Covid põe metade do Rio Grande do Norte em risco

Publicação: 2021-03-02 00:00:00
Cláudio Oliveira
Repórter

O Rio Grande do Norte terminou o mês de fevereiro com metade dos seus 167 municípios em zona de risco ou de perigo para a covid-19, com maior possibilidade de contaminação pela doença. São 84 cidades que somam 987.662 habitantes, o que corresponde a 28,16% da população potiguar. O aumento no número de casos e o agravamento desses levou 51 pacientes a morrerem antes mesmo de conseguirem ser regulados para um leito destinado ao tratamento da covid no Rio Grande do Norte, somente entre os dias 12 e 28 de fevereiro. 

Créditos: Alex RégisPesquisadores chamam atenção para a adoção de medidas mais severas em relação à circulação de pessoas e uso do transportePesquisadores chamam atenção para a adoção de medidas mais severas em relação à circulação de pessoas e uso do transporte

Desse total, 39 óbitos ocorreram somente na Grande Natal. A constatação é do Laboratório de Inovação Tecnológica em Saúde (LAIS/UFRN), divulgada nessa segunda-feira (1º).

No relatório, está exposto o que a população tem vivenciado nas últimas semanas com a superlotação dos leitos covid nas redes hospitalar pública e privada: a iminência de um colapso. Dos 21 hospitais com leitos críticos voltados ao tratamento específico da doença, 15 chegaram a noite dessa segunda com 100% de ocupação. Outros cinco estão acima de 90%. A taxa geral de leitos críticos ocupados por pacientes com quadros graves da covid no RN alcançou 95,1% nessa segunda e todas regiões também também registraram ocupação acima de 90%: Região Metropolitana (92,8%), Oeste (98,8), Seridó (97,1%). 

O Boletim Epidemiológico da Sesap divulgado nessa segunda-feira, aponta a contaminação de  167.429 pessoas pela doença e 3.608 mortes provocadas pela covid-19. Os técnicos do comitê científico avaliaram que, apesar do Estado ter conseguido manter a taxa de transmissibilidade (Rt) abaixo de 1 por aproximadamente duas semanas, os valores rapidamente cresceram logo após o término do período de carnaval, atingindo uma taxa de 1.30, semelhante ao valor pico pós-eleição.

Isso significa que cada 100 pessoas infectadas estavam infectando outras 130. A última vez que o RN atingiu tais valores foi no auge da pandemia, em 25 de maio de 2020. O ideal é que a Rt se aproxime de 0. Nesse contexto, 50,29% dos municípios ficaram em zona de risco (Rt acima de 1.03 e abaixo de 2) e/ou de perigo (Rt acima de 2) e 74 estão na “zona segura” (taxa Rt menor que 1), além de 9 em“zona neutra” (entre 1 e 1.03)

“O que estamos observando nesse momento é que houve um aumento da taxa de transmissibilidade, mais ou menos no período de pré e pós-carnaval e, provavelmente, isso aumentou a taxa de ocupação de leitos”, explicou o cientista Ricardo Valentim, coordenador do LAIS/UFRN que integra o Comitê Científico da Sesap/RN

Dentro do atual cenário, 26 dos 37 municípios limítrofes à Paraíba, apresentam Rt dentro da zona de risco e/ou de perigo. Destacam-se também os índices elevados de transmissão em alguns municípios que são cortados pelas BR-304 e BR-406. Esses dados devem orientar as autoridades locais a tomarem medidas para reduzir a Rt em suas cidades, para evitar que esse índice se mantenha por mais de 15 dias, o que pode ocasionar o descontrole da epidemia nesses locais.

“Para que a taxa reduza é preciso seguir os decretos. A população precisa reforçar as medidas sanitárias e de distanciamento. A vacina é o único meio de prevenção. Não existe metodologia profilática, ou seja, nenhum medicamento eficaz com evidência científica capaz proteger contra o vírus”, enfatizou Ricardo Valentim.

O relatório aponta quatro medidas básicas que podem ser tomadas neste momento e já conhecidas pela população: não promover aglomerações, uso de máscaras, higienização das mãos e reforçar a fiscalização, principalmente nos municípios que apresentam rodovias interestaduais.

Transporte público amplia risco de contaminação
Uma preocupação do LAIS/UFRN está no transporte público de passageiros, que tem provocado aglomeração devido à demanda que aumentou com o retorno das atividades econômicas. No transporte interestadual, o decreto do Governo do Estado publicado no último sábado (27) proíbe que passageiros viagem em pé, evitando assim a superlotação que tem sido vista na Região Metropolitana de Natal, por exemplo.

“É preocupante as empresas de ônibus estarem com apenas 70% da frota quando todos os outros setores estão funcionando, porque o transporte coletivo de massa é um grande vetor de disseminação de doenças”, pontuou o cientista Ricardo Valentim. Para os especialistas, isso contribui no agravamento do cenário ao longo dos meses e afeta diretamente a credibilidade/efetividade das ações de enfrentamento à epidemia.

