Luiz Henrique Gomes
Repórter

Quando os soldados americanos desembarcaram em Natal durante a Segunda Guerra Mundial em 1942, a cidade possuía 55 mil habitantes e um único lugar onde atravessar a noite longe de casa: o cabaré de Maria Boa. Personagem icônica da época, Maria Oliveira Barros, que este ano completaria 100 anos, não é citada em nenhuma das homenagens referentes ao período. O mito parece ter caído no esquecimento. Nascida em Remígio, na Paraíba, em 1920, Maria chegou em Natal por acidente e aos 22 anos se tornou a mulher mais conhecida – e quiçá, mais poderosa e confidente – de uma cidade que ainda não havia vivido um tempo de ouro. 

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Este ano, a paraibana Maria Oliveira Barros completaria 100 anos

Este ano, a paraibana Maria Oliveira Barros completaria 100 anos



Não cabe aqui afirmar se Natal chegou a viver uma era dourada, mas aqueles sem dúvidas foram os anos de Maria, sua própria Bélle Époque numa cidade pequena da esquina do Brasil. Anos de ouro e vingança: ouro porque enriqueceu ao abrir o cabaré, um lugar distinto dos bordéis que existiam na cidade, e aproveitar os dólares americanos; vingança porque o luxo e o respeito conquistado a fez ser muito maior que a humilhação sofrida quando foi expulsa de casa ainda jovem na Paraíba por haver perdido a virgindade com um homem que recusou o casamento com ela, após o pai descobrir a relação.

A desilusão sofrida com o primeiro amante e a expulsão de casa levaram Maria à Natal, onde chegou no início da década de 1940. O ano e os detalhes da chegada são imprecisos – sinal de uma das suas características mais citadas, a discrição –, mas a versão mais narrada é a de que chegou à cidade para trabalhar em um bordel. A prostituição foi o modo como Maria Boa, que já possuía este nome desde os oito anos graças a um amigo do pai que a considerava generosa, passou a sobreviver.

Maria decidiu montar o próprio estabelecimento pouco tempo depois ao perceber que poderia fazer mais. Não seria um bordel, mas um cabaré, palavra que vem do francês cabaret: um lugar para apreciar música e apresentações teatrais com as melhores bebidas, cigarros e jantares. Ficou popular na cidade o prato “Galeto ‘Al Primo Canto’ (na primeira música, em italiano)”, que não passava de um frango caipira servido por Maria, mas tinha o charme de carregar um nome estrangeiro.

Os americanos não tardaram a desembarcar na cidade e a enchê-la com aviões, coca-colas e chiclete, e Maria não tardou a seduzi-los ao cabaré que fica na Rua Padre Pinto, na Cidade Alta. Na época, não por acaso, chamada Rua do Fogo. “Os americanos eram loucos pelo cabaré de Maria Boa, pelas ‘meninas’ de Maria Boa. Eles ofereciam médicos para cuidarem delas, muitos se apaixonaram e queriam casar com as prostitutas”, disse o escritor Diógenes da Cunha Lima.

Com o cabaré, Maria desafiou uma cidade pequena e conservadora com um ímpeto empresarial e conseguiu fama em todo Brasil. Apesar da falta de referências biográficas precisas, o mais provável é que ela tenha sido uma mulher de origem pobre (o pai era funcionário de um armazém de secos e molhados e Maria começou a trabalhar no estabelecimento ainda pequena), mas a fama do cabaré transformou Maria Boa na mulher mais poderosa da cidade.

Governadores, políticos e empresários sofreram a mesma atração dos americanos. O cabaré era um dos principais pontos de encontro de uma elite financeira e intelectual que emergiu em Natal no pós-guerra. Tanto poder na mão de uma cafetina desagradou parte da sociedade natalense. “Isso fez de Maria uma mulher muito discreta, certamente. Existem relatos de que ela chegou a desfilar no carnaval com as ‘meninas’ em carros conversíveis, mas depois adotou uma discrição que manteve por toda vida”, continuou Lima.

Os anos de ouro de Maria Boa sobreviveram ao fim da guerra, terminada em 1945, graças ao prestígio que havia alcançado, mas começou a declinar no final da década de 60 – os motivos são desconhecidos. Na década seguinte, a paraibana abandonou o cabaré na Cidade Alta e alugou um estabelecimento menor. Nos últimos anos de vida, praticamente não foi vista e poucas pessoas a reconheciam. Ela faleceu em julho de 1997 em decorrência de um AVC.

Mas o nome da cafetina continua a ser lembrado com glória, como uma canção de tango, ritmo que ecoava no cabaré para apagar o peso de uma guerra. Passados 23 anos da morte de Maria Oliveira Barros, a figura lendária de Maria Boa permanece viva como símbolo de um romantismo que não se repetiu em Natal.


