Esportes
Contratação de clubes causa efeitos nos resultados e no desempenho econômico
Publicado: 00:00:00 - 11/07/2021 Atualizado: 11:03:37 - 11/07/2021
Itamar Ciríaco
Editor de Esportes

ABC e América chegaram perto dos 500 jogadores contratados nos últimos seis anos. Esse dado se torna ainda mais importante quando confronta-se com o baixo índice de acerto em relação ao desempenho dos atletas que chegaram aos clubes de Natal. Dados de uma pesquisa realizada pelo especialista em esportes e analista de desempenho Paulo Victor apontam que a eficiência alvirrubra nas contratações é de cerca de 13%. No Alvinegro a eficiência chega a 20%.

Rennê Carvalho
Na imagem do treino do ABC, de abril,  fica evidenciada as constantes mudanças no elenco. Helitão, que está na foto, por exemplo, deixou o clube e agora está atuando no futebol português

Na imagem do treino do ABC, de abril, fica evidenciada as constantes mudanças no elenco. Helitão, que está na foto, por exemplo, deixou o clube e agora está atuando no futebol português


Ou seja, dos 242 atletas contratados pelo América (dados até 1º de julho) apenas 31 tiveram o desempenho aprovado nos últimos seis anos. No ABC o ídice de acerto é maior, mas também preocupa. O clube fechou com 201 (nessa conta entra apenas contratados até 1º de julho) e 40 deram resultado positivo.

“A gente observou que o América erra mais nas contratações e também dispensa mais. Ou seja, o clube chega a ter quase que dois elencos diferentes por temporada. No ABC esse índice é menor, mas também chama atenção. Sabemos das pressões e da necessidade dos clubes para sair da Série D e de outras situações, mas o planejamento precisa ser mais bem feito”, comenta Paulo Victor.

O ex-atleta e agora treinador de Futebol, Júlio Terceiro corrobora a opinião de Paulo Victor. “Lamento muito dizer isso, mas os nossos clubes não são profissionais como deveriam ser. Estamos vendo aí o Bahia, Fortaleza, Ceará e outros se profissionalizando e nós estamos parados no tempo”, comentou. Ambos foram entrevistados no programa Tribuna Esporte da rádio Jovem Pan News Natal.

O excesso de contratações não se limita aos jogadores. Entre os treinadores a situação também é semelhante e, trabalhar nos dois grandes clubes de Natal como técnico é profissão de risco. Segundo os dados tabulados por Paulo Victor, o América FC nas últimas seis (6) temporadas, contratou, até o dia 1º de julho, duzentos e quarenta e dois (242) atletas e dezoito (18) treinadores, com uma média de 40,33 atletas e 3 treinadores por ano. O ABC FC teve duzentas e uma (201) contratações de atletas e treze (13) treinadores nesses mesmos anos, com uma média de 33,5 atletas contratados e 2,16 treinadores.
“Essa questão de treinador para mim é o essencial. Eu falo que as equipes precisam de um planejamento. E esse planejamento vai muito do perfil definido do treinador, porque daí você imagina a ideia de jogo que você quer ter com ele. Ou seja, se você quer uma ideia de time com uma proposta mais reativa você vai contratar atletas para dentro dessa proposta. Aí, quando você vai mudar o treinador e busca no mercado o mesmo estilo, você tem atletas com essas características. Daí você vai fazer apenas contratações pontuais. Mas, quando você não tem essa definição e contrata outro treinador com uma proposta diferente, você vai ter que refazer o elenco”, comenta o analista.

Para Paulo Victor, isso é o retrato do que vem ocorrendo no futebol potiguar há muito tempo. “Você contrata um treinador que arma equipes reativas e depois troca por outro com características propositivas de jogo. Ou seja, vai ter que trocar o time quase todo”, revela.

Ele cita que o América tem 18 treinadores de 2016 para cá e o ABC tem 13 técnicos diferentes. “Fica complicado você fazer um planejamento quando muda tanto”, avalia.

Segundo Paulo Victor, em princípio a ideia de checar esses dados seria para verificar se o alto número de contratos refletia em bons resultados para ABC e América. “Logo de cara observei que a tendência não era essa. A tendência é o time estar mais abaixo. Apenas uma exceção, que foi no ano de 2016, onde o ABC conseguiu o acesso para a Série B.  Isso aconteceu com o time tendo contratado 38 atletas e dois treinadores”, relembra.

CANINDÉ PEREIRA
No América, o técnico Renatinho Potiguar (de costas) chegou recentemente e o elenco está passando por nova reformulação

No América, o técnico Renatinho Potiguar (de costas) chegou recentemente e o elenco está passando por nova reformulação


O analista de futebol, que tem certificado da Confederação Brasileira de Futebol – CBF Academy e já trabalhou no América/RN e Ceará, buscou os dados em duas plataformas. “Busquei informações no site o gol.com.br que a gente consegue ter esse quantitativo de atletas, além do programa 'I Scout', que é um software em que as equipes do futebol brasileiro têm acesso a uma gama de base de dados sobre os atletas. Aí conseguindo pegar informações desses dois conseguimos fazer o levantamento”, explica.

