Cordel testemunho do tempo

Publicação: 2018-12-02 00:00:00 | Comentários: 0
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Woden Madruga
woden@tribunadonorte.com.br

Na gaveta dos papéis desarrumados fui encontrar esta semana mais uma carta de Veríssimo de Melo na qual rebate declarações do poeta pernambucano Francisco Bandeira de Melo (1936-2011) que disse que “a verdadeira literatura de cordel está morrendo”.  Na época,  Bandeira de Melo exercia o cargo de Secretário de Turismo, Cultura e Esportes de Pernambuco. A carta  não está datada, mas deve ter sido escrita entre os anos de 1979 a 1982, quando Bandeira de Melo ocupou a  secretaria durante o governo de Marco Maciel. Ou entre 1983 a 1986, agora no governo de Roberto Magalhães, quando ele continuou no cargo. Suas declarações sobre a literatura de cordel foram transcritas no Jornal de WM daqueles anos.

Francisco Bandeira de Melo também foi jornalista, redator do Jornal do Commercio, de Recife, por muitos anos. Era imortal da Academia Pernambucana de Letras e tinha ligações com o Movimento Armorial criado por Ariano Suassuna.  Quem também gostava de sua poesia é o nosso Talis Andrade. Bom, vamos à carta de Veríssimo sempre um apaixonado pela literatura de cordel sobre cujos motes escreveu vários ensaios:

“Woden Madruga, claro que prestei atenção à sua nota do dia 15 de julho corrente. Você informa que o poeta Francisco Bandeira de Mello, Secretário de Turismo, Cultura e Esportes de Pernambuco, declarou que “a verdadeira literatura de cordel está morrendo e a única coisa (sic) que se pode fazer é prolongar sua morte”.

Isso é o que se chama desinformação. Não conheço pessoalmente o poeta Bandeira de Mello, mas posso garantir que ele não é “do ramo”. Ouviu o galo cantar e não sabe onde. Se ele tivesse a mais mínima noção da literatura de cordel nordestina e brasileira diria justamente o contrário. O cordel vive uma época de ouro. Jamais se publicaram tantos folhetos. O consumo dessa literatura cresceu extraordinariamente.

No passado, o cordel se restringia a alguns centros nordestinos, apenas. Era uma curiosidade que saia das feiras e mercados nordestinos para o resto do país. Hoje, o quadro se se modificou. Onde vai o homem nordestino – vai o cordel. É enorme a produção de folhetos em São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília, para não falar das cidades fontes como Campina Grande, Recife, Fortaleza, Natal, etc. Até estados que nunca foram produtores de cordel, como Espírito Santo e Maranhão, já os produzem.

Veja apenas dois exemplos para silenciar para sempre esses pregadores pessimistas do cordel: para o ensaio que publiquei há um mês, TANCREDO NEVES NA LITERATURA DE CORDEL, pesquisei e obtive mais de 100 (cem) folhetos somente sobre a figura de Tancredo, sua vida, eleição à Presidência, martírio e morte. Se isso não for um recorde – o que será? Já o cometa de Halley teve outra quantidade enorme de folhetos. Em que época já se viu isso? No passado, apenas duas figuras tiveram maior número de folhetos do que os de Tancredo, por exemplo: Padre Cícero e Lampião. Isso durante décadas e décadas. De trinta até nossos dias.

Átila de Almeida, grande estudioso do cordel, também já se pronunciou semelhantemente ao poeta pernambucano, durante um simpósio em Campinas, São Paulo. Só não foi linchado pelo numeroso auditório – porque eu o agarrei pelo paletó e levei-o às pressas para uma farmácia...

Vivemos uma época de florescimento do cordel. Você sabia que até japonês de São Paulo está escrevendo cordel? É algo inusitado, estranho. Mas isso também demonstra a vitalidade atual do cordel. Quando japonês se mete num negócio – é porque tem futuro!

Ademais não existe essa história de cordel “verdadeiro” ou não. O cordel é sempre autêntico, naturalmente com altos e baixos, exatamente como a literatura chamada erudita ou oficial.

O cordel é um testamento do nosso tempo.

Sobre a realidade da implantação da reforma agrária no Brasil, nenhuma crítica melhor foi escrita até hoje do que a do poeta popular Minelvino Francisco Silva. Ele formulou o encontro de Getúlio com Tancredo, no céu, e colocou este diálogo: “Me diz a Reforma Agrária / Será que vai funcionar? / Eu fiz aquele projeto / Mas não pude executar. / Disse Tancredo a sorrir: / Deixei esse abacaxi / Prá Zé Sarney descascar…”

Há nada melhor do que isto:

Woden: quando você quiser saber das coisas, procure um especialista. Cascudo dizia, sabidamente, que “conversar com especialista é aprender depressa”. CIAO!

Veríssimo de Melo”

O romance de Meinel
Na mesma gaveta dos papeis desarrumados, pesco uma carta do jornalista e escritor Valério Meinel (1940-1997), Prêmio Esso de Reportagem de 1977.  Dos mais premiados jornalistas brasileiros. Trabalhou na revista Manchete, jornais “Última Hora”, “Correio da Manhã”, “O Globo”, “O Estado de S. Paulo) e “Folha de S. Paulo”.

“Rio, 23 de março de 1980

Meu caro Woden Madruga

Perdoe-me o atraso com que lhe escrevo (mais de um ano!) para lhe agradecer a acolhida que você me deu quando estive aí nessa maravilhosa Natal. Muito obrigado pelo apoio dado na nossa “Tribuna do Norte” ao meu romance “Porque Cláudia Lessin Vai Morrer”.

Envio-lhe, agora, meu segundo romance, “Sequestro”. Segue junto um “press-release” sobre o livro. Mandei o mesmo material para o Osair Vasconcelos e peço-lhe que, se for possível, você me dê mais uma colher de chá, publicando alguma coisa a respeito do livro. Mando junto, também, uma foto minha, caso você queira ilustrar a matéria.

O outro livro é para o Agnelo Alves.

Bom, Madruga. Se você publicar alguma coisa, peço-lhe que me mande dois recortes, para meu álbum e para os arquivos da “Codecri”. Meu endereço é : Rua Buarque de Macedo, 42, apto. 803, Flamengo, Rio de Janeiro – RJ – CEP: 22.221. Telefone: 205-1904.

“Sequestro”, como você verá, se inspira na mecânica do sequestro do menino “Carlinhos”, mas é uma história de ficção, com vida própria, que procura retratar a nossa polícia.

Com abraço do amigo,

Valério Meinel”


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