Natália Mota: "Conseguimos mapear, com muita precisão, a perda de conectividade na esquizofrenia"

Publicação: 2020-02-15 00:00:00 | Comentários: 0
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Ícaro Carvalho
Repórter

Uma pesquisa que acelera o diagnóstico da esquizofrenia e busca auxiliar na socialização de pessoas acometidas pelo distúrbio é o tema que norteia os estudos da pesquisadora Natalia Bezerra Mota, 37 anos, do Instituto do Cérebro, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Estudando os mapeamentos mentais que causam esse tipo de distúrbio há quase 20 anos, Natalia está desenvolvendo um software que pretende descobrir, a partir dos relatos e comportamentos dos pacientes, se eles são esquizofrênicos ou não. Ao todo, nesses anos de pesquisa, pelo menos 250 usuários foram testados, sendo a maioria deles do Rio Grande do Norte e uma pequena parcela dos Estados Unidos e da Inglaterra. A pesquisa, inclusive, está em fase de recrutamento de novos pacientes que queiram fazer parte do projeto, auxiliando os pesquisadores a ampliar o seu banco de usuários e a testar ainda mais a tese. No ano passado, Natalia foi a primeira brasileira e a única sul-americana indicada ao prêmio Nature Research Award 2019, na categoria Ciência Inspiradora, prêmio promovido por uma das revistas científicas mais respeitadas do mundo. Nesta entrevista à TRIBUNA DO NORTE, ela fala sobre a sua pesquisa e sobre os desafios da ciência e tecnologia no momento atual. Confira.

Créditos: Adriano AbreuNatália Mota, Pesquisadora do Instituto do Cérebro, da UFRNNatália Mota, Pesquisadora do Instituto do Cérebro, da UFRN


Como surgiu esse interesse em estudar a esquizofrenia?
Durante a graduação comecei a me interessar por psiquiatria e durante a formação como psiquiatra eu percebia que tinha uma dificuldade grande de caracterizar esses sintomas da esquizofrenia e fazer a distinção entre o que era um transtorno bipolar de sintomas psicóticos, ou se era de fato esquizofrenia, prever esse risco. Os pacientes iam e voltavam do serviço de saúde e muitas vezes ficavam sem esperança mesmo, passavam dois, três anos sem fechar um diagnostico. Às vezes, depois de ano em tratamento, com um diagnostico, tinha que se rever. Isso angustiava muito as famílias. O laboratório tinha o interesse de estudar sonhos e memória e toda essa proximidade do fenômeno onírico com a psicose também chamava muito a atenção. Então tem toda essa questão de entender porque algumas pessoas passam por isso, de onde vem. Quais são as bases neurobiológicas disso.

Como funciona de fato a sua pesquisa? Sei que você desenvolveu um software para acelerar esses diagnósticos...
Eu sou psiquiatra de formação e meu orientador, da UFPE, Mário Copeli, é físico, e meu co orientador, Sidarta Ribeiro, é biólogo, neurocientista, mas tem uma formação ampla de matemática também. Quando começamos a conversar sobre o assunto, percebi que vários sintomas em que o psiquiatra é treinado para perceber, eram possíveis de serem medidos se usássemos modelos para aquilo. Uma das coisas que o psiquiatra faz é escutar o paciente. E ele não escuta só o conteúdo, o significado. Ele observa a maneira como o sujeito se expressa. E isso, a psiquiatria, desde as primeiras descrições da esquizofrenia, fala de uma série de sintomas que a gente chama de desordens da forma do pensamento, que dá essa noção de que o pensamento está desorganizado. Então se a pessoa tem uma mente desorganizada, quando ela se expressa, essa fala sai desorganizada também. Como a gente poderia medir isso, então? A psicopatologia descreve isso sempre como se fosse uma trajetória que saiu do trilho, um descarrilhamento. Os pensamentos estão afrouxados, fragmentados. Então pensamos em representar essa trajetória de palavras faladas pelo sujeito como uma entidade matemática chamada de grafo, que nada mais é do que você pegar elementos e representá-los de uma maneira ordenada como eles aparecem. Representamos as palavras faladas pelo sujeito  como uma trajetória. Sempre que ele repetia aquela palavra, voltava para aquele mesmo ponto, fechavam-se loops, ciclos e isso dava essa conformação de rede e somos capazes de medir várias coisas por essa rede. Tem muita coisa que dá para se calcular de uma rede para caracterizar se ela está mais ou menos complexa, ou, no caso da gente, se ela está mais ou menos organizada. Daí a gente consegue, dessa maneira, estudando a trajetória de palavras do sujeito como um grafo, quantificar o quão essa trajetória está desorganizada, fragmentada.

