"Consciência é a palavra-chave ao falarmos de trânsito"

Publicação: 2018-09-23 00:00:00
Sílvio Andrade
Repórter

O Brasil é o quarto país do mundo com maior índice de acidentes de trânsito, segundo o Observatório de Segurança Viária (ONSV), o que dá mais de meio milhão de vítimas por ano. O país já gasta quase R$ 60 bilhões com esses acidentes, segundo dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). Desde o último dia 18 até a próxima terça-fera (25), o Brasil comemora a Semana Nacional de Trânsito com o tema “Nós somos o trânsito”. O gerente técnico do ONSV, Renato Campestrini em entrevista à TRIBUNA DO NORTE, faz um resumo da situação de acidentes de  trânsito no país; sua causas e soluções. Diz que ainda há muito desrespeito às regras, e que só haverá uma melhoria com um melhor processo de formação de condutores e educação nas escolas. O ONSV é uma instituição social dedicada a desenvolver ações para reduzir os acidentes de trânsito no Brasil. Pesquisa inédita do Ministério da Saúde aponta que houve redução de 27,4% dos óbitos no trânsito nas capitais brasileiras. 

Créditos: CedidaRenato Campestrini, do ONSV, afirma que  ainda há muito desrespeito às regras e que princípios básicos do trânsito seguro são ignoradosRenato Campestrini, do ONSV, afirma que ainda há muito desrespeito às regras e que princípios básicos do trânsito seguro são ignorados
Renato Campestrini, do ONSV, afirma que ainda há muito desrespeito às regras e que princípios básicos do trânsito seguro são ignorados

A que o senhor atribui a redução de óbitos?
Não há como apontar um fator determinante, mas um conjunto deles. A intensificação da fiscalização de trânsito, em especial a da Lei Seca, o uso do videomonitoramento, a crise que o país vem passando nos últimos anos também tem papel significativo, a medida que retira veículos de circulação. Temos também desde 2014 o advento do Movimento Maio Amarelo, que leva para a sociedade durante todo o mês de maio a mensagem da conscientização, a importância de trabalhar o trânsito como algo que onera a sociedade em vários pontos, em especial na saúde pública, na assistência e na previdência social.

Nesta Semana Nacional do Trânsito é possível comemorar alguma coisa?
Toda redução no número de vidas desperdiçadas é relevante, deve ser celebrada. Ainda que de forma tímida, nosso país tem reduzido o número de mortos no trânsito. Os dados poderiam ser melhores se governantes e sociedade entendessem a importância de zelar pela vida no trânsito, nesse sentido é que o Movimento Maio Amarelo mais uma vez acaba sendo positivo para a sociedade, no papel de alertar.

Das cinco capitais (Aracaju, Natal, Porto Velho, Salvador e Vitória) que se destacam na redução de mortes, à exceção da capital baiana, as demais têm menos de 1 milhão de habitantes. Há relação entre a população e o número de acidentes?
Não há uma relação entre população e o número de acidentes, mas sim com a forma como o tema trânsito é tratado pelas autoridades. Localidades com maior presença de ações educativas e de fiscalização resultam em um trânsito mais humano, com menos acidentes.

Dados do Sistema de Informações de Mortalidade (SIM) do Ministério da Saúde apontam que em dez anos da Lei Seca (2008-2016), houve redução de apenas 2,4% no número de mortes em todo o país. Por que o número foi tão baixo?
Porque ainda não há a fiscalização desse comportamento irregular como deveria, e as pessoas acabam por “abusar da sorte”, acreditam na sensação de impunidade, e infelizmente em alguns casos essa irresponsabilidade resulta na morte do condutor que bebeu e dirigiu ou ainda de alguém que teve a infelicidade de cruzar o seu caminho. Temos Estados como o Rio de Janeiro que fiscalizam com rigor e de forma frequente, sendo um exemplo para o país e outros que não realizam ações e amargam dados preocupantes de mortes no trânsito em decorrência da bebida e direção.

Os dados do SIM também mostram aumento de mortes no trânsito nas regiões Nordeste e Norte, e redução no Sudeste, Sul e Centro-Oeste. Há explicação para isso?
Muitas das mortes nas regiões Nordeste e Norte estão relacionadas com o uso mais frequente da motocicleta, sem a correta utilização de itens importantes de segurança como o capacete. Temos Estados que possuem 65% mais motocicletas registradas do que condutores habilitados, isso é preocupante. A motocicleta pela sua natureza é um veículo perigoso, demanda uma boa formação do condutor, ainda que o atual processo de formação seja falho, mas quando ele nem mesmo chega a acontecer e a pessoa passa a utilizar o veículo por conta própria, os dados mostram o potencial de risco. Nos Estados do Sudeste, Sul e Centro-Oeste a maior presença da fiscalização ajuda a diminuir os números de vítimas fatais.

