‘Corujão’: única opção nas madrugadas

Publicação: 2013-01-06 00:00:00 | Comentários: 4
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Roberto Lucena - repórter

Madrugada da última sexta-feira. O relógio marca 0h20 quando o motorista Genival Lima da Silva, 34 anos, aciona o motor do ônibus 4042 da empresa Conceição. O ponto de partida é o terminal localizado no bairro de Felipe Camarão. O destino é o bairro de Ponta Negra e a viagem acontece entre ruas e avenidas esburacadas e quase desertas. À espera do transporte, nas paradas mal conservadas e perigosas da cidade, estão dezenas de passageiros que acabaram de sair do trabalho, visitaram amigos ou realizaram outras atividades. Ao mesmo tempo, mais quatro ônibus saem da Ribeira com a mesma finalidade. O popularmente conhecido “ônibus corujão” é a única alternativa para quem depende do transporte público durante a madrugada em Natal.
Magnus NascimentoCinco linhas noturnas circulam por Natal a partir da meia-noite. Segundo dados do Seturn, essas unidades transportam 90 passageiros por noiteCinco linhas noturnas circulam por Natal a partir da meia-noite. Segundo dados do Seturn, essas unidades transportam 90 passageiros por noite

Muitos desconhecem a existência do serviço que funciona até as primeiras horas do dia, mas de acordo com o Sindicato das Empresas de Transportes Urbanos de Passageiros do Municípios do Natal (Seturn), desde 2007, as linhas estão em operação e, atualmente, são responsáveis pelo transporte diário de 90 passageiros em média. As empresas Conceição, Guanabara, Via Sul, Cidade do Natal, Reunidas e Santa Maria são as responsáveis pelas cinco linhas. Quatro delas tem como ponto de partida o terminal localizado na Ribeira, uma, a 905, sai de Felipe Camarão.

A reportagem da TRIBUNA DO NORTE acompanhou a primeira viagem da linha 905. Além da saída às 0h20, há mais três horários: 1h20, 3h10 e 4h10. Para cada saída, um motorista diferente. “Vamos lá?”, perguntou Genival antes de rodar a chave na ignição. Logo na saída, a primeira parada. Um grupo de oito pessoas esperava a condução que levaria a maior parte do grupo para o bairro vizinho de Cidade da Esperança e um passageiro até a um shopping localizada na zona Sul.

A linha 905 faz um itinerário que une parte dos percursos feitos pelos  ônibus das linhas 63 e 83. O público é variado. Há trabalhadores deixando o expediente, baladeiros que esticaram a noite e perderam o horário dos ônibus que circulam mais cedo ou aqueles que resolveram ficar mais tempo na casa de amigos ou da noiva. É o caso do jovem Riosberg de Sousa, 26 anos. “Estava na casa da minha noiva e acabei perdendo o horário do último ônibus que passa perto da minha casa. Foi o jeito pegar esse corujão. Vou descer na Bernardo Vieira e andar até minha casa”, afirmou. Berg, como prefere ser chamado, mora no Alecrim e, de acordo com ele, não há linhas que trafeguem pelo bairro durante a madrugada. “Pegar taxi a essa hora é muito caro. Melhor ir caminhando mesmo”.

De fato, segundo os dados divulgados pelo Seturn, nenhum “corujão” trafega pelo Alecrim. Ponta Negra e bairros localizados na zona Norte têm, nesse aspecto, certo privilégio, pois concentram a demanda das empresas de transporte.

Engana-se que faltam profissionais dispostos a trabalhar durante a madrugada. Ao contrário. De acordo com supervisor da empresa Conceição, Jânio Araújo, os motoristas se oferecem para dar expediente nesse turno. A procura é tanta que a empresa adotou o sistema de rodízio com os profissionais. “Cada motorista pode ficar três meses trabalhando no corujão. É uma forma de, além não cansá-los muitos, privilegiar outras pessoas”, colocou. O privilégio, nesse caso, é um valor maior que o habitual no contracheque devido ao adicional noturno.

O sistema de linhas noturnas funciona todos os dias da semana. Em períodos festivos, como o Carnatal, há um aumento na frota. Mas, na maioria das viagens, os usuários já são conhecidos. Os motoristas sabem até em que parada determinado passageiro vai subir. “Às vezes acontece de algum atrasar e acho estranho. Conhece quase todo mundo”, disse Genival. A TRIBUNA conversou com alguns desses personagens. Confira.

Projeto de licitação prevê ampliação

A quantidade de linhas que operam durante a madrugada pode aumentar. A condicionante é o processo de licitação dos transportes públicos em Natal. Sem data para acontecer, o processo pode abrir brechas de um acordo entre Município e empresas do setor para melhorar a oferta do serviço. “Queremos melhorar o sistema, mas tudo depende da licitação. Somente com o processo em curso é que poderemos mudar alguma coisa”, disse Augusto Maranhão, diretor do Seturn.

