Crônica dos ventos - II

Publicação: 2021-01-27 00:00:00
Vicente Serejo
serejo@terra.com.br

Como é verão, Senhor Redator, e falei dos ventos, só agora reparo que fui grifando suas páginas, já amareladas pelo tempo, todas as vezes que de alguma maneira sopra ventania nos poemas de Joaquim Cardozo. Antes de chegar ao belo poema ‘Congresso dos Ventos’, já eles andavam, vadios e banzeiros.

 Desde os anos mais antigos, lá dos mil novecentos e vinte e cinco, quando as alvarengas iam e vinham e outras dormiam, pachorrentas, nas águas mansas do rio. 

Mas, assim, explicitamente, o primeiro vento na poesia de Cardozo vem logo depois das ‘Velhas Ruas’, tão liricamente “cúmplices da treva e dos ladrões”. Ele não diz, mas é que há, sempre, ventos anônimos nos becos estreitados pelos velhos pardieiros, guardando, como avisa o poeta, os passos que passaram. Ninguém como ele para compreender e perdoar o crime dos pobres malfeitores, se é verdade que essas ruas guardam o belo mistério das coisas imperfeitas.

No poema ‘Inverno’, datado de 1925 - os poemas nunca envelhecem - os seus ventos já encharcam as velas dos barcos, ventos pobres e sem trabalho. Logo depois, como se caminhasse um pouco sem destino, sente um vento do mar envolvendo a sua casa. Visionário, recordando Tramataia, o poeta confessa a antevisão das luas fictícias “que fazem surgir no espaço a curva das marés”. Ventos que trazem a saudade de Josefa, aquela namorada pequena, de um amigo.    

De repente, o poeta se encanta com dezembro, o verão, as chuvas e ventos que passam. E olha seu Recife morto: “As horas caem dos relógios do Diário / da Faculdade de Direito e do Convento / de São Francisco”. O poeta parece triste a navegar as horas e ouve “em falsete, a voz fina do vento”. E avisa: “As janelas das velhas casas negras, / bocas abertas, desdentadas, dizem versos / para a mudez imbecil dos espaços vazios”. Sim, “vagam fantasmas pelas ruas”.  

Na “Elegia para Benedito Monteiro” o poeta sente “vestígios de indomáveis ventanias” e assim vai andando pelas estradas além dos arrabaldes ainda cercados das papoulas. E repete, numa ladainha de saudades: “Ainda há chuvas generosas / ainda há sinos mensageiros / ainda há chuvas de janeiro / sobre as cores estivais”. E pergunta, no poema “Chuva de Caju”: “Como te chamas pequena chuva inconstante e breve?”. E depois: “Entra, invade a casa, molha o chão”. 

Não posso ir mais, Senhor Redator. Não posso. O espaço da crônica é limitado e, depois, o verão tem as horas rápidas e cheias de sol. Diz o poeta que há uivos e latidos de ventos soltos, desesperados, que trazem a reza dos náufragos, que o mangue dorme sob a luz das estrelas frias. Em pleno poema de Isidore Ducasse, confessa ao ouvido do leitor: “Depois de um inverno rude de remorsos, / eu enfim recebi um beijo de primavera”. Ora, ora, quem sabe, amanhã tem mais. 

Créditos: Divulgação

ESTEIRA - Se depender do seu filho, o deputado Walter Alves, o ex-senador Garibaldi Filho é candidato a deputado estadual. Na doce dobradinha que arruma tudo na mesa da sala de jantar.

BASES - O ex-governador e ex-senador tem tradição política e dispõe do controle absoluto do PMDB que o filho preside. A tarefa é reerguer sua sigla, um partido hoje familiar e combalido.

FRACASSO - Tem razão o ex-senador Jose Agripino, ao contrário do que reconhece o senador Jean-Paul Prates: o Estado é da responsabilidade da classe política, com faz a bancada do Ceará.

MAS - Há um fato que Agripino não reconhece: a grande ruína produzida, principalmente, pela omissão da bancada federal, é uma herança de décadas de governos e parlamentares populistas. 

PUNIDOS - Daí o julgamento implacável das urnas majoritárias em 2018, quando os eleitores derrotaram um governador, dois senadores e vários deputados federais, mandando-os pra casa.
 
EFEITO - Ungido pelo desejo coletivo de mudança, o que, em política, é sempre muito forte, afastou as famílias que há meio século governavam o Estado. Renovar é conquistar eficiência.     

JUSTIÇA - Alguma alma boa fugiu da burocracia e foi fechar o buraco na Brigadeiro Gomes Ribeiro, aquele da Caern. Deixou tudo tão perfeito que mais parece uma coisa do outro mundo. 

PLANO - A Assembleia Legislativa não cancelou a ideia de um plano editorial para reeditar títulos fundamentais da bibliografia do Rio Grande do Norte. Desafio é como enfrentar os egos.

CIRCO - O poeta Diógenes da Cunha Lima, numa manhã dessas, de verão, resolveu visitar o circo armado em Pirangi. Circo de quatro mastros, lona para uma plateia de mil pagantes, sem bichos amestrados, e com trapezistas, equilibristas, mágicos, palhaços e bailarinas românticas. 

CRISE - A peste, de tão cruel, não perdoa nem a quem espalha alegria. De mil, capacidade da sua plateia, queria ter pelo menos um público de trezentos espectadores, mas nem isso. Agora, vai se mudar para o centro de Parnamirim, ganhe para sua sobrevivência e sem desempregar. 

LUTA - Na visita, o poeta conheceu Madalena que tem a mesma história de muitas bailarinas. Jovem, fugiu com um artista do circo que chegou na sua cidade. Até hoje, quando se apresenta nas noites de função, sonha com aplausos, a pequena glória que faz bem ao coração do artista.








Os artigos publicados com assinatura não traduzem, necessariamente, a opinião da TRIBUNA DO NORTE, sendo de responsabilidade total do autor.