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Publicado: 00:00:00 - 02/01/2022 Atualizado: 10:27:12 - 01/01/2022
Dácio Galvão
[Escritor, poeta, e secretário de Cultura de Natal ]

À correria do dia a dia tenho escapatórias. Necessito me livrar do excesso de informações dos algoritmos. Sem alternativas teria avariado neurônios e hormônios. Recorro ao streaming. Alivia pesadelos da vida real. A audição disponível em plataforma digital da Sonata, Op. 8 para Violoncelo Sozinho, composta por Zoltán Kodály, soa bálsamo. Consta no disco do violoncelista potiguar, Aldo Parisot. Outro aroma: “Bach, Bachianas”. Este álbum é repertoriado por compositor preferido em trilhas cinematográficas de Glauber Rocha: o modernista de 1922, Heitor Villa-Lobos. Os filmes Deus e o Diabo na terra do sol (1964), Amazonas, Amazonas (1966) e Terra em Transe (1967) estão sobrecarregados de. Aldo foi assistente de Villa-Lobos, autor do 2º Concerto para Violoncelo. Escreveu e dedicou a Parisot. A estreia do 2º Concerto teve sua participação com a Orquestra Filarmônica de Nova Iorque. Em entrevista a Tim Janof, Editor da Internet Cello Society, afirmou: “Lembro-me de minha última performance do seu Concerto, sob regência do próprio Villa-Lobos. Foi ao ar livre no Lewisohn Stadium, em Nova Iorque. A soprano foi a lendária cantora Bidu Sayão...”

Nascido em 28 de setembro de 1918 em Natal, no Rio Grande do Norte, e curtidor do Rio Potengi, como revelou no programa Memória Viva / TV U, Aldo Parisot estudou violoncelo desde tenra infância. O padrasto Tomazzo Babini foi seu mestre. Produziu arte visual e faleceu há 3 anos, em 29 de dezembro de 2018.

Me justificando para ouvir o cello de Parisot sob o signo do equilíbrio a motivação tem mais nuances. Ele pautou trajetória no Rio de Janeiro e nos Estados Unidos da América. Foi professor durante 60 anos, na Yale School of Music. Para natalenses foi jornalisticamente publicizado quando morreu. Isto perturba. Conterrâneos não conhece sua criatividade. Música erudita não é tradição de escuta de comedores de camarão.  

Breves parênteses: em condição análoga outro ilustríssimo filho das terras de Poti o maestro arranjador do disco-símbolo de Egberto Gismonti, o Academia de Danças, Mário Tavares, ninguém ouve. Foi violoncelista. Dirigiu concertos com Parisot e o pianista recém falecido Nelson Freire. Esteve à frente da Orquestra Sinfônica do Teatro do Rio de Janeiro em torno de 40 anos!

Fábio Presgrave músico violoncelista é entusiasta da genialidade de Parisot. Articula e impulsiona situações institucionais em prol da memória de Aldo. Recentemente obtivemos: Praça AP na Zona Sul da cidade. Edital de Música AP. Mural de 15X5 mts figurando AP, na Av. Salgado Filho. Travessa AP no bairro da Ribeira. Créditos da Prefeitura de Natal. O último item é dividido com o Poder Legislativo.

O som do violoncelo, os solos de Parisot, a obra é o que importa. A escuta. A absorção. O diálogo com compositores locais ressignifica. Pode colorir novas texturas sonoras. Não restrita ao espectro sinfônico ou camerístico.  Pode ser fragmentário. Glauber fundiu Villas-Lobos e Sérgio Ricardo no audiovisual. O Rio Grande do Norte não consagra, nem desconsagra ninguém, mas... O mundo vai consagrando Parisot! 

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