gravar seus novos discos “A Última Palavra Feche a Porta” (2017) e Unlikely (ainda a ser lançado), respectivamente. A cantora Simona Talma também fez uso da ferramenta para o projeto do disco solo “Ficção”, que ainda está em fase de gravação, mas deve sair até o final do ano.

A cantora potiguar não conseguiu atingir a meta dos R$ 25 mil, ficou só nos R$ 5 mil, mas o valor não deixa de ter a sua importância. Ela diz que cada campanha é uma experiência diferente. “Cada projeto pede estratégias específicas. Uma coisa que aprendi é que as recompensas precisam ser pensadas com cuidado para não acabar gerando muitos custos no orçamento total. Por exemplo, com a campanha do Talma e Gadelha conseguimos patrocínio com os festivais Dosol e Mada para bancar as recompensas”, comenta. “A época está barra. Para viabilizar um projeto temos que buscar todas as alternativas possíveis: show, patrocínio, editais públicos”.

A diretora Babi Baracho, do Coletivo Caboré, é da mesma opinião de Simona. Para ela, a falta de incentivos financeiros para a cultura levar os artistas a se reinventarem. Com relação ao segmento audiovisual, cujos projetos são bastante custosos, a diretora conta que faltam editais públicos na esfera federal (para curtas) e estadual.

Ela está com o projeto de curta “Sem Retrato e Sem Bilhete” no Catarse. A meta é conseguir R$ 15 mil, mas faltando oito dias para o final da campanha, pouco mais de R$ 4 mil foram arrecadados. Ela tinha inscrito o roteiro do curta no edital municipal Cine Natal 2016, mas não foi contemplada. Então decidiu tirar o projeto da gaveta e tentar realizá-lo de outra forma. “É complicado trabalhar sempre no cinema roçoio, na brodagem. Estamos usando tempo de trabalho de muitos profissionais e precisamos arcar com os custos de logística de produção, de arte, etc”, comenta.

Apesar de apostar no financiamento coletivo, Babi lamenta a falta de condições. “Precisamos parar de trabalhar sem condições de trabalho, caso contrário o cinema vai demorar muito a ser visto como mercado em Natal. A gente faz sem grana, fato. Mas precisamos lutar melhores condições”, critica.

Público, fãs e colaboradores
Babi reconhece que um dos pontos positivos do crowdfunding é possibilitar uma maior divulgação do projeto. “Dá para conseguir chegar a outros públicos, pessoas que talvez não estejam inteiradas da articulação da cena audiovisual potiguar”, comenta.

Professor de Sistemas de Informação do IFRN, Pedro Baesse é um frequente apoiador de projetos por plataformas digitais. Seu interesse maios é por projetos por na área de tecnologia, mas quando alguma banda ou artista que ele gosta de acompanhar estão com campanha, ele apoia. Como é o caso do disco novo da banda Dusouto, a viagem do grafiteiro Pok para expor em Paris, em 2016, o filme do Destino Coletivo, cuja campanha aconteceu em 2015, o quadrinho “Ana e o Sapo”, de Analu Medeiros, de 2013, dentre outros.

“Mais do que as recompensas oferecidas, é a ideia que mais atraia o apoio. Sou movido a investir em projetos que vejo que são viáveis de acontecer, que vão surtir algum tipo de efeito legal na sociedade”, explica Baesse. “O crowdfunding possibilita que mais pessoas busquem realizar seus projetos. E se enquanto público temos a oportunidade de não deixar que projetos legais morram, acho importante colaborar”.

No geral, as experiências de Baesse como apoiador foram positivas. No entanto já teve algumas poucas ocasiões em que ficou decepcionado, mas os projeto estavam relacionados a tecnologia. “Já me arrependi de ter doado uma vez. Os realizadores prometeram viabilizar um produto, mas quando o recebi, vi que não estava dentro do que eles anunciaram concretizar”, conta o professor, que atenta para uma mecanismo simples. “Acho importante que os realizadores mantenham os apoiadores atualizados sobre o andamento do projeto, seja por e-mail, whatsapp”.

Esse tipo de transparência é o que Simona Talma acha fundamental para mostrar ao público a difícil batalha que é viabilizar um produto cultural. “A campanha de financiamento coletivo tem isso de aproximar o público do artista, de trazer para a realidade. As pessoas passam a entender como é a nossa rotina”, comenta. A cantora também diz que o apoio do público dá ainda mais injeção de ânimo. No caso da campanha do Talma e Gadelha, vai render um novo disco ainda esse anos. “Sentir o apoio do público despertou na gente o desejo de gravarmos um disco novo. Vamos fazer para lançar no Festival Dosol”.

Projetos culturais com campanha aberta
Talma&Gadelha Rumo a Europa: catarse.me/talmaegadelha
Dusouto Bote Esse! : catarse.me/dusouto
Sem retrato e sem bilhete, curta de Babi Baracho: catarse.me/semretratoesembilhete
Vale do Vento Eterno, curta de Pedro Medeiros: catarse.me/vale_do_vento_eterno
Giradança na Costa Rica, do grupo Giradança: catarse.me/giradanca_na-costa-rica

Projetos culturais bem sucedidos no crowdfunding
Disco Unlikely, do Far From Alaska (em gravação)
Turnê de 1 ano do disco “Sobre A Vida Em Comunidade”, da banda Mahmed (já realizada)
Disco Ficção, de Simona Talma (em gravação)
Longa metragem, do Destino Coletivo (em produção)
“Ainda não lhe fiz uma canção de amor”, de Henrique Arruda  (lançado)
“Septo”, websérie potiguar (lançado)
“Por que Paris”, espetáculo do Grupo Carmim (já apresentado)
“O Mundo inteiro é um palco”, festival de teatro potiguar (realizado)
Aboca Cultural, para manutenção de espaço cultural (em realização)
“Auto da Catingueira”, história em quadrinhos de Marcos Guerra (em finalização)
“Itismailaifi”, coletânea de tirinhas de Rodrigo Brum (já lançado)