Conversando com Oswaldo

Publicação: 2019-11-17 00:00:00 | Comentários: 0
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Terça-feira que vem, 19, a Academia Norte-Rio-Grandense de Letras abre as comemorações do centenário de nascimento de Oswaldo Lamartine de Faria, dos grandes nomes de nossa cultura, do mesmo time do Mestre Luís da Câmara Cascudo, parceiros nas perguntas e nas respostas para seus escritos. De cada um. Oswaldo nasceu em Natal, mas tinha alma de seridoense legítimo o mesmo chão de seus pais e avós. “Sou sobejo da seca de 19”, ele dizia. Numa entrevista que deu para Sanderson Negreiros, publicada em O Poti, 1966, e incluída no livro Na direção do relâmpago, Edufrn, 2001, disse Oswaldo:

“O sertão é um estado de graça. É uma das maneiras de se alcançar o céu. Talvez devido à comunhão com a natureza. Talvez porque a gente sofra dessa natureza. Talvez porque minha história individual teve começo ali. ”

Oswaldo Lamartine de Faria, o sertanejo, o ambientalista, o técnico em agricultura, o professor de Botânica, o etnógrafo da admiração de Gilberto Freyre, Cascudo, José Lins do Rego, Helio Galvão e de Rachel de Queiroz (dos que vou me lembrando agora), o escritor, o poeta, o recitador, o rabiscador de desenhos, ilustrador, o bibliófilo e alfarrabista, garimpador de livros raros que sabia encontrar em sebos e livrarias por onde sempre peregrinou. Trato fidalgo e dono de uma   prosa incomparável, o falar sertanejo que encanta. Rachel de Queiroz escreveu assim sobre o amigo:

“Conheci Oswaldo Lamartine quando começava a escrever o “Memorial de Maria Moura”, no início de 1990. E eis que surge aquele anjo magro, só querendo falar das coisas que ambos gostávamos – quer dizer do sertão. Hoje meu amigo, meu irmão, Oswaldo Lamartine. Acho que, no Brasil, ninguém entende mais do sertão e do Nordeste do que Oswaldo.  Quanto a mim, senti-me como garimpeiro que descobre uma mina. (...) acho que só de cem em cem anos pode nascer algum brasileiro como Oswaldo. ”

A programação da Academia começa terça-feira, 19, coisa das 17 horas com uma palestra de Vicente Serejo sobre o mote “Oswaldo Lamartine intérprete do sertão”. Segue uma mesa redonda com depoimentos de Manoel Onofre Jr., Tarcísio Gurgel, João Batista Pinheiro Cabral e Abimael Silva. Na boca da noite teremos a abertura da exposição fotográfica “O voo da Acauã”, de Candinha Bezerra, e também de livros e manuscritos de Oswaldo.

No dia 3 de dezembro o palestrante será o padre e acadêmico João Medeiros Filho: “Oswaldo Lamartine – Um homem de fé”, seguida da mesa redonda “Aspectos biográficos de Oswaldo Lamartine” com depoimentos de Geraldo Queiroz, Daladier da Cunha Lima, Edgar Dantas, Marcos Lopes e Gustavo Sobral.

A segunda palestra dessa noite ficará por conta da poeta Marize Castro que falará sobre o tema “Areia sob os pés da alma: uma leitura da vida e da obra de Oswaldo Lamartine de Faria”, título de sua tese de Doutorado em Estudos de Linguagem, UFRN – 2005. Aprovada com louvor. Completam a mesa Cassiano Lamartine, filho de Oswaldo, Dácio Galvão, Clauder Arcanjo e este WM, representando Queimadas de Baixo não muito distante da Fazenda Acauã.

Carta de Oswaldo
Esta semana mexendo na gaveta dos papeis desarrumados encontrei uma carta de Oswaldo Lamartine, escrita à mão, como sempre gostava de escrever, no melhor traço de calígrafo de alta linhagem. Enviada do Rio de Janei, onde morava (Rua Barão de Icaraí, 33/905) e datada de 13 de agosto de 1986, duas semanas após o encantamento de Luís da Câmara Cascudo:

“Rio de Janeiro, 13/agô/1986

Prezado Woden

Estas mal traçadas são para lhe agradecer por ter acudido ao toque do meu búzio, publicando a nota que rabisquei.

Tempos desonerados esses em que a gente tem de viver o tempo todo de cilha arrochada. Quando menos se espera, lá vem um despautério desses e quem pode garantir que no amanhã um “brasilianista” ou mesmo um “jequitiranaboia” daqui,  fazedor de teses de mestrado, não arrebanhe tudo o que se escreveu sem depois passar na urupemba?

Daí mandam me dizer de açudes cheios – muita água e pouca vazante; muito pasto e muito rastro; muito bicudo e pouco algodão... Que os bichos dos seus chãos estejam gordos de cabelo fino e tudo e todos com fartura de um tudo. E sob as suas telhas apojadas em sossego.

Do velho amigo-velho

Oswaldo Lamartine

E agora, sem Cascudo, a quem a gente vai perguntar as coisas?

Oswaldo”

O discurso
Noutro canto da gaveta encontro o original do discurso que Oswaldo fez quando agraciado pela Academia Norte-rio-grandense de Letras, “por relevantes serviços prestados à cultura do Estado”, nas comemorações dos 50 anos da sua fundação, solenidade realizada 1987. Oswaldo ainda não era acadêmico. Só ingressaria na Academia em 2001. Oswaldo falou assim:

“Agora sim – sei que inteirei três imerecidas medalhas nesse meu espichado viver.

A da Primeira Comunhão que traí e perdi pela fraqueza de não resistir aos pecados da vida.

Depois a do Atlântico, conferida ao pracinha 1918 da III Companhia de Metralhadoras do 16º RI, pelo adjutório em – do cocuruto das dunas de Ponta Negra – debicar do Africa Korps do generalíssimo Erwin Von Rommel. E se ele não quis brigar e retirou suas tropas, eu, que não sou de briga, não quis requerer a medalha.

Agora esta, que é mais uma persiga de amigos em emboscada de amizade que me fazem e eu recebo sem merecimento nem soberba, de vez que nela está a face dele. Ele que me “infuluiu” de botar no papel as coisas do meu mundo que espiava, pisava e não via...

Daí – p’ra que negar – estou de cabeça aos pés banhado de um sadio e merecido orgulho. Mesmo porque entendo que a recebo também em nome de todos os que me desasnaram de cada coisa: Mestre Pedro Ourives – o seleiro. Mestre Zé Lourenço – o fazedor de barragens. Chico Julião – o caçador de abelhas. Bonato Liberato Dantas – o pescador de açudes. E o rastejador e vaqueiro maior das ribeiras do Camaragibe – Olinto Ignacio. Nomes nunca escutados nesta Casa. Todos finados. E que Deus o tenha.

Agradecido por mim e por eles a vosmincês...”

Nota de WM: a pessoa que “infuluiu” Oswaldo e cuja face está na medalha é Câmara Cascudo.






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