Confissão das águas - I

Publicação: 2021-01-26 00:00:00
Vicente Serejo
serejo@terra.com.br

Créditos: Divulgação

O que nos tem faltado, Senhor Redator, é o humilde sentimento de que não somos nada. Ou quase nada. Não o complexo que nos diminua, nas nossas humanas vaidades, mas nos leve à sincera compaixão diante da vida. Talvez, e se a poesia não tivesse tão pouco prestígio nos alcantilados deste fim de mundo, e se pudéssemos renovar a emoção dos velhos caminhos que se deixam ir sem soberba, iríamos como no poema de Joaquim Cardozo - ressuscitando silêncios. 

Não. É dura, e como dói, a lição de desaprender. Quando a vida ainda não acreditava na falsa e tola obrigação de ser vivida com uma ostentação, era possível olhar “os pobres ventos sem trabalho, expulsos dos moinhos e dos navios”, como viu o poeta das alvarengas. Os ventos - não lembra? - “que vão pelas ruas vazias / batendo às portas num clamor de rajada / de lamento e revolta”, numa conversa com “a água que canta nas sarjetas, a ‘força dos destinos incertos”. 

Volto a Joaquim Cardozo carregado do sentimento de um tempo intenso que revivi nesse alvoroço dos dias pestilentos. Lembro, estávamos quase no fim dos anos setenta quando apareceu de um lado da vitrine da Livraria Universitária um livro de capa alaranjada e moderna a anunciar, em letras negras e graúdas, o nome do poeta. Lá estava a poesia completa de Joaquim Cardozo e caiu nos olhos como para ensinar a terna liturgia de se amar os ventos e as águas do mar e do rio. 

Naqueles anos, o Potengi ainda não estava morto, coalhado da podridão dos esgotos e como ficaria depois, e até hoje. Também não vivia da promessa dos políticos. A cidade amava as suas águas e não vivia “para velar de noite o cadáver do rio”. Talvez, na bela inconsciência dos bons espíritos ainda ingênuos, talvez vivessem em nós, teimosamente, “o ritmo das coisas imperfeitas / a volúpia da humildade”, e tudo quanto a vida moderna, e por assalto, nos levou.  
Foi preciso a poesia de Joaquim Cardozo para que aprendêssemos que há no rio, quem sabe, no seu silêncio humilde, uma beleza católica. Onde os cajueiros de setembro, como avisou o poeta, entre cálculos certos e incertos, mas exatos, derramando suas “sombras inocentes” tão “debruçadas à beira dos caminhos”, aqueles que como lembra o poeta, viviam sozinhos? Como aqueles cajueiros de folha cor-de-vinho, cresciam nas noites perfumadas, anunciando estios? 

Ninguém se iluda, Senhor Redator. Houve um tempo como aquele do poeta. De garças brancas voando sobre os mangues, de “nuvens grandes, brancas e sólidas”, como as nuvens do poeta. Não sei de agora. E se fosse agora, a morte viria como desejou, humildemente, Joaquim Cardozo, quando pediu para levar, apenas - “A visão do mar do alto da Misericórdia de Olinda ao nascer do sol / e a saudade de Josefa, / a pequena namorada do meu amigo de Tramataia”. 

FRACASSO - O porto, insuficiente e desaparelhado, e o aeroporto - que nasceu para ser e nunca foi um terminal de exportação, retratam, com perfeição, o fracasso absoluto dos nossos políticos. 

CORTEJO - Enquanto isto, os nossos ministros, tagarelas e populistas, calejam os seus ombros carregando o andor do presidente Bolsonaro. Usam máscaras, é verdade. Mas nem precisavam.

SOCO - Para quem pensa que a ‘Carta Capital’ é a mais petista das revistas semanais, o título da matéria de capa da ‘Isto É’ sobre Pazuello, o ministro da saúde, é um soco: “O general do caos”.  

CIRCO - Convenhamos: a nossa cultura terceiro-mundista faz da obrigação de governo um circo em torno da vacina. Solenidades, discursos, palmas, risos e lágrimas, ministros, generais e heróis.  

VIGOR - Aos 93 anos, o médico Genibaldo Barros fez a travessia Pirangi-Natal, sob o timão de Alexandre Sales. Navegou a vela, em um mar de cetim, como no tempo dos velhos navegadores.

LUTA - Ninguém pense que o silêncio de Mossoró é de rendição. Aquartelada e feroz, de cutelo e bacamarte, quer entrar triunfante no casarão dos imortais. Com David Leite no seu estandarte. 

ERRO - Erasmo Firmino, o ‘Tio Colorau’, corrige esta coluna para que fique claro de uma vez: Gaudêncio Torquato não é de Pau dos Ferros. Nasceu em Luís Gomes, na Tromba do Elefante.

NAUS - Da poetisa Cida Pedrosa no seu ‘Solo para Vialejo’, Jabuti de 2020: “Antes de os homens brancos chegarem com suas / naus nauseabundas e nulas a terra era vasta e nós / vivíamos livres”.

RITUAL - A reportagem começa assim: “Durante dois anos e meio, seguindo os mais altos padrões científicos, uma espécie de sessão terapêutica semelhante aos rituais xamânicos foi reproduzida dentro do hospital Universitário Onofre Lopes, em Natal, no Rio Grande do Norte”. 

FURO - “No lugar de xamâs, havia cientistas. Em vez de tambores e cantos entoados por indígenas, a música vinha de uma playlist inspirada nas composições usadas pela União Vegetal, uma sociedade religiosa e espírita fundada nos anos 1960”, para “o desenvolvimento espiritual”.

FONTE - A reportagem ‘A Vez dos Psicodélicos’, seis páginas, é de Pedro Nakamura e Silvia Lisboa, com ilustrações de Palmiro Domingues e está na edição de janeiro da revista Cláudia. A experiência atendeu, até agora, a 29 pacientes, sob a orientação da professora Fernanda Palhano.









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