Covid-19 inaugura o século XXI

Publicação: 2020-05-31 00:00:00
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Thiago Torres de Paula
[Sócio do IHGRN]

É conhecimento público que o novo micro-organismo que assola o planeta foi nomeado pela comunidade cientifica por COVID-19. O termo remete ao seu formato de coroa, o vírus tornou-se conhecido pela ciência ao fim do ano de 2019, o que explica o numeral em seu nome. O fato é que, atualmente, este ser invisível reina absoluto nas páginas dos principais periódicos de notícias e de conhecimento médico do mundo.

Desde que surgiu no Oriente distante, a COVID-19 assemelha-se a um déspota expansionista: não respeitou fronteiras, atingiu democracias, ditaduras e mesmo monarquias. Ademais, colocou em crise economias sólidas, sistemas econômicos historicamente testados, cobrou habilidades dos gestores públicos mundiais, mas sobretudo nos cobra novas formas de se comportar, pensar e quem sabe nos trará uma nova ordem mundial.

Essa hipótese advém de uma observação crítica a respeito do processo histórico concreto, a qual demonstra que as mudanças dos séculos não obedecem aos calendários: o século XIX foi inaugurado ainda no anterior, com a Revolução Francesa em 1789, quando nada estarrecia mais aqueles tempos que a possibilidade de direitos para todos os homens e a liberdade de territórios coloniais. Em decorrência dos acontecimentos, o século XIX profundamente marcado pela ciência, pelo movimento sindical, pela reivindicação feminina do voto, pelo fim da escravidão legal, apagaria suas luzes apenas nos idos de 1914, ocasião em que inicia-se a Primeira Grande Guerra. Considerada hecatombe e teatro do horror principalmente para população da Europa o conflito estendeu-se até 1918 descortinando definitivamente o século XX. O fim da guerra vareou impérios do mapa, aviões transformaram-se na nova possibilidade de transporte e de arma militar, mulheres passaram a votar e serem votadas, pandemias (gripe espanhola), recessões (crise de 1929), e até outro conflito em escala global com uso de armas nucleares traçaram o século XX, dando origem a outros conflitos regionais.

Ao cabo, em 1989 com a queda do Muro de Berlim, seguida da desorganização do mundo soviético, do redesenho da economia mundial em um capitalismo multipolar global, conectado por uma rede internacional de computadores, parece anunciar um novo tempo. Em 2001, um brutal atendado contra os EUA matou mais de 3 mil inocentes, somado ao ataque a Base da ONU em Bagdá (2003), fatos que representam a continuidade do famigerado século XX.

Algo mundialmente relevante estaria faltando, então, para inaugurar o século XXI. A COVID-19 parece tomar para si esse protagonismo abrindo as portas de uma nova temporalidade e encerando de maneira mórbida o século XX. Na gênese do recente tempo, milhares de pessoas mortas e infectadas em países desenvolvidos e subdesenvolvidos, famílias dilaceradas, pessoas desempregadas, governos disputando palmo a palmo a compra de respiradores e EPIs, cientistas que correm contra o tempo em busca de remédios para combater a pandemia e vacinas para preveni-la.

Em suma, a COVID-19 impões ao mundo uma nova vida cotidiana, distanciamento social, anonimato pelo uso de máscaras nas ruas, trabalho remoto constante, a internet como grande via de acesso e processo. A necessidade de repensar urgentemente operações coletivas essenciais, como ir à escola, comprar em feiras livres, reorganizar as linhas de produção e socorrer os depauperados. Em tempo de pestes altera-se o comportamento coletivo, é possível acreditar que haverá mais consciência da fragilidade humana e fé na ciência.         


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