Economia
Construção civil usa 75% dos recursos
Publicado: 00:00:00 - 25/08/2013 Atualizado: 08:44:36 - 24/08/2013
A construção civil, aos poucos, vem buscando reverter a sedimentada imagem de “vilã” ambiental.  Ferramenta importante para o desenvolvimento econômico - com projeção para 2013 de crescer 4% no PIB (Produto Interno Bruto) do setor e mais de 10 milhões de pessoas empregadas direta e indiretamente – o segmento figura como grande poluidor e se prepara para mudar. O desafio, observam especialistas, é incorporar práticas que garantam maior durabilidade e menor consumo energético e nisso, são unânimes: a escolha de produtos e processos mais “limpos” faz a diferença.

Dados do relatório sobre a  gestão da sustentabilidade na construção civil, divulgados pela Fundação Dom Cabral (entidade que atua no desenvolvimento e consultoria de empresas e negócios  sustentáveis), dão conta que 75% de todos os recursos naturais e 44% da energia produzida no país são consumidas na construção civil.

O setor também responde por cerca de 40% de todo o resíduo produzido pela atividade humana e pela emissão de  um terço de gases do efeito estufa - devido o vasto uso de insumos, como cimento e aço. Para ter ideia, a siderurgia no país é responsável por 35% das emissões de carbono da indústria, enquanto o cimento por 19%. Acrescentando-se o consumo de diesel no transporte dos materiais até os canteiros de obras o cálculo aumenta substancialmente.
A Usina Ecobrit é uma das duas que reciclam entulhos de construções no Estado. Material derivado pode custar até 50% mais barato, mas procura ainda é pequena devido à desinformação
Mas as mudanças já começam a se esquadrinhar, movidas por leis de proteção ambiental mais rigorosa e para atender o desejo de consumidores cada vez mais exigentes, como lembra o presidente do Sindicato da Construção Civil do Rio Grande do Norte (Sinduscon/RN), Arnaldo Gaspar Júnior.

“As pessoas estão preocupadas com gastos de manutenção futuros, nisso a nova norma de desempenho de edificações, que é quase um código do consumidor específico para a construção civil, é um grande aliado na busca por sustentabilidade”, frisa o presidente do Sinduscon/RN. 

A norma institui nível de desempenho mínimo ao longo de uma vida útil para cada parte da estrutura, de toda e qualquer edificação habitacional. Uma espécie de manual de uso e construção, explica o presidente do Sinduscon, que  estabelece as obrigações de cada autor dentro da cadeia da construção, ao tempo que resguarda de futuras reclamações. “A norma aliada à sustentabilidade vem dar robustez ao setor”, avalia Gaspar Júnior.

Pesar o desempenho de cada produto e insumo usado na edificação e impacto causado por cada agente, contribui para a durabilidade. Para a professora Maria das Vitórias Vieira Almeida de Sá, do Departamento de Engenharia Civil da UFRN, o conceito de sustentabilidade não pode ser desvinculado ao da duração das edificações.

“Não é só o uso de materiais por si, a destinação adequada de resíduos. Quanto mais tempo a edificação durar, menos recursos serão usados para manter ou mesmo para construir outra em substituição”, afirma.

Localizar, medir, mitigar ou compensar emissões de carbono, bem como estudar alternativas para ter bom desempenho com menor consumo energético e de demais recursos naturais é a fórmula que deve ser aplicada desde as pranchetas até os canteiros de obras.

O desafio para mudança conceitual, analisa  ela, passa pela educação. “A mudança vai nascer nas universidades, com a formação dos engenheiros. Esse é o papel da academia”, assevera Maria das Vitórias Sá.

Sem alterar a essência da atividade econômica, alerta ela, é preciso agregar práticas que atendam às necessidades da sociedade, mantenham o crescimento da economia e ambiente sadio. “Se constrói para vender, sim. Esse é o papel do empreendedor. Não tem o sonho social.  Dentro desse contexto, é preciso pensar nas gerações que virão”, afirma a professora.

Apenas 30% do entulho tem destino adequado

Em Natal, de acordo com levantamento da Companhia de Limpeza Urbana são geradas, por mês, 40 mil toneladas de resíduos da construção civil (RCC), mas somente cerca de 12 mil toneladas (30%) seguem para as duas usinas de reciclagem de resíduos da construção civil instaladas no Estado. A maior parte – 70% - ainda vai parar em terrenos baldios e locais indevidos para o descarte.

“É muito baixo o volume encaminhado às usinas, ainda há descarte irregular do material que contamina o solo e não gera renda”, afirma o sócio-diretor da usina Ecobrit, Ubirajara da Costa.

Apesar da capacidade instalada para receber e processar 15 mil toneladas por mês, a Ecobrit só opera com cerca de 6 mil toneladas de resíduos provenientes de 40 construtoras, além de demanda avulsa. Deste total, somente 30% volta para as obras como produto reciclado para ser incorporado à edificação.
Até 95% de todo o resíduo gerado na construção pode ser reciclado
“Ainda é visto como subproduto, quando dependendo da aplicabilidade é mais viável e mais barato 50%, optar pelo reciclado. Mas acreditamos que a geração e a aceitação do produto cresçam com a conscientização”, confia Ubirajara Costa. Depois de moída, a brita não pode ser vendida e usada como material estrutural, mas serve para piso, contrapiso, pavimentação o que já amortiza muito os gastos da obra com o mesmo nível de qualidade.

Até 95% de todo resíduo gerado na construção pode ser reciclado. A desinformação faz com que metade do material recebido permaneça ocioso no pátio, apesar do potencial para uso. Os outros 20% corresponde a madeira, plástico, ferragens, papel e papelão que seguem para outras indústrias de processamento.

Para a professora Maria das Vitórias Sá, é preocupante a produção do resíduo, que não deveria mais ocorrer. A geração significa que o processo construtivo não é tão cuidadoso com o desperdício e traz gastos desnecessários. A UFRN desenvolve projetos de pesquisas sobre o potencial do material reprocessado agregado à argamassa e ao concreto, analisando a eficiência, como e em que podem ser usados.

Faltam prédios inteligentes

O número dos chamados imóveis “inteligentes” ainda é ínfimo. Empreendimentos sustentáveis são apenas 1% do mercado brasileiro. No RN, o Sindicato da Indústria da Construção Civil (Sinduscon/RN) não tem informação sobre empreendimentos em funcionamento.  Mas a tendência é que nos próximos anos esses espaços sejam cada vez mais comuns, na opinião do presidente do Sinduscon, Arnaldo Gaspar Júnior.  “É uma exigência do mercado. O consumidor prefere ter um imóvel inteligente, que otimize o uso e traga economia. Essa será, em breve, uma revolução silenciosa”, disse. O marco regulatório para geração de energia fotovoltaica (solar), sancionado no início do ano, é uma das formas de acesso para a nova era de edificações, segundo ele.

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