Maranhão explicou que a efetivação das linhas noturnas foi possível após a assinatura de um Termo de Acordo de Conduta (TAC) entre empresas e Ministério Público. O acordo foi firmado em 2007 e fez parte da negociação para aumento de passagem naquela época. Segundo Maranhão, as empresas querem modificar a forma como as linhas do “corujão” estão operando nesse momento. “Queríamos incorporar outras linhas e mudar a forma como ocorre. Por exemplo, a linha 905 é um pouco da 63 e 83, ou seja, o cidadão fica confuso. Queríamos que fosse o trecho da linha inteira. Mas a secretaria de Transporte Urbano nos proíbe de qualquer mudança”, disse.

A licitação é fundamental para qualquer mudança, porém, não há data para se realizar o processo. É preciso um projeto de lei autorizativo ser votado na Câmara Municipal para que a Prefeitura de Natal possa fazer a licitação. O processo licitatório deve passar por três etapas: autorização, regulamentação e operacionalização. A autorização é definida pelos vereadores que aprovam uma lei encaminhada pela Procuradoria Geral do Município (PGM). Além disso, a licitação deve percorrer as comissões de Justiça, Finanças e Transportes.

Há um estudo na Semob que orienta como será a licitação. O projeto foi feito por duas consultorias que empreenderam dois estudos. O primeiro, o Plano de Mobilidade Urbana, fez um diagnóstico da rede de transportes, constatando que ela tem um desenho defasado para as necessidades atuais da população. Depois, uma outra consultoria modelou a licitação, fixando quantos ônibus e com quais características devem ser ofertados pelas empresas.

O resultado final mostra uma rede com menos veículos, mas que a Secretaria de Mobilidade promete ter mais eficiência. Segundo dados divulgados pela Secretaria, o novo desenho terá um aumento de 12% no número de viagens e de quilômetros rodados. Isso acontece em parte porque se trata de uma rede única, ou seja integração total entre os ônibus convencionais e os opcionais.

Horários

Linhas exclusivamente noturnas em Natal:

Horários e itinerários das linhas noturnas em Natal

Linha A – 9018 (Ribeira – Redinha)

Horário: 0h15 às 4h

Empresa: Reunidas

Itinerário: Ribeira (terminal da avenida Duque de Caxias) – Pajuçara – Parque das Dunas – Brasil Novo – Redinha (avenida Dr. João Medeiros Filho)

Linha B – 9021 (Ribeira – Parque dos Coqueiros)

Horário: 0h20 às 4h

Empresa: Guanabara

Itinerário: Redinha (terminal da avenida Duque de Caxias) – Santarém – Gramoré – Nova Natal – Parque dos Coqueiros (avenida das Fronteiras)

Linha C – 903 (Ribeira – Ponta Negra)

Horário: 23h40 às 4h20

Empresa: Santa Maria

Itinerário: Redinha (terminal da avenida Duque de Caxias) – Via Costeira – Ponta Negra (rua João Rodrigues da Silva)

Linha D – 9045 (Ribeira – Praia do Meio)

Horário: 0h às 4h40

Empresas: Transflor (Via Sul) e Cidade do Natal

Itinerário: Redinha (terminal da avenida Duque de Caxias) – Planalto – Cidade Satélite – Petrópolis – Praia do Meio (avenida Miramangue)

Linha E – 905 (Felipe Camarão – Ponta Negra)

Horário: 0h20 às 4h50

Empresa: Conceição

Itinerário: Felipe Camarão (terminal na rua Maristela Alves) – Ponta Negra via avenida Bernardo Vieira

Personagens

Genival Lima da Silva, 34 anos
Profissão: motorista

Genival trabalha na empresa Conceição há 13 anos e há quatro meses é o responsável pela primeira viagem da linha 905. Ele começa a trabalhar por volta das 16h em outra linha da empresa. “Acho tranquilo trabalhar à noite. Não vejo problemas com o horário. Os passageiros são tranquilos, não tem aborrecimento”, contou. O motorista larga o trabalho tarde e volta para somente depois das 2h. “Já me acostumei”, comentou. Como já passou mais de três trabalhando na madrugada, sabe que em breve deixará o posto. “Mas quando possível, retorno”, avisa.

Josivan da Silva, 28 anos
Profissão: servente de pedreiro

“Ainda bem que existe esse ônibus”, disse Josivan quando questionado se ele sempre usava o serviço. O jovem estava acompanhado de esposa e duas filhas quando subiu na condução. “Estávamos na casa de um amigo aqui em Felipe Camarão. A gente sabe que tem ônibus esse horário, por isso ficamos até mais tarde”, explicou. Josivan disse ainda que espera que a Prefeitura amplie a oferta de linhas. “Às vezes a gente precisa ir para outro lugar e não tem ônibus. Pagar taxi fica muito caro e não tenho condições”.

