Conto de Encontro XIII

Publicação: 2020-05-24 00:00:00
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Alex Medeiros
alexmedeiros1959@gmail.com


A passeata saiu da Avenida Deodoro, após uma animada concentração em frente à Catedral Metropolitana, e partiu pela João Pessoa em direção à Praça André de Albuquerque na esquina divisória com o Memorial Câmara Cascudo, onde havia a sala da Cooperativa de Artistas de Natal, a Cooart, dirigida pelo multigrafista Venâncio Pinheiro, eleito no voto direto, alguns aninhos antes da gigantesca campanha Diretas Já que tomaria as ruas e as almas em 1984.

Guardo o recorte da fotografia publicada no Diário de Natal e em A República, comigo e o presidente segurando as extremidades de uma faixa com uma blague que fiz, relativa ao slogan do governo municipal: “Nossa Ociocidade Natal”, assim com o C substituindo o S do substantivo feminino tão alusivo aos poetas, boêmios e udigrudis que festejavam ali mais um 14 de março, Dia Nacional da Poesia. Na minha lateral, lá estava a substantividade feminina.
Créditos: Divulgação
De vestidinho branco, destacando uma anatomia de “musa piradora”, como dizia um versinho feito ali mesmo, a passeata se tornou minha procissão particular de culto àquela garota que carregava sobre si os olhares da avenida.

Durante o sarau no encerramento do ato, em clima de Woodstock literário, trocamos ideias diversas e palavras de versos, e lhe apresentei um velho caderno azul inflado de tentativas poéticas que eu registrava ali desde 1977.

Acompanhei-a de volta à Catedral, onde estava estacionado seu carro. Os mesmos olhares no percurso inverso despencavam sobre ela. Na calçada da igreja, um fotógrafo pediu para ela posar; guardei a imagem como um pôster.

Por vários dias formos construindo uma afetividade e uma cumplicidade que culminaram com uma ideia de pegar o rumo de Minas Gerais e de São Paulo. Nos aventuramos dois dias nas poltronas de um ônibus da empresa Gontijo.

No balanço das horas e do percurso na estrada, nos tornamos a atração cultural do pedaço, cantávamos a todos pulmões e eu ainda cometia sons de flauta, o que não impedia a descontração na nossa versão “bye, bye, Brasil”.

Em Belo Horizonte, brincávamos de descobrir bares com músicas ao vivo e espaço para recitais, e sentávamos nas gramas dos parques para almoçar sanduíches; e depois circulávamos na famosa feira hippie da Praça Tiradentes.

Um dia ela cantarolou e dançou no salão da Secretaria de Cultura do governo Tancredo Neves, diante da porta do secretário José Aparecido, arrancando sorrisos e elogios à sua beleza da então jovem senhora Márcia Kubitschek.

Um dia, já de noite, minha estrofe chegou tarde no soneto dela, nos desentendemos por besteiras e o sono demorou a chegar para ambos. Pela manhã, ela havia despertado primeiro, saiu e passou a chave do lado de fora.

A liberdade, presente numa bandeirinha de Minas na parede, só me chegou na hora do almoço, ela abrindo a porta, com aquele sorriso lindamente cínico de criança que fez peraltice. Daquele quarto, guardei o visual da janela num verso.

Deixamos Beagá no rumo de São Paulo, curtimos grandes resenhas e ouvimos músicas nas casas de dois potiguares que hoje são saudades, os queridos Afonso (Fon) Lima e Joca Melo. Juntos desfraldamos Pinheiros e Paraíso.

Ah, sobre o verso da janela, dizia assim na primeira parte: “Na tela / da janela / vi aquela / estrela bela / que um dia / em poesia / eu batizei / com o nome dela”. O tempo passou rápido, mas a estrelinha segue brilhando. Pra sempre.

O vídeo 

A reprodução da reunião ministerial na TV, inclusive nas abertas, pode ter um efeito nada salutar para as oposições. Muita coisa nos gritos de Bolsonaro é exatamente o que lhe deu votos em 2018. Anteciparam o horário gratuito.

Sergio Moro

Só pode ser a condição neófita do ex-juiz, estranho no ninho da política. De onde Sergio Moro tirou a compreensão de que o vídeo provocaria graves consequências a Bolsonaro? A inteligência funcionou bem pra pegar corrupto.

Previsão

A colunista do UOL, Thaís Oyama, leu a conjuntura como quem lê tarot em circo mambembe. Disse que Lula encolheu politicamente e que não é mais a referência da esquerda. Esqueceu que só ele divide a massa com Bolsonaro.

Pedofilia

Uma sentença manda Olavo de Carvalho pagar indenização de R$ 2,8 milhões ao compositor Caetano Veloso, por ter publicado no Twitter que o baiano fez sexo com uma menina de 13 anos, que quando adulta tornou-se sua mulher.

Pedofilia II

Não será nada fácil para Caetano e Paula Lavigne receberem a bolada, pois Carvalho tem hoje cidadania norte-americana e fez a acusação em solo dos EUA e a justiça brasileira não tem extraterritorialidade em casos de expressão.

Mula-manca

Do jornalista Rubinho Lemos no Twitter: “Será o homem do lockdown a reencarnação da doida Maria Mula-Manca, que previu a derrota de Aluízio Alves em 1960? Isolamento é necessário. Usá-lo para satisfazer ego, pecado”. 

No Twitter

Gustavo Rocha: “O parlatão Nicolelis determina lockdown. A ‘gunvernadora’ diz que não fará. Quem faz política e quem faz ciência? O parlapatão quer o quanto pior, melhor? A ‘gunvernadora” cedeu ao lobby dos empresários?”.

Votação virtual

Computados na sexta-feira os votos do projeto Som Sem Plug, que garante patrocínio para os três artistas mais votados. A votação ficou assim: Maria Fontes, 23.372 votos; Marcus Vinicius, 19.647; e Breno Slick, 15.660. 








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