Congresso debate estratégias no combate à diabetes

Publicação: 2019-10-20 00:00:00 | Comentários: 0
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Tádzio França
Repórter

O diabetes é uma doença que atinge mais de 13 milhões de pessoas no Brasil. Boa parte delas não sabe que possui a enfermidade, e outras preferem ignorar - até que os sintomas  extremos apareçam e o tratamento se torne mais difícil. Para evitar o crescimento desse mal e tornar a vida do diabético menos restritiva, são essenciais a informação e o autocuidado.  A conscientização e as novidades na área foram discutidas durante o 22º Congresso da Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD), realizado de  16 a 18 de outubro pela primeira vez em Natal, no Centro de Convenções. O evento reuniu médicos, nutricionistas, farmacêuticos, educadores físicos, enfermeiros e psicólogos.

Para o médico Tadeu Alencar, presidente do congresso na ocasião, a maior dificuldade no diagnóstico e tratamento é a falta de conhecimento das pessoas sobre a própria enfermidade
Para o médico Tadeu Alencar, presidente do congresso na ocasião, a maior dificuldade no diagnóstico e tratamento é a falta de conhecimento das pessoas sobre a própria enfermidade

O elevado número de diabéticos no Brasil e no mundo mostra que os cuidados contra a doença podem se desdobrar em várias frentes. O congresso refletiu a forma como os profissionais de medicina e a indústria farmacêutica estão procurando novas formas de combater ou conviver com a doença, abordando temas como a terapia celular em diabetes; o controle glicêmico através do jejum intermitente ou da dieta low carb; o uso de telemedicina no diabetes;  alterações metabólicas; a relação do diabetes com a depressão e, claro, as novas insulinas do mercado.

O endocrinologista Tadeu Alencar, presidente do congresso na ocasião, afirma que a maior dificuldade no diagnóstico e tratamento do diabetes ainda é a falta de conhecimento das pessoas sobre a própria enfermidade. “Cerca de 7,5% da população mundial é diabética, e só metade sabe disso. Aqui no Rio Grande do Norte chega até 8%. Então se só metade tem consciência disso, mais tarde vai acabar aparecendo o enfarto, o derrame, as amputações, problemas renais, problemas de visão. Então quanto antes for dado esse diagnóstico, melhor”, diz. Ele lamenta a pouca ação do poder público em atuar na prevenção da doença.

Além da falta de informação e de campanhas públicas, o endocrinologista aponta outro fator para aumentar a gravidade do diabetes: a autonegação das pessoas. “Ter uma doença em que às vezes você não pode comer o que gosta, incomoda muito. Há quem tenha medo de agulha porque tem que tomar insulina, apesar de terem remédios maravilhosos atualmente. Para a pessoa ter que tomar insulina na diabete 2, ela tem que ter feito muita coisa que não deveria até chegar a essa situação. Mas as pessoas acabam sem se cuidar, negando a própria doença”, afirma.

Apesar de componente hereditário/genético ser o fator dominante no desenvolvimento do diabetes, Tadeu Alencar ressalta que o estilo de vida adotado pela maioria das pessoas acaba contribuindo para o aumento de casos.

“Os estímulos do cotidiano são grandes. É mais fácil ser sedentário do que praticar exercícios físicos, a presença dos fast foods, a propaganda maciça em torno das comidas ultraprocessadas, tudo induz à má alimentação”, diz.

São coisas que se relacionam aos fatores de risco como obesidade (inclusive a infantil), hipertensão, níveis altos de colesterol e triglicérides, estresse emocional, e medicamentos à base de cortisona.

O médico ressalta a importância do diabético conhecer a própria doença, saber até onde ele pode ir no tratamento. “É importantíssimo verificar sua própria glicose, saber quanto está dando, ir ao médico regularmente, fazer atividades físicas, evitar os alimentos ultraprocessados, a farinha de trigo branco, principalmente os alimentos que não são integrais, evitar açúcar em casa, deixar isso pra rua, pras festas, e cuidar do peso. São medidas capazes até de prevenir a doença”, afirma.

Se a pessoa já tem diabéticos na família, prestar atenção em sintomas e adotar um estilo de vida mais saudável já é caminho para lidar com a doença. O diagnóstico precoce é o primeiro passo para o sucesso do tratamento. Procurar logo um serviço de saúde se está urinando demais e sentindo muita sede e muita fome. “O autocuidado é importante, mas pra isso é preciso ter informação. Algo que depende de campanhas públicas, depende do governo, das prefeituras”, enfatiza o Dr. Tadeu mais uma vez. 

Tratamentos novos e insulinas
O tratamento do diabetes é inserido naturalmente no cotidiano da pessoa e costuma gerar incômodos variados. O desafio é tornar a vida do diabético mais leve e o tratamento à doença mais eficiente. O congresso da SBD em Natal trouxe algumas dessas novidades.  No caso do diabetes tipo 1, um tipo “insulinodependente” - que exige o uso de insulina por via injetável para suprir o organismo do hormônio que deixou de ser produzido pelo pâncreas – há insulinas de longa duração, que só se toma uma vez ao dia e é aplicada através da indolor canetinha, e até adesivos que dispensam o furo no dedo para saber a quantidade de glicose.

Outra novidade é a insulina inalável, a Afrezza, única opção do mercado não injetável e que chega ao Brasil ainda este ano, já com aprovação da Anvisa. Ele é apresentado com um inalador pequeno, discreto e fácil de usar, sendo administrado no início da refeição. O medicamento se dissolve rapidamente após a inalação para o pulmão e atinge imediatamente a corrente sanguínea. Os níveis máximos de insulina são alcançados entre 12 a 15 minutos após a administração e declinam em aproximadamente 180 minutos.

Nos pacientes com deficiência total e absoluta de insulina - como é o caso do tipo 1 -, é preciso que seja usada juntamente com uma insulina injetável de longa duração, chamada basal. Nos pacientes com diabetes tipo 2, pode ser inalada antes de refeições e não exige uso combinado com outras formas injetáveis de insulina.

“A Afrezza é capaz de reproduzir um padrão de reposição de insulina prandial muito próximo do normal, por estar associada a um número menor de reações de hipoglicemia (teor muito baixo de açúcar no sangue) e por ser bem mais conveniente do que as outras insulinas prandiais injetáveis disponíveis no mercado”, declarou o Dr. Eugenio Cersosimo, professor da Universidade do Texas, que veio falar sobre a insulina inalável no congresso em Natal.

O congresso também debateu a relação entre diabetes e depressão, dois problemas que possuem uma relação insuspeita para a maioria das pessoas. A depressão pode afetar negativamente o controle glicêmico das pessoas com diabetes ou ser fator desencadeante desse descontrole em pessoas que não apresentam o quadro. Uma potencializa os efeitos da outra, e frequentemente são doenças subdiagnosticadas e subtratadas. A depressão crônica pode reduzir a aderência ao tratamento e a piora do controle glicêmico, portanto, é necessário melhorar o diagnóstico e o tratamento a fim de minimizar o risco de complicações, bem como aumentar a qualidade de vida do paciente.





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