Corrupção não influencia eleitorado

Publicação: 2015-10-04 00:00:00
Almudena Calatrava
Associated Press

Buenos Aires - O vice-presidente está a um passo de ser indiciado pela polícia, acusado de tentar se apropriar da única máquina de impressão capaz de emitir papel moeda. Propriedades da presidente Cristina  Kirchner estão sob a lupa da justiça por supostas manobras de lavagem de dinheiro. Um dos opositores mais conhecidos renuncia a sua candidatura em meio a denúncias de irregularidades em seus negócios privados. A campanha presidencial na Argentina está marcada por um balé de denúncias e investigações de irregularidades da classe política e os argentinos se perguntam se são sérias ou pura ficção.
Daniel Scioli, candidato que tem o apoio da presidente Cristina Kirchner, lidera pesquisas e pode ganhar eleição no primeiro turno
Porém, uma coisa está clara: não parecem afetar as possibilidades dos candidatos que disputam o pleito deste ano. Daniel Scioli, do peronismo oficialista, segue em vantagem em relação aos seus rivais faltando pouco menos de um mês para as eleições. "A corrupção não faz cair o cabelo de ninguém neste país", disse à Associated Press Patricio Giusto, diretor da consultora Diagnóstico Político. Quem se mostra mais disposto a batalhar contra os corruptos, o peronista dissidente Sergio Massa, está em um distante terceiro lugar nas pesquisas.

A corrupção figura em quarto lugar na lista das principais preocupações do eleitorado, segundo uma pesquisa do Centro de Estudos de Opinião Pública feita em julho. A insegurança é a maior inquietude dos entrevistados, seguida pela economia e a inflação. "A corrupção é inerente da cultura por aqui. É um problema que cai na superficialidade quando dizemos que 'todos são ladrões e há de votar naquele que menos rouba'", disse à AP Sergio Rojas, de 26 anos, que diz que as maiores necessidades da Argentina são melhorar a educação e conter a inflação.

O tango "Cambalache" parece hoje tão atual como quando Santos Discépolo o compôs nos anos 1930, ao sentenciar que "atualmente tanto faz ser traidor, ignorante, sábio ou batedor de carteiras, um generoso ou vigarista".

A Argentina figura no posto 107 de um ranking de 174 posições sobre percepção da corrupção da Transparência Internacional de 2014. Acima na lista, melhor avaliados, estão México, Bolívia e Brasil, onde as práticas irregulares são moeda corrente.

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Matías Pérez, desempregado de 35 anos que dias atrás pedia dinheiro próximo a uma igreja, está preocupado com a falta de trabalho e a subida dos preços. Afirmou que votará em Scioli porque não crê nas acusações de desonestidade que salpicaram nos últimos meses contra funcionários do governo e a presidente, que ungiu o candidato como seu principal sucessor.

O caso mais conhecido envolve o vice-presidente Amado Boudou, que enfrenta uma denúncia de ter tentado se apropriar da única máquina capaz de emitir moeda quando era ministro da Economia. Ele nega a acusação e disse não cogitar uma renúncia.

Ex-funcionários dos ministérios da Economia e do Transporte foram presos acusados de suborno e malversação de fundos. Além disso, a própria Cristina Kirchner e alguns familiares são investigados no marco de uma causa judicial porque um empresário muito próximo a eles havia utilizado um hotel da presidente na Patagônia para realizar supostas manobras de lavagem de dinheiro A investigação até agora não resultou em medidas processuais.

O chefe dos ministros, Aníbal Fernández, por outro lado, é investigado como possível autor intelectual dos assassinatos de três empresários envolvidos com o tráfico de efedrina. A acusação foi feita por um indivíduo condenado pelo crime. Ele  negou e disse ser vítima de uma operação política para prejudicar sua candidatura a governador da província de Buenos Aires. O caso não levou, até o momento, a nenhuma medida legal. Scioli se mantém imune a todas essas denúncias e se aproxima da possibilidade de se sentar na cadeira presidencial.

Economia se sobrepõe à governabilidade
Roberto Bacman, diretor do instituto CEOP, aponta que, em épocas eleitorais, a Argentina "prioriza a economia e a governabilidade" e destaca que Scioli "não sofreu nenhum escândalo e é protegido na imprensa desde a época que era esportista". Além disso, a situação econômica está a anos luz do colapso de 2001, o que "contribui para que os escândalos não impactem o humor do eleitorado", disse à AP Mariel Fornoni, da empresa de pesquisas Management & Fit.

No marco de uma campanha eleitoral sem emoção, os setores populares fazem vista grossa, desejosos de manter os benefícios sociais que melhoraram sua qualidade de vida. "As pessoas dizem que é melhor não mudar, sobretudo aquelas que se mantêm com subsídios", diz Giusto.

A justiça "não ajuda" a discernir se os escândalos são verdade ao proceder com calculada "lentidão", disse à AP o jornalista Hugo Alconad Mon, autor do livro "La piñata", que analisa os supostos feitos da corrupção do kirchnerismo. "Os corruptos na Argentina temem mais o escracho (o rechaço social e público) do que a prisão", acrescenta.

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