“Rodando com menos do que a capacidade, promove aglomeração e põe em risco a população mais vulnerável que não tem outra opção de transporte. Era para ter mais ônibus do que o normal e não o contrário. Nesse momento, não deveria sequer ter passageiro em pé”, frisou Valentim. Além da necessidade de um maior controle sobre a quantidade de passageiros que acessam os veículos, ele destaca a importância da exigência do uso de máscara cobrindo corretamente a boca e o nariz.

O LAIS/UFRN recomendou aumentar a frota de ônibus para 100%, particularmente a de Natal. Porém, caso a frota de ônibus não retorne em sua totalidade, que se reduza as atividades comerciais por até 21 dias, mantendo apenas os serviços essenciais funcionando, porque há um risco grave de colapso da rede assistencial do Estado que já está sobrecarregada. 

A outra orientação é para que as autoridades públicas não recomendem à população nenhum tipo de medicamento que não tenha aprovação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANvisa) para uso específico contra a covid-19, cuja bula do medicamento não cita expressamente sua aplicação para a doença em referência.

“Esse tipo de mensagem é muito negativa porque causa a falsa sensação de segurança. Áreas onde muito se usou esses medicamentos estão tendo alta taxa de internação. A população pode estar tomando determinados medicamentos e negligenciando as medidas sanitárias o que, nesse momento é muito perigoso”, pontuou Ricardo Valentim. 
Os cientistas destacaram que somente o médico, ao atender o paciente, será capaz fazer a correta prescrição.

Ufersa aumenta suspensão de atividades presenciais
Depois do Campus Angicos, a Universidade Federal Rural do semiárido (Ufersa) suspende atividades presenciais por 15 dias nos Campi de Caraúbas e Pau dos Ferros e adota novas medidas restritivas para o Campus Sede, em Mossoró. A Portaria começa a vigorar a partir desta terça-feira (02). A decisão é decorrente do crescente número de casos da Covid-19. Durante esse período, os servidores deverão desenvolver as atividades de forma remota, cabendo às chefias imediatas a supervisão do trabalho remoto, conforme orientações da Pró-Reitoria de Gestão de Pessoas, através de Planos de Trabalho e relatórios de atividades semanais. Confira a Portarias nº 100 de 1 de março de 2021

De acordo com a Portaria ficam mantidas, excepcionalmente, as seguintes atividades presenciais nos referidos Campi: Coordenação de Planejamento e Administração e, os serviços de limpeza, manutenção, segurança e portaria, executados por empregados de empresas terceirizadas, sob regime de escalas.
Também ficam suspensas por 15 dias as atividades acadêmicas presenciais referentes às aulas teóricas de todos os cursos, permitindo-se aulas práticas apenas para os cursos de Medicina e Medicina Veterinária; o retorno de estudantes para as Vilas Acadêmicas, a reabertura do piso superior da Biblioteca Central do Campus Mossoró.

A exceção é para o Hospital Veterinário, o Ambulatório de Medicina, da devolução de livros na Biblioteca Central e de Perícias Médicas realizadas pela Divisão de Atenção à Saúde do Servidor – DASS.

A Portaria rege ainda sobre os serviços que deverão continuar funcionando no Campus Sede, em Mossoró, como as atividades de pesquisa e extensão, de acordo com o Protocolo de Biossegurança e orientações das respectivas Pró-Reitorias, evitando-se sempre as aglomerações; a Agência da Caixa Econômica Federal, instalada no prédio da Sede da Reitoria; as atividades presenciais dos servidores técnico-administrativos do Campus Mossoró e, a Fazenda Experimental Rafael Fernandes.

A Portaria é fundamentada no Plano de Biossegurança da Ufersa, na Instrução Normativa 109, do Governo Federal; os Decretos: Estadual e do Municipal (Mossoró), além das conclusões do Relatório Parcial de Atividades da Comissão Especial Covid-19/Ufersa e, as diretrizes estabelecidas em reunião realizada entre membros da Procuradoria Federal, da Comissão Especial Covid-19/UFERSA e Gabinete da Reitoria.

Sesap confirma mais 23 mortes
O Rio Grande do Norte confirmou mais 23 óbitos por covid-19 nessa segunda-feira (1º). Nove dessas mortes ocorreram nas últimas 24 horas, segundo dados repassados pela Secretaria de Estado da Saúde Pública (Sesap). Ao todo, o Estado já registrou 3.608 mortes pela doença desde o início da pandemia.
Além dos registros confirmados, outras 726 mortes seguem em investigação pela secretaria, com suspeitas de terem sido causadas em decorrência da infecção pelo novo coronavírus. Outros 730 óbitos já foram descartados para a doença.

O total de infecções pelo vírus no Rio Grande do Norte alcançou o número de 167.429 pessoas. Foram 534 novas notificações nesta segunda-feira. O Estado tem, ainda, 86.760 casos suspeitos de infecção pelo coronavírus.