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Réplica do avião B-25 que faz referência a Maria Boa, uma homenagem de soldados brasileiros

Réplica do avião B-25 que faz referência a Maria Boa, uma homenagem de soldados brasileiros


Voz às mulheres
Já famosa, Maria Boa teria sido perguntada por que a cidade a respeitava tanto, sendo ela apenas uma proprietária de cabaré, estabelecimento tão estigmatizado publicamente quanto frequentado as escuras. “Natal me respeita porque eu respeito Natal”, respondeu Maria Boa, segundo o que se conta. Mas o advogado e ex-professor universitário, Paulo Lopo Saraiva, oferece outra resposta: “Maria foi respeitada e importante para Natal porque seu cabaré deu voz e status a mulheres que eram excluídas da sociedade.”

No auge do cabaré de Maria Boa, entre as décadas de 50 e 60, estima-se que entre 50 e 70 prostitutas trabalhavam no estabelecimento. Elas eram chamadas de ‘As meninas de Maria’, apelido popularizado pelo historiador Luís da Câmara Cascudo, e vinham de todos os lugares do Brasil, geralmente com histórias semelhantes a da cafetina – mais próxima, diga-se de passagem, de uma verdadeira matriarca –, expulsas de casas por intransigir costumes morais. Maria as achava através de pessoas que havia conhecido no cabaré ou era procurada por ser a dona de um dos cabarés mais famosos do Brasil.

Como um espelho, Maria exigia das prostitutas a mesma discrição e elegância que possuía. Conta-se que a cafetina exigia educação das mulheres a qual acolhia, garantindo idas ao teatro, concertos, exposições. O ambiente luxuoso do cabaré, chamado pelo advogado Saraiva “um verdadeiro teatro parisiense”, era frequentado por uma elite intelectual que, dizia Maria, as suas meninas deveriam saber entreter para mantê-los o mais tempo possível no bar, antes deles encerrarem a noite nos quartos.

A paraibana também sabia ser generosa com as funcionárias e os clientes. Tinha seus amantes próprios, não se prostituía, e queria ser vista de igual para igual com qualquer mulher da cidade. Costumeiramente, dava presente a clientes mais queridos – o que gerava problemas nas famílias. “Certa vez ela presenteou o marido de uma prima, e essa minha prima perguntou que história era essa de ficar ganhando presente de uma ‘puta’. Dias depois, Maria Boa estava tomando chá com essa minha prima na casa dela”, contou Diógenes da Cunha Lima.

Anos antes de morrer, Maria Boa vivia uma vida discreta e poucos a conheciam pessoalmente. O advogado Paulo Lopo Saraiva, que frequentou o cabaré de Maria e chegou a levar turmas inteiras de estudantes de direito para dar aulas no local, por exemplo, chegou a conversar com ela apenas três vezes. “Não sei se ela tinha consciência da importância que ela teve para Natal, mas não tenho dúvidas que foi muito importante. Eu levava meus alunos porque dava aula de uma disciplina chamada ‘Direito achado na rua’ e sabia que ali era o maior exemplo disso”, contou o advogado.

Mitos ou verdades?
Maria Boa, como as figuras míticas são, é cercada de histórias difíceis de afirmar verdadeiras ou falsas. A mais famosa delas é o batismo de um avião americano por parte dos soldados estrangeiros, como um presente à cafetina pelos serviços prestados pelo cabaré. Uma famosa foto de soldados pousados ao lado do avião, que tem o nome de Maria Boa escrito na lataria, confirma parte da história. Sim, de fato um avião modelo B-25 foi chamado Maria Boa, mas pelos soldados brasileiros.

No dia em que o nascimento de Maria Boa completou um século, 26 de junho deste ano, o jornalista Leonardo Dantas, especializado na história da aviação, contou que o avião B-25 foi projetado pelos Estados Unidos, mas foi doado ao Brasil graças a aliança entre os dois países durante a Segunda Guerra Mundial. A homenagem a Maria aconteceu na década de 50, após o fim da guerra, quando o avião já havia deixado de ser de guerra e se tornou de carga, por soldados brasileiros que atuavam na base aérea de Natal.

Segundo Leonardo Dantas, Maria teria sido levada até o local onde o avião estava e fez uma viagem emocionada. Ela vivia a Era de Ouro no cabaré e já tinha alcançado prestígio na cidade. Anos depois, quando tinha passado a viver de maneira mais reclusa, as histórias continuavam a aparecer.

Em uma dessas histórias, relatada pelo jornal Diário de Natal no dia da sua morte, uma mulher teria conversado durante horas com Maria sem saber o seu nome e no final achou que estava conversando com uma “lady do tipo inglesa”. No fim da conversa, ao ser perguntada por Maria como se chamava, respondeu e fez a mesma pergunta. A cafetina teria respondido apenas: “Maria de Oliveira”. Somente depois soube, através da avó, que estava falando com a dona do mito Maria Boa.




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