Copom quebra ciclo de cortes e mantém taxa de juros em 2% ao ano

Publicação: 2020-09-17 00:00:00
O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central decidiu, por unanimidade, manter a Selic, a taxa básica de juros da economia, em 2% ao ano. É a primeira vez, após nove cortes consecutivos, que a Selic não sofre alteração. Ainda assim, a taxa está no piso da série histórica do Copom, iniciada em junho de 1996. A sequência de corte foi iniciada em julho de 2019, quando a taxa estava a 6,5%.

Créditos: marcello casal jr/abrCopom, do Banco Central, voltou a se reunir em meio à alta no preço dos alimentos, que eleva a inflação, base de cálculo da SelicCopom, do Banco Central, voltou a se reunir em meio à alta no preço dos alimentos, que eleva a inflação, base de cálculo da Selic

De outubro de 2012 a abril de 2013, a taxa foi mantida em 7,25% ao ano e passou a ser reajustada gradualmente até alcançar 14,25% ao ano em julho de 2015. Em outubro de 2016, o Copom voltou a reduzir os juros básicos da economia até que a taxa chegasse a 6,5% ao ano em março de 2018, só voltando a ser reduzida em julho de 2019.

A decisão de manter a taxa básica da economia em 2% era largamente aguardada pelo mercado financeiro. De um total de 48 instituições consultadas pelo Projeções Broadcast, todas esperavam pela manutenção da Selic em 2,00% ao ano no encontro do Copom desta quarta-feira (16). Para 43 das 48 casas que enviaram estimativas, o mais provável é que o ciclo de reduções da taxa tenha se encerrado em agosto, quando a taxa foi reduzida de 2,25% para 2%.

O Copom voltou a se reunir em meio à alta no preço dos alimentos, de 8,83% em 12 meses até agosto. Esse reajuste não tem apenas um alimento como responsável - a maioria está com preços recordes no campo. Porém, dois chamaram a atenção nos últimos dias: o arroz, com valorização de 19,2% no ano, e o óleo de soja, que subiu 18,6% no período.

Sem citar especificamente o arroz - produto que vem sendo apontado como o vilão para os preços nas últimas semanas - o BC afirmou que a inflação deve se elevar no curto prazo. Além da alta nos alimentos, contribui para isso, conforme a autarquia, a "normalização parcial do preço de alguns serviços", passada a fase mais intensa de isolamento social.

Ainda assim, o BC trabalha com uma inflação em níveis controlados. No cenário que utiliza câmbio fixo e projeções do mercado financeiro para os juros, a autarquia alterou sua estimativa para o IPCA - o índice oficial de preços - em 2020 de 1,9% para 2,1%. No caso de 2021, a expectativa caiu de 3,0% para 2,9%.

O próprio BC, porém, já vinha indicando que a taxa Selic deveria ser mantida estável nesta quarta-feira antes mesmo da recente disparada dos preços dos alimentos. Em agosto, informou que o País já estaria próximo do nível a partir do qual reduções adicionais na taxa de juros poderiam gerar instabilidade nos preços de ativos (alta do dólar, por exemplo). 

O Copom fixa a taxa básica de juros com base no sistema de metas de inflação. Para 2021, ano no qual o BC já está mirando - as decisões sobre juros demoram de seis a nove meses para ter impacto pleno na economia -, a meta central de inflação é de 3,75% e será oficialmente cumprida se o índice oscilar de 2,25% a 5,25%.

No comunicado que acompanhou a decisão de ontem, o BC avaliou que a retomada da atividade nas principais economias do mundo tem gerado um ambiente "relativamente mais favorável" para os países emergentes. "Contudo, há bastante incerteza sobre a evolução desse cenário, frente a uma possível redução dos estímulos governamentais e à própria evolução da pandemia", pontuou o BC.

Sobre futuros ajustes nos juros básicos, o Comitê ressaltou que novas mudanças, caso ocorram, serão graduais e dependerão da situação das contas públicas. Assim, sinalizou cautela sobre a possibilidade de novos cortes. "O Copom entende que a conjuntura econômica continua a prescrever estímulo monetário extraordinariamente elevado, mas reconhece que, devido a questões prudenciais e de estabilidade financeira, o espaço remanescente para utilização da política monetária, se houver, deve ser pequeno. Consequentemente, eventuais ajustes futuros no atual grau de estímulo ocorreriam com gradualismo adicional e dependerão da percepção sobre a trajetória fiscal, assim como de novas informações que alterem a atual avaliação do Copom sobre a inflação prospectiva", destacou o comunicado.

Juro real
Com a Selic a 2% ao ano, o Brasil segue com juro real (descontada a inflação) negativo. Cálculos do site MoneYou e da Infinity Asset Management indicam que o juro real brasileiro está em -0,81% ao ano. O País tem o 16.º juro real mais alto do mundo, considerando as 40 economias mais relevantes. No topo do ranking está a Turquia, com taxa real de 3%.