Há quem argumente que o número de congestionamento está ligado à baixa velocidade. Essa afirmação é correta?
Não está correta. Veículos a baixa velocidade, a 50km/h como determina a Organização Mundial de Saúde – OMS, permitem que todos se desloquem com segurança, sem riscos para condutores e em especial para os pedestres e ciclistas. Portanto, no perímetro urbano essa é uma necessidade.

Que relação tem o aumento de velocidade com os gastos com tratamento dos acidentados e para o SUS?
A medida que a velocidade aumenta, a gravidade das lesões, as chances de óbito do condutor e pedestres aumentam. Consequentemente isso irá se refletir nos custos de atendimentos.

Como reduzir o número de acidentes se um dos principais apelos da indústria automobilística são carros cada vez mais potentes e velozes?
Consciência é a palavra-chave ao falarmos de trânsito. Mesmo em países desenvolvidos como a Alemanha, em que nas Autobans, por exemplo, não há limites de velocidade máxima, nos centros urbanos a velocidade máxima permitida não é superior aos 50Km/h. Tendo condutores mais conscientes, os riscos são menores.

Ocupantes de automóveis e os motociclistas apresentaram queda de 18% e 8% no número de mortes, respectivamente. Por que o número de acidentes com motocicletas é tão alto? Quais os dispositivos que poderiam ser utilizados por quem conduz motocicletas?
Diante das características da motocicleta, os riscos de lesões e mortes nos usuários são maiores. Com o uso correto do capacete já seria possível diminuir o número de mortos. As pessoas costumam transitar com capacetes maiores que o que deveriam, com ele solto, e tais atitudes em caso de quedas ou acidentes o capacete não irá cumprir sua função. Utilizar o capacete apenas para evitar multas é um erro. Outro ponto que merece atenção não só dos usuários de motocicletas, mas de todos é o respeito aos limites de velocidade, um dos principais fatores de riscos no trânsito, e no caso de motociclistas, quanto maior a velocidade, mais graves as lesões, mais demorado é o processo de recuperação.

A bebida é a principal responsável pelas mortes no trânsito. Que outros comportamentos de motoristas e pedestres mais contribuem para o aumento dos acidentes no trânsito?
Manusear o celular ao conduzir, exceder o limite de velocidade, não utilizar o cinto de segurança no banco dianteiro e traseiro. Esses são alguns exemplos de comportamento que contribuem para que acidentes de trânsito venham a ocorrer.

“Quando você bebe e dirige, alguém sempre se machuca” é a campanha do ONSV para a Semana Nacional de Trânsito. Qual o efeito dessas campanhas de conscientização?
A campanha visa alertar e conscientizar a população. Uma vida sendo preservada já mostra que ela atingiu seu objetivo, e se mortes não ocorrerem após a divulgação da campanha, será um feito a ser celebrado.

O senhor acha que a população brasileira tem mudado sua atitude no trânsito? O que fazer para mudar essa situação?
Ainda há muito desrespeito às regras de trânsito, princípios básicos do trânsito seguro são ignorados, mas felizmente podemos notar que um processo de mudança está em curso, mas ele efetivamente virá quando passarmos a contar com um novo e melhor processo de formação do condutor, quando o tema trânsito vier a ser tratado dentro das escolas, nas salas de aula. Falar sobre trânsito é uma necessidade do nosso país, não apenas lembra dos congestionamentos, das multas, mas que os acidentes são causas de problemas para a saúde pública, para a assistência social dos Municípios.

Excesso velocidade, embriaguez no transito e uso de celular estão entre os principais causadores de acidentes fatais? É possível mudar essa cultura do brasileiro ao dirigir?
Acreditamos e trabalhamos para mudar essa cultura. O Observatório Nacional de Segurança Viária – ONSV nasceu com esse objetivo, o Movimento Maio Amarelo veio a somar nesse processo. Atualmente temos para os Municípios e empresas os programas Município e Empresa Laço Amarelo, para que as cidades, empresas interessadas em tratar o tema trânsito os doze meses do ano possam fazê-lo, recebendo materiais elaborados pelas equipes técnicas do ONSV.