Conto de Encontro XXIII

Publicação: 2020-08-01 00:00:00
Alex Medeiros
alexmedeiros1959@gmail.com 

Era a primeira vez que eu experimentava um costume paulistano que me aguçara a vontade nos anos anteriores daquela nova condição de morador do sudoeste da zona metropolitana da babilônia de concreto, vidraças e rodovias. Naquele instante eu tinha como acordar e tomar um café na minha própria roda de amigos, botar as conversas locais em dia, baseado nas edições da Folha que agora chegava antes do Sol por debaixo da porta da minha residência.

Um grupo de seis ou sete, todos de pé na divisória da entrada e da calçada, vendo na rua os operários das fábricas da Raposo Tavares pegando a condução, as comerciárias seguindo para o centro. No meu bolso, um maço de cigarros John Player Special - que eu adotara substituindo Free – abastecendo a maioria fumante. No grupo, dois irmãos (colegas do trampo), um bancário japa, um servidor da prefeitura, um motorista de ambulância e um mecânico.

O cara da oficina era o mais alto e mais velho, quase quarentão, branquelo com cabelos e bigode loiros, que nos fazia trata-lo como “alemão”. Antes de encerrar a primeira semana de padaria, ele apareceu com uma linda garota.

Todos já a conheciam, pois era a filha dele, uma moreninha esguia de olhar aceso e boca suculenta. Me apresentou e disse “sua nova colega de trabalho”, alusão ao fato de que naquele dia ela integraria o time do armazém em frente.

Eu estava com vinte e quatro anos e ela prestes a completar dezoito, como confirmei na primeira oportunidade num papo a dois ao atravessar a rua. A menina seria uma auxiliar de vendas para mim e para o mais novo dos irmãos.

A essência lúdica e a moda wave do começo dos anos 1980 estavam em seus gestos e linguagem, e estampados nos cabelos com coisas coloridas e nos braços enlaçados com pulseirinhas metálicas dos camelôs da Avenida Paulista.

Ela fumava escondido do meu colega “alemão” e alguém me alertou do ciúme paterno quando nos viu fumando juntos no pátio do trabalho. Foi nesse dia que percebi as lindas e roliças pernas, revelando sua anatomia de falsa magra.

Por semanas trabalhei ansioso e displicente, buscando uma maneira de estreitar laços. Pensava em algo que fosse além de uma boa conversa, posto que não era fácil convergir nos assuntos, além do trivial nas horas do cigarro.

Então, numa manhã, perguntei se ela havia se inspirado em alguma das garotas da banda Blitz, Fernanda Abreu e Márcia Bulcão. Não, não eram as cariocas. A referência estética da gatinha era a nova-iorquina Cyndi Lauper.

Decidi fazer da cantora americana o meu acesso afetivo à atenção da menina. Eu pouco sabia da geração musical oitentista nos EUA; curtira alguma coisa de Michael Jackson e sabia de Madonna, Bon Jovi, Prince e Gloria Estefan.

Num sábado, fui ao bairro Pinheiros para um tour por lojas de disco e comprei uma fita cassete do LP “She’s So Unusual”, que bem depois, já em Natal, eu saberia do seu enorme sucesso no mundo, mesmo sendo um álbum de estreia.

Ela se encantou com a fita, que virou trilha dos rolés que dávamos no carro do pai nos horários de almoço, em que ela dizia ir comer na casa de uma avó que jamais passamos nem perto. O Passat 1977 era o nosso ninho dos amassos.

Lá no trabalho, o grande almoxarifado nos fundos do armazém era um esconderijo improvisado para sarros de curta metragem, alguns minutos de beijos e pegação seguidos de sustos na perspectiva de cairmos num flagrante.

No balcão de atendimento aos clientes, quando ela encostava em mim e roçava o pé na batata da minha perna, era um sinal para uns toques rápidos por baixo da sua blusa. Uns dez anos depois, ao nos revermos, já não havia Cyndi Lauper entre nós. 


Créditos: Divulgação

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