Coragem na cabeça

Publicação: 2018-09-23 00:00:00 | Comentários: 0
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Tádzio França
Repórter

A ansiedade e o medo são emoções cotidianas do ser humano que se complementam de variadas formas. O problema é quando elas se tornam excessivas, adquirindo o formato de um distúrbio e impondo mais dificuldades à vida de quem passa por isso. Uma nova possibilidade de tratamento está vindo de uma pesquisa conjunta entre cientistas do Instituto do Cérebro da UFRN e do Departamento de Neurociências da Universidade de Uppsala, na Suécia: foi descoberto que determinadas células cerebrais podem ser manipuladas para auxiliar no combate a patologias, distúrbios e comportamentos negativos associados à ansiedade.

Pesquisa conjunta entre cientistas indica que certas células cerebrais motivadoras da coragem, podem ser manipuladas para auxiliar no combate a patologias, distúrbios e comportamentos negativos associados à ansiedade e o medo
Pesquisa conjunta entre cientistas indica que certas células cerebrais motivadoras da coragem, podem ser manipuladas para auxiliar no combate a patologias, distúrbios e comportamentos negativos associados à ansiedade e o medo

Os cientistas descobriram um grupo de neurônios que tem um papel crucial em comportamentos ansiogênicos, ou seja, aqueles que desempenham um papel fundamental nos comportamentos de risco e ansiedade. “Encontrar um único grupo de neurônios que, quando manipulados, diminui consideravelmente comportamentos similares a ansiedade humana, permite a formulação de tratamentos extremamente precisos e com um mínimo de efeitos adversos”, explica Richardson Leão, neurocientista, professor e integrante do Instituto do Cérebro.

As células que atuam diretamente sobre as sensações de ansiedade são conhecidas como OLM e estão no território do hipocampo, uma estrutura do cérebro que tem um importante papel na memória e também possui uma participação (ainda pouco estudada) no controle de emoções. OLM são neurônios intrínsecos do hipocampo que servem para silenciar outros neurônios. Quando estimulados, as células OLM produzem um ritmo cerebral também presente nos animais quando estes se sentem seguros em um ambiente ameaçador.

Richardson explica que o estudo foi realizado com animais de laboratório. “Nós colocávamos o odor de um predador, o gato, no centro de uma arena e o camundongo, por razões óbvias, não se aproximava. Quando ativávamos as células OLM, o animal se arriscava para ir ao centro e quando notava que era só o cheiro, continuava a exploração normal”, relata. Devidamente estimulado em seus neurônios, o animal superou a sensação de medo e se “arriscou” mais.

O estudo em si não usou agentes farmacológicos de nenhum tipo. O cientista explica que foi usada técnicas da optogenética para manipular o controle desses neurônios. “Porém, vimos que essas células são mais sensíveis a algumas substâncias, como por exemplo, a nicotina. Essa descoberta pode explicar porque as pessoas fumam quando estão ansiosas”, ressalta. O próximo passo, segundo o cientista, é estudar o que esses neurônios têm que outros não têm, e a partir daí desenhar agentes farmacológicos que controlem a sua função.

Ansiosos cotidianos
A ansiedade em seu estado normal é um elemento importante da vida diária, pois protege o ser humano de riscos e danos. Mas quando ela se apresenta em um nível alto e disfuncional, passa a interferir gravemente na rotina das pessoas. Entre os malefícios da ansiedade patológica, um dos mais óbvios é a incapacidade de executar funções cotidianas, segundo Richardson. “Existem pessoas que de tão ansiosas, mal conseguem sair de casa. Eu mesmo tenho de controlar meu medo de falar ao telefone com gente desconhecida. Até pedir pizza me incomoda. Porém consigo ter um certo controle a ponto de ainda conseguir pedir pizza”, diz.

A pesquisa objetiva oferecer um caminho que possa modular de maneira eficiente o comportamento de assumir riscos. O desenvolvimento do estudo – que ainda está em sua fase inicial e ainda tem muito a avançar – pode chegar ao desenvolvimento de substâncias médicas que  controlem as células OLM. Esses novos agentes farmacológicos poderiam ser mais eficientes que os ansiolíticos e antidepressivos já conhecidos, e não teriam os efeitos colaterais habituais.

A relação entre emoções e determinadas áreas do cérebro tem sido um alvo constante da pesquisa científica da última década. As evidências de que diferentes regiões da mesma estrutura cerebral controlam comportamentos distintos, e como eles interagem uns com os outros, são fonte de fascínio para os cientistas. Os estudos atestam que identificar circuitos subjacentes a processos cognitivos ou emocionais é crucial para o entendimento da função cerebral e o desenvolvimento de medicamentos para o tratamento de distúrbios.

A possibilidade de manipular as sensações que impedem as pessoas de superarem seus medos ou tomar iniciativas que melhorem sua vida, atuaria diretamente sobre reflexos do sistema nervoso. É benéfica quando atua como autopreservação e resposta ao estresse, mas ruim quando se torna um transtorno. Elas causam sintomas mentais e físicos que podem atrapalhar o dia a dia de diversas formas.

Entre os sintomas da ansiedade disfuncional estão os problemas de concentração, medo constante, problemas para dormir, irritabilidade, constante tensão ou nervosismo, pessimismo exagerado, aumento de suor, sensação de fraqueza ou cansaço, náusea, tensão muscular, respiração ofegante ou falta de ar, aumento das batidas do coração, etc. A síndrome do pânico é um dos resultados extremos dessa ansiedade patológica.

Há ainda uma relação bem mais estreita do que parece entre ansiedade e depressão. Ambas têm sintomas muito semelhantes, como medo, insônia, insegurança, dificuldade de concentração e irritabilidade. Uma explicação para isso é que os pensamentos negativos que o ansioso têm sobre si mesmo podem se tornar gatilhos para a depressão.

Grande parte das pessoas com transtornos de ansiedade evitam situações que podem desencadear sintomas do gênero e, com isso, passam a viver de forma restrita, quase reclusa. Quando a pessoa passa a evitar sair de casa sozinha, se preocupa com tudo, não tem iniciativa para coisas simples e dificulta a própria vida social, terá chance de recair num quadro de depressão. Numa análise mais científica, ansiedade e depressão estão ligadas à disfunção de neurotransmissores que englobam a serotonina, um hormônio que regula variadas sensações, como humor, sono, e funções intelectuais.


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