Crônicas da Cidade (11)

Publicação: 2018-01-13 00:00:00 | Comentários: 0
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Teatros e balé

Aurino Araújo

Sessenta e oito anos, foi o tempo transcorrido entre a primeira vez em que entrei num teatro de verdade e a primeira vez em que assisti a um espetáculo de balé ao vivo. Pois foi em 1949 que vi no então Teatro Carlos Gomes - atualmente "Alberto Maranhão", em Natal  (foto acima) - um show matinal com a dupla formada pelos cantores, compositores e humoristas José Luís Rodrigues Calazans e Severino Rangel de Carvalho, mais conhecidos como Jararaca e Ratinho.

Foi no final do ano de 2017 fui ver no "Teatro Riachuelo", aqui em Natal, os movimentos coreográficos de bailarinos russos executando peças de balé de autores conhecidos e - para mim - desconhecidos. Oxana

Bundarev; Mikhail Venshchikov; Boris Zhurilov; Tatyana Tiliguzova; Natalia Irdovskaya; Pukhov Mikhail e Maksim Marinin, encantaram a plateia que lotava o teatro com movimentos leves, parecendo, às vezes, que flutuavam no ar. É preciso muito talento, treino e disciplina para um ser humano chagar àquele ponto.

No decorrer desse longo período, poucas vezes fui a um teatro especificamente para assistir a uma peça, mas frequentei o Alberto Maranhão diversas outras, para solenidades como formaturas e que tais.Todavia, lembro da peça "Motel Paradiso", dos anos oitenta, na qual seu autor e principal intérprete Juca de Oliveira, numa das falas, satiriza a TV dizendo que ali só tem "bicha e sapatão"… Doutra feita, no Rio de Janeiro, assisti "Rasga Coração", de Oduvaldo Vianna Filho, tida como símbolo da luta contra a censura nos anos setenta, na qual o ator Raul Cortez, na pele do preso Maguary Pistolão, aparece nu em pelo, suspenso numas correntes. E por esse tempo, quando hospedado num hotel em São Paulo que, como em outros daquela época, tinha em suas dependências o chamado "Teatro de Bolso", vi a metade duma comédia estrelada pela ex-vedete Wilza Carla, antes famosa no "teatro rebolado" carioca - imensamente gorda naquele show. Digo pela metade, porque a briga que ela teve com alguém em altos brados nos bastidores, acabou com a apresentação. Por último, confesso o pecado mortal de ter visto, no Centro de Convenções de Ponta Negra, a peça "Oh Calcutta", que não tem enredo - nem precisa - porque uns vinte atores dos dois sexos, aparecem completamente nus, uma vez que o objetivo da obra é exibir gente pelada.

Na infância, vi espetáculos teatrais em circos e o que me ficou na memória foi a "Paixão de Cristo", encenada num cirquinho mequetrefe. Jamais esquecerei o ator que, na pele do sumo sacerdote Caifás, ao entrar no recinto onde estava sendo decidido o destino de Jesus, cumprimentava os presentes exclamando: "Senhores, Doutores"… Também ficaram indelevelmente gravados no meu "quengo" os "efeitos especiais" utilizados para simular a tempestade que seguiu-se à crucificação: para "escurecer o mundo", simplesmente apagaram todas as luzes do circo e a "trovoada" fez-se ouvir através de cacetadas em várias latas de querosene vazias…

Um pesquisador que se dedique a esse mister, com certeza, encontrará imenso folclore envolvendo a nobre arte cênica. Consta que num estabelecimento de ensino médio, os alunos resolveram encenar uma peça. Dentre eles, tinha um cabra muito esquecido a quem foi dado o papel dum sujeito que entrava em cena e exclamava: "Escapei milagrosamente!". Daí que o gajo trocou as bolas e, para gáudio da plateia, bradou: "Escaposamente milagrei".

Contam, também que aquele servente do teatro vivia pedindo ao diretor uma chancezinha e quando, num rasgo de bondade, o chefe lhe deu a oportunidade, sob a forma de, em cena, puxar a espada e gritar: "Eu sou Nabucodonosor"!, o sujeito treinou um mês frente ao espelho, mas, na hora "H", no palco, puxou a espada de plástico e mandou: "Eu sou Trabuco"! , trabuco, não, sussurrou o "ponto" e o sujeito perfilou-se novamente e gritou "Eu sou é Nosor"!!! Diante das gargalhadas da plateia, jogou a espada no chão e disse: eu sou é um F.D.P!.

E, no Teatro Santa Isabel, em Recife: amadores encenavam a Paixão e o "centurião" não gostava de "Jesus", de modo que mandou-lhe o chicote, de verdade. A plateia delirou com a realidade na cena, mas na terceira chicotada, "Jesus" largou a cruz e meteu a mão na cara do inimigo, que foi cair sobre os da primeira fila.

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