'Coworking' criativo vira casa do teatro natalense

Publicação: 2019-04-17 00:00:00 | Comentários: 0
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Ramon Ribeiro
Repórter

No TECESOL impera o teatro. Espaço coletivo e autogestionado que funciona na antiga sede da Cooperativa Educacional do Rio Grande do Norte (COEDUC), em Neópolis, o Território de Educação, Cultura e Economia Solidária – o Tecesol – pode muito bem ser apontado atualmente como a casa do teatro natalense. Ali estão a sede de três grupos teatrais da cidade: Estação, Estandarte e Facetas, Mutretas e Outras Histórias – grupo idealizador do espaço junto com arte-educadores do Coeduc. Além deles, duas produtoras com experiência em projetos voltados para a arte cênica operam no lugar: Bobox (do ator e produtor Arlindo Bezerra) e Casa de Zoé (da atriz e produtora Titina Medeiros). Tem mais, o premiado cenógrafo e figurinista João Marcelino também mantém atelier no lugar. Todos eles irão receber um novo inquilino: o Clowns de Shakespeare. O grupo está de chegada no espaço depois que, por motivos econômicos, precisou deixar para trás seu Barracão em Nova Descoberta.

Espetáculo Meu Seridó tem o Tecesol como escritório, sala de ensaios e primeiro palco de estreia, em dezembro de 2017
Espetáculo 'Meu Seridó' tem o Tecesol como escritório, sala de ensaios e primeiro palco de estreia, em dezembro de 2017

A junção de tantos grupos e artistas num único local faz do Tecesol um ambiente amplamente criativo – e em se tratando especificamente de teatro, raro no Brasil. No dia a dia ensaia-se, troca-se experiências, colabora-se nas montagens, empresta-se ferramentas e equipamentos, atua-se nas peças uns dos outros. Desse ambiente saíram, por exemplo, espetáculos que rodaram o país, como “Guerras, Formigas e Palhaços” e “Estação dos Contos” (infantil), do grupo Estação, pelo programa Palco Giratório; “O Bizarro Sonho de Steven”, do Facetas, que fez turnê pelo Nordeste; e, mais recentemente, “Meu Seridó”, da Casa de Zoé, atualmente em turnê nacional pelo Palco Giratório.

“Temos atores, diretores, dramaturgos, produtores, cenógrafos, iluminadores, figurinistas. Temos toda a cadeia produtiva do teatro aqui dentro”, observa o ator Rogério Ferraz, do Estação. “Cada um tem sua ideologia artística. Dividimos o mesmo espaço, conversamos entre si, ajudamos um na montagem do outro, mas cada um tem seu modo de trabalho e estilo. E isso é respeitado”.

Ao lado de Ferraz está o ator e arquiteto Davidson Lacerda, também do grupo Estação. Enquanto a conversa acontece, ele trabalha na feitura de um elemento cenográfico para o espetáculo “Tempo Temporão”, de um grupo de Fortaleza. Os dois contam que as companhias de fora do Estado, quando conhecem a história do Tecesol, ficam curiosos. “Alguns não entendem como a gente consegue ficar juntos sem se desentender”, diz Davidson.

Rogério Ferraz, ator premiado pelo APCA, e o também ator Davidson Lacerda, mostram a sala do Estação, ambiente utilizado para espetáculos no TCESOL. O palco tem 46 lugares e recebeu concessão para uso de alguns equipamentos do Sandoval Wanderley
Rogério Ferraz, ator premiado pelo APCA, e o também ator Davidson Lacerda, mostram a sala do Estação, ambiente utilizado para espetáculos no TCESOL. O palco tem 46 lugares e recebeu concessão para uso de alguns equipamentos do Sandoval Wanderley

Ferraz aproveita para fazer um parêntese. “Assim, esse ambiente da gente não é um mundo só de maravilhas. Temos nossas desavenças”, observa. Também participando da entrevista, Arlindo Bezerra, da Bobox, dá sua opinião: “Estamos descobrindo a melhor forma de convivência dia após dia”. Ferraz complementa: “O que nos une é que nos identificamos. Por exemplo, se a gente não tivesse identificação com algum dos outros grupos, iríamos atrás de outro espaço. E assim, no fim estamos todos batalhando na mesma coisa”.

