Comunidade internacional vê acordo com cautela

Publicação: 2010-05-18 00:00:00
Washington (AE) - O acordo para troca de combustível com o Irã, firmado após conversas entre o presidente Lula, o presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, e o primeiro-ministro turco, Recep Tayyip Erdogan foi recebido com cautela pela comunidade internacional. Pelo acordo, o Irã enviará 1.200 quilos de urânio pouco enriquecido à Turquia e, em troca, receberá 120 quilos de combustível nuclear para seu reator em Teerã. A Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) quer uma “notificação por escrito” de Teerã sobre o acordo por escrito. “A AIEA recebeu o texto da declaração conjunta do Irã, Turquia e Brazil, assinado ontem em Teerã, disse o porta-voz do órgão, Gill Tudor.

Lula da Silva,  Mahmoud Ahmadinejad e o  primeiro-ministro turco Tayyip Erdogan comemoram assinatura de acordo em  Teerã“Em linha com o que está declarado aqui, estamos agora esperando uma notificação por escrito do Irã de que concorda com as relevantes cláusulas incluídas na declaração”, disse Tudor. Um porta-voz da ONU disse que um acordo com o Irã para a troca do seu urânio pouco enriquecido por combustível nuclear na Turquia é “encorajador”, mas que o Irã ainda precisa cumprir as resoluções do Conselho de Segurança. “Qualquer esforço para resolver diferenças em uma via diplomática como a que o Brasil e a Turquia estão tentando com o Irã é claramente algo encorajador, no sentido de que é importante que haja discussões”, disse o porta-voz da ONU Martin Nesirky. “Mas, como eu disse, a coisa mais importante é que já existem resoluções no Conselho de Segurança da ONU que precisam ser cumpridas”, acrescentou.

Diplomatas ocidentais próximos à AIEA, o braço nuclear da ONU, disseram que o acordo não elimina a perspectiva de aplicação de novas sanções contra o Irã. “A questão não é o TRR (Teerã Research Reactor, o reator de pesquisas médicas que receberá o combustível enriquecido na Turquia, conforme o acordo de ontem). Eles estão sob as sanções por se recusarem a suspender o enriquecimento de urânio, é preciso não esquecer”, disse um diplomata ocidental.

Para a diretora do escritório de Relações Exteriores da União Europeia (UE), Baroness Ashton, trata-se de “um movimento na direção correta, mas não responde a todas as preocupações levantadas sobre o programa nuclear do Irã.” Segundo a chefe da política externa da UE, Catherine Ashton, o acordo responde “parcialmente” às exigências da AIEA.

A Casa Branca afirmou que não irá interromper os esforços para a aplicação de sanções mais duras contra o Irã e que os Estados Unidos e seus aliados têm “sérias preocupações” sobre o acordo. Apesar disso, o governo norte-americano não rejeitou categoricamente o pacto. “Isso (o acordo) não muda os passos que nós estamos tomando para responsabilizar o Irã por suas obrigações, incluindo as sanções”, disse o porta-voz da Casa Branca, Robert Gibbs. Ele notou, porém, que Teerã já afirmou que pretende continuar a enriquecer urânio a 20%. Ele disse que o prosseguimento dessa ação seria “uma violação direta às resoluções do Conselho de Segurança da ONU” e que os EUA ainda têm preocupações sobre a “confiança como um todo” do programa nuclear iraniano.

Gibbs disse que, caso o Irã concorde em transferir urânio enriquecido para outro país, esse seria um “passo positivo”. Ele notou, porém, que Teerã já afirmou que pretende continuar a enriquecer urânio a 20%. Gibbs disse que o prosseguimento dessa ação seria “uma violação direta às resoluções do Conselho de Segurança da ONU”.

O acordo provavelmente complicará a ação norte-americana para pressionar por uma nova rodada de sanções ao Irã no Conselho de Segurança da ONU, que seria a quarta. Os países liderados pelos EUA temem que o Irã busque secretamente armas nucleares, mas Teerã garante ter apenas fins pacíficos.

