Conheça Thabatta Pimenta, a primeira mulher trans no Legislativo do RN

Publicação: 2020-11-22 00:00:00
Mariana Ceci
Repórter

Quando Thabatta Pimenta, 28 anos, decidiu se candidatar a vereadora pela primeira vez, em 2016, no município de Carnaúba dos Dantas, onde nasceu e viveu ao longo de toda a vida, ela se deparou com um problema: apesar de ser uma voz conhecida em toda a cidade por ser locutora em uma das rádios mais populares da região, nenhum partido a queria. "Quando o partido me aceitava, os outros que estavam na coligação diziam que não iam me querer. Não me queriam por um único motivo: ninguém queria ter sua imagem associada a uma mulher trans", relatou Thabatta à TRIBUNA DO NORTE. 

Créditos: Reprodução/Redes SociaisThabatta Pimenta, eleita vereadora de Carnaúba dos DantasThabatta Pimenta, eleita vereadora de Carnaúba dos Dantas

Naquele ano, mesmo com todas as dificuldades, ela conseguiu se candidatar pelo PSDB, mas não chegou a ser eleita. “Foram muitos ataques. Ouso dizer que nenhuma candidatura foi tão atacada e humilhada como a minha naquele ano”, disse. Quatro anos depois, não estava disposta a abrir mão de tentar conquistar o espaço na Câmara Municipal da cidade, e voltou a se candidatar, agora pelo partido PROS.

Dessa vez, no entanto, a situação foi outra: no dia 15 de novembro, foi anunciado o resultado do pleito eleitoral da cidade. Thabatta conquistara 267 votos. Era o suficiente para se eleger vereadora e, com isso, se transformar na primeira mulher trans a conquistar uma vaga no Poder Legislativo do Rio Grande do Norte.

Ela afirma que o fato de ter vencido na cidade em que nasceu, cresceu e onde vive até hoje teve um peso ainda maior. “Isso para mim deu um gosto especial, porque foi uma resposta de Carnaúba dos Dantas ao conservadorismo. Foi para mostrar que a cidade está mudando”, disse a vereadora eleita.

Apesar da “mudança”, Thabatta não deixou de ser alvo dos mais diversos ataques ao longo da campanha. Não eram suas ideias, suas propostas ou sua plataforma política que eram atacados pelos adversários. Era a sua imagem e sua existência.

A violência de gênero contra pessoas trans não é uma novidade para o Brasil, e tampouco para Thabatta. No primeiro semestre de 2020, dados da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra) 89 pessoas trans foram assassinadas no Brasil, 39% a mais do que o registro no mesmo período de 2019. O país é onde mais se matam pessoas trans no mundo.

"Todo esse ódio na verdade foi um impulso para que eu tivesse mais força para seguir. Eu dizia muito que esse preconceito que estava recebendo era o mínimo em relação a tudo que eu passei na minha vida. Eu estava ali candidata por tantas pessoas que precisavam ter voz… desistir foi algo que nunca cruzou a minha mente”, declarou Thabatta.

Ela conta que trabalhou dobrado para provar que estava pronta para assumir o cargo. "Eu me preparei muito para esse momento. A cada instante no rádio, nas redes sociais, eu tentava mostrar às pessoas que eu estava preparada e podia sim ser uma voz para elas". Dessa vez, ela relata que os principais ataques vieram não de eleitores, mas da própria classe política. "O preconceito começou a aparecer de outras formas. Pela classe política, por outros partidos. Isso foi reflexo da ameaça que as pessoas viam em mim”.

Candidatura à Assembleia é meta

A vitória de Thabatta Pimenta teve um impacto maior do que ela esperava. Do dia para a noite, os 267 votos se transformaram em mais de 68,7 mil seguidores no Instagram - número que estava além de qualquer expectativa da carnaubense. "A ficha ainda não caiu, mas eu estou muito feliz. Isso pra mim deixa um recado claro: a representatividade importa. A gente precisa estar onde a gente quer estar. Carnaúba deu uma resposta ao preconceito à intolerância, e o resto do Brasil ouviu", disse.

Diante do impacto, ela conta ter recebido os mais diversos apoios, e inclusive sugestões para que ela se candidate a uma cadeira na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Norte daqui a 2 anos, possibilidade que não descarta. "Minha votação foi expressiva para Carnaúba dos Dantas, que é uma cidade do interior e tinha 35 candidatos, um número recorde para o pleito de vereador. Quem sabe, no futuro, o resto do Estado também não poderá ter a oportunidade de eleger uma mulher trans também para a Assembleia Legislativa?", disse.

Antes de pensar em candidaturas, no entanto, ela conta que pretende mostrar seu trabalho e que quer "calar a boca de muita gente" que desconfiou de sua capacidade. "É de suma importância esse momento. É um avanço diante da quantidade de pessoas trans mortas no Brasil. Esse momento que estamos vivendo é importante para mostrar que nós somos capazes de fazer tudo aquilo que qualquer pessoa pode fazer. Somos iguais a todo mundo", destacou.

Para ela, a sociedade ainda peca na falta de oportunidades que dá às pessoas LGBT+, assim como para as pessoas com deficiência. "No caso das mulheres trans, muitas de nós acabam na prostituição porque faltam oportunidades. Já existem mulheres trans professoras, vereadoras, médicas. É fundamental a gente ocupar esses espaços, e é isso que estamos fazendo mesmo diante das dificuldades. Mas a sociedade precisa também fazer sua parte e abrir esse espaço, para mostrarmos o quanto somos capazes", concluiu.

Foco é ampliar direito das pessoas com deficiência

Ao longo da campanha, Thabatta não escondeu em nenhum momento que as pautas para a população LGBT+ eram centrais em sua existência. À reportagem da TRIBUNA DO NORTE, no entanto, a vereadora conta que sua plataforma política vai além, e terá um foco central: a ampliação e garantia de direitos para pessoas com deficiência.

Isso porque Thabatta conhece de perto essa realidade. Seu irmão, Ryan, de 32 anos, tem paralisia cerebral, e ela é uma das responsáveis por garantir os cuidados integrais a ele. “Eu comecei a lutar principalmente por essa causa, vendo que as pessoas com deficiência e suas famílias são muito desassistidas, ainda. Eu vi que poderia lutar por essas famílias, porque eu era parte de uma delas. Sinto na pele as dores que elas passam pela falta de assistência”, disse.

Ela afirma que a primeira bandeira que vai levantar na Câmara será para garantia de acessibilidade e de um local onde as famílias que precisam se deslocar até a capital para fazer exames e consultas possam ficar para descansar e atender suas necessidades básicas. "Já comecei a me comunicar com algumas pessoas em relação à questão das pessoas com deficiência, para que haja maior suporte a essas famílias”, disse.

Após a vitória eleitoral, Thabatta divulgou um vídeo em suas redes sociais na qual aparece celebrando com a mãe e o irmão. Seu jingle, uma paródia da canção “Amor de Que”, da cantora Pabllo Vittar, toca ao fundo. Na legenda, reitera aquilo que disse à equipe de reportagem da TRIBUNA DO NORTE: “São a minha razão de ser. A maior coisa que a gente pode fazer na vida é não se deixar cegar pelo sofrimento. É ter cara e coragem pra entender o sofrimento do outro e tentar transformar essa realidade”.