Então vocês precisam fazer várias simulações com um paciente para ter esse diagnóstico?
Não, na verdade não. Um relato de 30 segundos já é possível de captar, porque a sintomatologia é muito gritante. O tamanho da diferença é enorme. O que acontece é que, ao longo dos anos de pesquisa, percebemos que determinados assuntos se expressam de maneira mais forte. Uma das descobertas colaterais que fizemos é que, quando as pessoas falam sobre um sonho, isso se revela de uma maneira mais forte. O que a gente percebe é que, ao falar de um sonho, se você não tem sintoma, você vai tentar se expressar de uma maneira que você une o final do seu relato com o começo e deixa tudo conectado. Já uma pessoa que tem os sintomas de esquizofrenia, mesmo no início, percebemos que já nesse começo conseguimos mapear, com muita precisão, essa perda de conectividade. Acredito que tem a ver com a capacidade de planejamento da fala e essa memória verbal. O sujeito quando está num processo de adoecimento, ele tem dificuldade de se conectar com o ambiente, com o mundo. E a mente está confusa, desorganizada, então ele não consegue fazer uma história com começo, meio e fim de maneira a colocar várias informações dentro daquele relato e linkar todo mundo, conectar todas as palavras.

E qual o diferencial desse projeto? Quer dizer... além do potencial tecnológico, qual o ganho social para essas pessoas?
A novidade é colocar números nisso, porque você consegue sair daquilo de falar 'hmm, acho que ele está melhor hoje' para dizer “ele está 0,001.2 melhor hoje”, então você adiciona uma precisão matemática para essa avaliação que é fundamental para explicar o que está acontecendo biologicamente com ele. […] Um primeiro episódio normalmente acontece no início da idade adulta, justamente naquela fase que o adolescente está construindo seus laços sociais e com todas as dúvidas e ansiedades e também todas as empolgações da idade. Quando você tem uma patologia como essa, faz parte da sintomatologia querer se isolar e ficar desconfiado, com medo das outras pessoas. Se isso não for identificado cedo pode gerar conseqüências como perder um emprego, sair da universidade, perder amigos, deixar de se socializar e quando a pessoa procura ajuda e começa a fazer tratamento, já foram anos de isolamento, preconceito, exposição, medo. Um diagnostico precoce, livre de estigmas, que as pessoas possam ter uma conversa franca no início, isso pode orientar todo o entorno daquele paciente para que ele não tenha que se reabilitar, mas que ele tenha que fazer algumas mudanças dentro das escolhas dele, do que ele quer, para poder atingir os sonhos dele.

E esse projeto está se mostrando viável?
Um dos trabalhos que fizemos, publicado no ano passado, em colaboração com a Inglaterra, é que, assim, testamos o aplicativo em vários pacientes daqui da rede de saúde mental de Natal e em pacientes com primeiro episódio e  conseguimos impactar lá fora. Por isso essa pesquisa está tendo toda essa visibilidade. Grupos estrangeiros estão procurando a tecnologia feita aqui para aplicar em outros lugares do mundo. O que a gente percebeu é que, como não depende do significado, parece, até agora, independente da língua. Então a gente testou com pacientes nativos em inglês e conseguimos a mesma precisão, usando só esses atributos. A gente consegue prever com mais de 90% o diagnóstico de esquizofrenia.

Como tem acompanhado os investimentos na ciência nos últimos governos? Quais os impactos disso?
São graves. Temo que a gente chegue a um ponto que sejam irreversíveis, mas tento ter uma postura otimista. Sou da opinião que precisamos olhar para as pessoas que estão fazendo essa história e o Nordeste é um cenário de resistência há muitos anos no Brasil. Conseguimos fazer muitas coisas com pouco recurso e muita curiosidade. Então o nordestino tem essa marca de ser um povo muito criativo, que gosta do trabalho. Isso é fundamental para desenvolvimento da ciência e das pesquisas. O que a gente tem feito enquanto cientista é tentar falar e alertar sobre isso, para que a população esteja do nosso lado e entenda que o trabalho do cientista é um trabalho voltado para a sociedade, para o crescimento e desenvolvimento social, essencialmente. Nossos problemas quem vai cuidar somos nós. Se a gente não tem ciência boa, a gente não descobre o que está sendo feito aqui.

Quem
Natalia Bezerra Mota, 37 anos, natural de Fortaleza. Possui graduação em Medicina pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (2007), residência em Psiquiatria pela UFRN (2011), mestrado em Neurociências pelo Programa de Neurociências da UFRN (2013) e doutorado em Neurociências pelo Programa de Neurociências da UFRN (2017). Atualmente, é pesquisadora em pós-doutorado pelo Instituto do Cérebro – UFRN.











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