Para ativista, iranianos tentam ganhar tempo

Londres (AE) - O ativista político iraniano Potkin Azarmehr criticou o acordo nuclear fechado no Irã e mediado pelo Brasil, com participação da Turquia. Para ele, o presidente Mahmoud Ahmadinejad está tentando ganhar tempo e evitar as sanções dos Estados Unidos. “Se o Brasil quisesse ajudar o povo iraniano, deveria reconhecer que esse é um governo tirânico, não democrático”, afirmou à Agência Estado. “O Brasil deveria parar de lidar com esse governo.” Questionado sobre a intenção do presidente Lula de evitar as sanções e potencialmente ações militares contra o Irã, o ativista respondeu que “o povo iraniano já está sob ataque o tempo todo”. “Este regime está matando pessoas.”

Azarmehr, 35 anos, vive em Londres desde a revolução islâmica de 1979. Ele mantém um blog e posicionamento de protesto contra o atual regime. O ativista também criticou o fato de a questão dos direitos humanos não ter sido mencionada nas tratativas sobre o acordo nuclear.

Acordo deixa o Brasil para buscar vaga na ONU

Brasília (AE) - O líder do governo na Câmara, Cândido Vaccarezza (PT-SP), considerou que a participação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva no acordo com o Irã na questão nuclear deixa o Brasil mais forte na busca de ocupar uma vaga permanente no Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU). Ele ressaltou que a política internacional do País é respeitada no mundo e que a atuação do Brasil no episódio foi “muito positiva para evitar um desequilíbrio ruim e perigoso” entre as nações.

Lula e o primeiro-ministro da Turquia, Tayyip Erdogan, mediaram um acordo com o presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, no qual o urânio iraniano levemente enriquecido deverá ser enviado ao território turco e, em troca, o país receberá o material nuclear enriquecido a 20%. Vaccarezza afirmou que, apesar do ceticismo de alguns, o acordo foi positivo. “O cenário anterior estava marcado para o início de hostilidades. O Brasil, junto com a Turquia, teve um papel importante e gerou um alento para o mundo”, afirmou.

O líder governista ressaltou, no entanto, que para conseguir a vaga permanente no conselho é necessário ter respaldo dos países “O que mais fortalece o assento no Conselho de Segurança da ONU são os apoios internacionais”, disse, citando a França e Portugal como aliados nessa tentativa. “Nosso interesse nisso envolve uma questão maior, que é uma nova governança mundial, como sugere o presidente Sarkozy.”

Vaccarezza argumentou que um bloqueio ao Irã tem uma dimensão muito grande para o mundo que vem de uma crise financeira internacional. Só o Brasil, ressaltou, vende produtos que somam mais de R$ 1 bilhão por ano ao Irã.

Questionado se o Brasil havia feito um “gol” para a solução do impasse, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso respondeu: “Precisa ver o juiz apitar que deu o gol mesmo ou se houve impedimento. Eu não sei.”  A pré-candidata Dilma Rousseff (PT) disse que Lula “marca um gol importante no Oriente Médio.”

Reino Unido manifesta preocupação

O Irã já sofreu três rodadas de sanções das Nações Unidas por se recusar a suspender o enriquecimento de urânio, que o Ocidente teme que se converta em um programa de desenvolvimento de armas nucleares. Teerã insiste em prosseguir com o enriquecimento, mesmo após a assinatura do acordo de troca de combustível. A AIEA tenta atrair o Irã desde outubro para assinar um acordo para enviar seu urânio pouco enriquecido ao exterior e receber em troca combustível para o reator de pesquisas. Mas o Irã tem evitado o acordo, insistindo em querer manter o urânio em seu próprio território para troca simultânea de combustível ao reator.

O vice-ministro das Relações Exteriores do Reino Unido, Alistair Burt, manifestou preocupação, apesar do acordo nuclear. “As ações do Irã permanecem uma séria causa de preocupação, em particular por sua recusa em se reunir para discutir seu programa nuclear ou cooperar totalmente com a AIEA, e por sua decisão de começar a produzir urânio pouco enriquecido a 20%”, acrescentou Burt, em comunicado divulgado pelo Escritório das Relações Exteriores do Reino Unido.

Já o principal comandante da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), almirante James Stavridis, afirmou que o acordo para troca de urânio enriquecido do Irã na Turquia é “um desenvolvimento potencialmente bom”. “Eu penso que este é um exemplo do que todos buscamos, que é um sistema diplomático que encoraje o bom comportamento como parte do regime iraniano.”