Coreografia de emoções

Publicação: 2017-09-01 00:00:00 | Comentários: 0
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Ramon Ribeiro
Repórter

Uma coreografia que percorre as dependências de um museu, onde a bailarina interage com a arquitetura do espaço e as obras de arte nas paredes. Estimulado pelo que vê, o público reage e as emoções captadas por um pequeno aparelho tecnológico são projetadas instantaneamente na iluminação da cena. Concebido pelo artista visual Mathieu Duvignaud em parceria com a bailarina Ana Claudia Viana e o Centro de Competências de Software Livre do Instituto Federal do RN (CCSL-IFRN), “Ad Infinitum” é um espetáculo de dança contemporânea que une arte e tecnologia para não apenas dialogar com espaços museográficos como levar para dentro da apresentação as emoções do público no momento que elas surgem.

Bailarina Claudia Vianna interage com o ambiente da Pinacoteca, durante ensaio da mostra “Ad Infinitum”
Bailarina Claudia Vianna interage com o ambiente da Pinacoteca, durante ensaio da mostra “Ad Infinitum”

O local escolhido para a realização da experiência é a Pinacoteca Potiguar. Será em seus dois pavimentos, por entre as salas de exposição e obras de arte que a dança vai transitar. Depois de um mês intenso de ensaios no espaço, o espetáculo será apresentado pela primeira vez nesta sexta-feira (1º), entre as 17h e 18h, somente para um número limitado de convidados.

Na ocasião, o público acompanhará a bailarina em sua coreografia pela Pinacoteca. Há momentos em que ela dialoga com as linhas arquitetônicas do prédio e as obras em exposição, por exemplo, as do artista potiguar Abraham Palatnik. O público estará de fones de ouvido para ter acesso a trilha sonora. As janelas do prédio estarão fechadas. A única iluminação interna virá de quatro lâmpadas que funcionam por meio das emoções de uma única pessoa do público, escolhida aleatoriamente.

Para converter as emoções da pessoa na iluminação do espetáculo, será utilizada uma tecnologia chamada Samanaú Nuances, desenvolvida pelo  CCSL-IFRN. No caso, um aparelho com cerca de 20 centímetros será acoplado como uma espécie de pulseira no antebraço de alguém aleatório do público. O aparelho capta os níveis de estresse e de batimento cardíaco da pessoa, transfere por sinal de rádio para um receptor que espalha via infravermelho para as quatro lâmpadas móveis do espaço. Os batimentos cardíacos projetam a iluminação do espetáculo em três categorias de cores: branco (calma), laranja (intermediário) e vermelho (raiva). A intensidade das cores é gerada a partir dos níveis de estresse obtidos da pessoa.

Mathieu descreve o espetáculo como “obra dançada in situ” - algo como dança inserida em espaços públicos, de modo a se relacionar com a área de modo estético e crítico. “É uma obra estruturada em três eixos: o artista, o público e o espaço. Estamos fazendo uma releitura do museu, ao mesmo tempo que captamos as emoções do público e a jogamos na atuação da artista”, conta Mathieu, francês radicado em Natal que assina a direção geral.

Arte e tecnologia

Cenógrafo de espetáculos como “Jacy” e “A Invenção do Nordeste”, do grupo Carmin, Mathieu buscava uma maneira de utilizar as emoções do público como elemento de composição artística desde 2008. Vários anos se passaram até o artista encontrar Moisés Souto, professor da área de computação e coordenador do CCSL-IFRN. Foi no laboratório do Centro que a ideia ganhou corpo. “Tínhamos desenvolvido essa tecnologia no laboratório, mas ela estava voltada para a meteorologia. Com o desafio proposto por Mathieu, adaptamos o aparelho para ser usado na arte, por meio da iluminação”, diz Moisés. “Estou achando muito interessante fazer essa transição da engenharia com a arte”.

Segundo o professor, o aparelho inda é um protótipo. “Foi feito um contrato com a startup Coiot para que o aparelho seja explorado comercialmente. Já chegamos a utilizá-lo na inauguração do centro de pesquisa do IFRN. Colocamos a pulseira em pessoas que iam discursar no cerimonial e transmitimos suas emoções para cores num monitor.

Mathieu vê muitas potencialidades no aparelho e vislumbra sua utilização inclusive no campo da arte terapia. “Obras de arte provocam sentimentos. Queremos captá-los para utilizá-los na criação de novas obras. Por enquanto estamos captando somente o batimento cardíaco e os níveis de estresse. Depois pensamos em ampliar para outras reações biológicas. Também podemos converter os dados em projeções de sons, por exemplo”, comenta o artista. “A ferramenta será lançada no mercado para artistas experimentarem na produção de obras, cenários, e também na arte terapia, relacionado a exercícios de domínio das emoções”.

Espaços públicos
Responsável pela coreografia do espetáculo, Ana Cláudia Viana diz que a maior dificuldade enquanto bailarina não foi se relacionar com a iluminação, mas com o espaço. “O Ad Infinitum foi criado em 2011, para palco italiano. Tinha uma estrutura cenográfica bem diferente. Não existia variações dos elementos cênicos. Para esse projeto o adaptamos para espaço museográfico”, conta  a bailarina.

“Sintetizamos o espetáculo em um esqueleto possível de ser adaptado aos variados espaços. A essência do espetáculo não muda muito, o que é significativo é a mudança do espaço, que exige maior performance do artista”, complementa Cláudia Viana. “Ad Infinitum” é uma realização do Atelier Mathieu Duvignaud e grupo Nammu de Dança, com apoio da Coiot, CCSL-IFRN e Pinacoteca Potiguar.

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