Conversas pelo sertão afora

Publicação: 2010-05-04 00:00:00 | Comentários: 0
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Maria Betânia Monteiro - repórter

Que o samba foi criado no Rio de Janeiro, todo mundo sabe. O que pouca gente sabe é que foram os nordestinos, os responsáveis pela transformação do Lundu – gênero musical africano – nos mais brasileiros dos ritmos, o Samba. Quem conta esta história é o jornalista Múcio Procópio, bancário aposentado e pesquisador autodidata aqui do Estado. Especialista em movimentos sociais brasileiros, Múcio percorreu as trilhas deixadas por Antônio Conselheiro e acabou descobrindo a verdadeira origem do samba e da Guerra de Canudos. Às vésperas de mais uma de suas viagens à Bahia, Múcio conversou com o VIVER sobre o trabalho que vem fazendo com suas palestras pelos sertões afora.

Pesquisador  Múcio Procópio volta a Canudos nos próximos diasO pesquisador percorre desde 1979 os caminhos de grandes nomes, como Luiz Gonzaga, Lampião, Padre Ibiapina (líder político e espiritual da Bahia), Delmiro Gouveia (comerciante alagoano), dentre outros ilustres nordestinos, com o objetivo de coletar informações para depois divulgá-las em diversas comunidades. “Se as pessoas tivessem consciência do que são, sofreriam menos”, disse Múcio. Inspirado em Antônio Conselheiro, personagem histórico de maior relevância em suas pesquisas, o jornalista andou por todo o país coletando e divulgando informações preciosas, num trabalho missionário em favor do esclarecimento.

Fazendo uso quase que exclusivo da transmissão oral, o pesquisador profere palestras em universidades, escolas e demais instituições fomentadoras do conhecimento. Na semana passada, Múcio foi um dos palestrantes do Forró em Debate, no Forró da Lua da fazenda Bonfim,  ao lado de Biliu de Campina e outros palestrantes.

Agora, o pesquisador anda às voltas com a história do samba. Segundo ele, os combatentes nordestinos da Guerra de Canudos povoaram os morros do Rio e criaram o Samba.

Ele conta que a origem de tudo foi uma promessa não cumprida do então presidente Prudente de Moraes. Segundo Múcio, ele teria oferecido aos homens desempregados de todo o Brasil, um emprego no que viria a ser o exército brasileiro. A primeira batalha desses homens pobres, em sua grande maioria ex-escravos, foi a Guerra de Canudos. Eles passaram onze meses em combate e depois se dirigiram ao Rio de Janeiro para cobrar do presidente a promessa de emprego.

Os ex-combatentes não receberam o prometido e montaram suas casas nos morros da periferia carioca. “Muitos destes homens ainda cantavam, tocavam e dançavam de saudade da África. Eles traziam em seu repertório o Lundu”, disse o pesquisador. Esses homens negros se encontravam para tocar, nos vários terreiros erguidos nos morros do Rio.

O número de freqüentadores dos terreiros aumentava, ao passo que eram inseridos novos instrumentos e novos ritmos, o que resultou, em pouco tempo, nos batuques e nas umbigadas, que posteriormente evoluíram para uma das trinta variações do Samba “carioca”.

Um dos terreiros mais frequentados na época era o da Tia Ciata, baiana que ganhava a vida vendendo acarajés e outras iguarias de origem africana. Em sua casa passaram os precursores do samba, como Donga e Mário de Almeida, que lançou o vinil chamado “Pelo Telefone”, produzido pela Casa Edson em 1917. Outros Sambas haviam sido gravados, mas o sucesso de Pelo Telefone foi tanto, que o disco passou a ser considerado o marco na popularização do ritmo brasileiro.

Apesar da grande influência de Tia Ciata e do sucesso do disco Pelo Telefone, o Dia do Samba é comemorado para marcar a visita de Ary Barroso à Bahia, em dois de dezembro em 1940.

Coleta de novos dados

A viagem para a cidade de Canudos, no interior da Bahia tem como propósito a coleta de novos dados para incrementar a pesquisa sobre a Guerra de Canudos e os seus desdobramentos. Múcio tem um dos maiores acervos no Estado sobre a Guerra de Canudos e sobre os seus atores. São ao todo 193 livros, 200 folhas de jornais, 38 artigos, além de revistas e outros materiais sobre Canudos, Antônio Conselheiro e Euclides da Cunha.

Múcio pretendia no início de suas atividades na década de 1970 ir as comunidades para falar sobre a formação de consciência crítica, o que segundo o pesquisador não deu certo. “O título amedrontava as pessoas”, disse Múcio. O pesquisador optou por falar de temas periféricos, como rebeliões sociais, que culminavam no mesmo lugar: fomentação da consciência crítica. “Eu queria que o eleitor não votasse em troca de dez Reais ou pelo acesso gratuito a uma lama cultural qualquer”, disse Múcio. O pesquisador acredita que as pessoas devem buscar informações para que não sejam enganadas por discursos de camelô. 

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