Os dados obtidos na pesquisa também permitem inferir que ABC e América têm predileção por contratar jogadores que venham da região Sudeste, principalmente de São Paulo e que, dependendo da situação financeira, atletas e técnicos locais acabam sendo lembrados em momentos de crise.

“A maioria dos jogadores vêm do Sudeste, principalmente dos campeonatos paulistas. Da Série A-2 era muito e, ultimamente, esse ano mais especificamente a gente está vendo muitas contratações na Série A-3, que é uma terceira divisão do Paulista e onde o nível de competição não é tão alto, o que se torna até preocupante. Podemos até dizer que esse ano está sendo até diferente. Infelizmente a gente comenta que quando está no período de vacas magras é quando se olha mais para o Rio Grande do Norte, aí começa a se contratar mais atletas daqui, mais profissionais daqui. Ou seja, infelizmente precisa se passar por uma complicação para começar a se olhar mais ao redor”, fala.

Esse tipo de decisão está diretamente associada a questão salarial. No domingo anterior, a Tribuna do Norte publicou matéria com pesquisa que aponta 53% dos jogadores com remuneração em torno do salário mínimo e os resultados apontam que no Nordeste esses números são ainda piores. Em outra pesquisa ficou evidenciado que apenas Natal tem equipes que pagam valores médios acima do mínimo. “Infelizmente a maioria precisa se submeter para manter o sonho. Muitos destes jogadores que ganham o mínimo têm grandes famílias para sustentar e por isso aceita as condições impostas. Os que são da casa é ainda pior”, revela Júlio Terceiro.

Pressão
Segundo o analista de desempenho, Paulo Victor, a pressão exercida sobre os dirigentes locais, em busca de resultados imediatos, é um complicador para o clube e um facilitador para o cometimento de erros nas contratações.

“Sim, a pressão é muito grande. E vem dos torcedores, da mídia, de ex-dirigentes que pressionam bastante os dirigentes atuais, que precisam tomar uma decisão o mais rápido possível e dar uma resposta, mas aí entra numa questão que eu bato muito, que é o profissionalismo, ou seja, uma gestão técnica profissional. Se você tem um mapeamento, um monitoramento de atletas, de treinadores, que é contínuo, você consegue minimizar essas tomadas de decisões erradas. Se você não dá a estrutura para a sua comissão técnica, seus profissionais, seus funcionários realizarem esse tipo de situação aí você entra num efeito dominó. Ou seja, você vai errando e para recuperar é muito mais complicado e você fica na espera da obra do acaso”, diagnostica.

O profissional revela que apesar de todos os dados que os especialistas na área possuem e dos vastos estudos que são feitos, ainda são pouco ouvidos na hora do acerto com atletas ou profissionais técnicos. “Ainda é muito pouco ouvido e, quando é ouvido o poder de decisão não é o dele e, na cadeia decisória o profissional está mal posicionado e não tem voz de decisão”, explica.

Paulo Victor finaliza citando a questão dos gastos dos clubes com contratos de atletas. “Se você se planejar gasta muito menos. Para exemplificar, o ABC tinha nove atletas da base nesse elenco atual e mais seis remanescentes do ano passado. Desses 15 atletas apenas dois saíram. Então, se a média normal de contratações são 35, o ABC deveria fazer algo em torno de 20 contratações. Dessas 20, oito saíram, então você tem que repor, ou seja, no máximo 28 contratados. Só que o ABC já contratou 36 (números atualizados até 8/7), ou seja, já são oito jogadores contratados a mais.  Isso tudo fruto de erros de escolha”, explica.

Em um exercício básico de matemática é possível, nesse caso, tomando por base o salário médio dos clubes de Natal, conforme pesquisa publicada na edição da Tribuna do Norte, do domingo anterior, oito jogadores, com salário médio de R$ 4 mil (em Natal), a despesa mensal, com esse excedente chega a R$ 48 mil. Levando em conta um contrato com no mínimo três meses, o prejuízo beira R$ 150 mil, sem contar com verbas rescisórias, despesas extras e valores trabalhistas legais proporcionais (férias, 13º, etc).

No caso do América, na visão do especialista, a contratãção de Renatinho Potiguar para comandar o time na Série D do Campeonato Brasileiro foi uma boa escolha. “Na realidade ele deveria ter até vindo antes do Daniel Néri. Assim ele teria mais tempo para fazer essa reconstrução defensiva do time. O América preocupava muito nessa situação de defesa. As duas linhas de quatro na defesa de forma organizada conseguem anular o adversário. AO menos foi o que aconteceu contra o Atlético Cearense que, muitas das vezes, não conseguiu passar nem do meio de campo. Além disso, através dessa situação tática que o Renatinho colocou em campo, o América começou a forçar o erro do adversário e o time de Natal foi fatal nessa situação. Ainda não é perfeito. Precisa melhorar inclusive ofensivamente par não depender apenas das jogadas do esquerdinha, mas o que vimos dá esperanças ao torcedor”, concluiu.







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