Cada grupo tem uma sala para ensaio. O tamanho padrão é de 11x5m. Sendo que os grupos maiores e mais antigos contam com salas com o dobro do tamanho. Cada grupo equipa seu próprio espaço. No caso do Estação, seu local de trabalho conta com piso de madeira, refletores e arquibancada para até 46 pessoas, além de fogão e geladeira. De uso coletivo, tem o atelier e o depósito, onde todos guardam seus materiais cenográficos. “Tudo é muito intuitivo. Arquitetonicamente tomamos cuidado para o espaço não virar um cortiço”, afirma Arlindo.

Guardadas as devidas proporções, uma experiência que se aproxima em parte do Tecesol é a Fundição Progresso, no Rio de Janeiro. O lugar, uma antiga fábrica de fogões transformada em espaço cultural, funciona como sede para diversas companhias de teatro (dentre as quais o Armazém) e produtoras de vídeo, e ainda conta com uma casa de espetáculos com capacidade para aproximadamente cinco mil espectadores. A gestão acontece por meio de uma Ong. O Tecesol, por outro lado, é algo bem menor, o prédio, por exemplo, não tem pretensões arquitetônicas; e a gestão não é centralizada, e sim dividida entre todos, onde as decisões mais complexas, impossíveis de serem resolvidas numa conversa rápida, são definidas em assembleia.

Grupo Estação de Teatro, em foto com o dramaturgo César Ferrario, no premiado Guerras Formigas e Palhaços
Grupo Estação de Teatro, em foto com o dramaturgo César Ferrario, no premiado ‘Guerras, Formigas e Palhaços’

Lidando com crianças
Além de todas as iniciativas teatrais presentes no espaço, no Tecesol também estão as sedes da Nação Zamberacatu (grupo focado na valorização da dança e música ancestral negra potiguar) e da Federação Norte-Riograndense de Futebol de Botão. Todos convivem harmoniosamente com as crianças do CMEI Libânia Medeiros, que há seis anos funciona no Tecesol, desde que o prédio onde estavam foi embargado pelo Corpo de Bombeiros.

“As vezes estamos ensaiando e uma criança aparece, que ficar vendo a gente trabalhar. Mas as professoras aparecem para levar de volta para a sala de aula. Convivemos com a rotina de uma escola. Mas tentamos não ver como um problema. Pelo contrário. Colocamos os ingressos mais baratos para as crianças da escola, os pais e os professores”, explica Arlindo.

O cenógrafo João Marcelino e o ator Marcílio Amorim em ensaio geral de Meu Seridó, no espaço da Casa de Zoé
O cenógrafo João Marcelino e o ator Marcílio Amorim em ensaio geral de ‘Meu Seridó’, no espaço da Casa de Zoé

Desbravar a comunidade
O Tecesol está fora do corredor cultural da cidade. Em Neópolis, enquanto sobram bares, faltam salas de cinema, espaços de exposição, biblioteca, livraria, casas de shows autorais. O teatro é que é a grande novidade. Mas a integração com a comunidade ainda tem muito a melhorar. “Escutamos muito a história da Ribeira como bairro cultural da cidade. Mas o lugar ficou complicado. Era preciso procurar outros ambientes. Sabemos que no bairro onde estamos agora não tem visibilidade cultural, mas estamos tentando mudar isso”, diz Ferraz. “A comunidade já sabe que aqui tem teatro. A Escola faz questão de frisar para os pais que aqui tem grupos de teatro. É difícil trazê-los pra dentro. Mas acredito que devagar a gente vai se aproximando”, opina Davidson.












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