Sílvio de Lima, 39 anos
Profissão: digitador

Sílvio vai a Felipe Camarão pelo menos duas vezes por semana. Sempre sai tarde do bairro e usa a linha 905 para se deslocar com destino à sua casa. Mas há um problema. Sílvio mora em Cidade Satélite e o ônibus não vai até lá. “Desço no shopping e pego um taxi até Satélite. Fica caro, mas é o jeito. Não tenho outra opção”, colocou. A viagem de taxi custa, em média, R$ 25,00. “Seria uma economia muito grande se tivesse ônibus para lá”, reclama. No mesmo ônibus, subiu amigos de Sílvio. “A gente acaba fazendo amizade com o pessoal”, explicou.  A conversa durante o trajeto até o shopping, na zona Sul de Natal, é em tom de brincadeira e desconfiança devido à presença da reportagem. “Mas essa reportagem não é para acabar com o serviço, né?”, questiona. Naquela noite, 47 passageiros usaram o serviço. Eles temem que, com a frequência considerada baixa por alguns, queiram acabar com o serviço. “Se acabar a gente não tem como sair de casa”, taxou.

Anize Medeiros, 35 anos
Profissão: auxiliar de cozinha

Eram 0h05 quando Anize chegou à parada de ônibus localizada no cruzamento das avenidas Salgado Filho com a Amintas Barros. Lá, ficou por quase uma hora esperando o ônibus. “Cheguei atrasada e acabei perdendo o último ônibus da linha convencional. Fiquei esperando o corujão”, explicou. Anize contou ainda que tem medo de ficar até mais tarde na parada. “Mas como não temos outro meio de condução, é o jeito esperar. Tenho medo porque não vejo policiamento nas ruas e as paradas são escuras, esquisitas”. Até chegar em casa, Anize vai esperar pelo menos mais uma hora. Tempo que ela leva cochilando dentro do ônibus.

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Comentários

  • iriamarim

    Já precisei do corujão algumas vezes, O problema é esperar o ônibus na parada nessas ruas desertas e perigosas de Natal, Estou decepcionado com a cidade que eu tanto gostava, agora está violenta igual a grandes metrópoles.

  • everaldo-oliveira11

    SE TÍVESSEMOS POLÍTICOS SÉRIOS E HONESTOS, NÃO SERIA ASSIM, TEMOS UM PÉSSIMO SISTEMA DE TRANSPORTE PÚBLICO, PASSAGEM CARA E NÃO EXISTEM TERMINAIS DE PASAGEIROS AQUI....ATÉ QDO ESSE SEMPRESÁRIOS FICARÃO SÓ NO LUCRO ? AQUI NADA FUNCIONA, M. PÚBLICO, DIREITOS DESUMANOS..ALIÁS, NO BRASIL, SÓ QUEM TEM DIREITO, SÃO AQUELES QUE TIRAM NOSSOS DIREITO DE IR E VIR. BANDO DE CORRUPTOS E UMA JUSTIÇA QUE SÓ VALE PRO PRETO, POBRE E P.T.

  • jubiansiqueira

    Gostaria de dizer que não são dezenas de pessoas como foi mencionado no inicio da reportagem, mas sim, centenas de profissionais que necessita do transporte na madrugada, é só ir em Ponta Negra depois da meia-noite, começando do inicio da rota do sol e olhem para parada de onibus, tem que aumenta a frota, para beneficiar a classe trabalhadora na área hoteleira e restaurante principalmente em Ponta Negra.

  • samuelson3

    É uma vergonha esse serviço, já foi muito melhor. O SETURN se porta como a salvadora do sofrido povo natalense ao implantar este serviço em 2007, serviço esse que não foi disponibilizado de forma constante desse período pra cá, com altos e baixos. Acho engraçado isso porque sei que o serviço já foi muito melhor. Em 2004, quando cheguei a cidade, lembro-me que para zona norte tinhamos funcionando de forma muito mais eficiente as linhas 26, 07 e 73 ligando zona norte a ponta negra, mais uma ou duas linhas que não me recordo ligando a zona norte ao centro, e de outras regiões tinhamos linhas ligando o centro, ponta negra, satélite, felipe camarão, dentre outros. Engraçado foi a retirada desse serviço, que funcionava de forma eficiente e tinha demanda, para que depois de um tempo a mingua fosse colocado esse serviço corujão pela nossa salvadora SETURN. A grande maioria dos onibus rodavam com mais da metade da lotação de cadeiras na época. Demanda tinha, e se não tivesse sido descontinuado o serviço, hoje seria muito maior. Infelizmente, a realidade dessa cidade é que muitas vezes quando se muda alguma coisa, é para pior.