Crônicas da Velha Ribeira (58)

Publicação: 2017-04-21 00:00:00 | Comentários: 0
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A palavra "cachaceiro" é muito agressiva. "Pinguço", um pouco mais leve, também traz um certo desconforto aos que, assim, são classificados. "Biriteiro" parece ser um termo mais "esportivo" e "ébrio" traduz o estado daqueles que não têm volta...

Tem ainda, os "chegados a uma branquinha" e os que "bebem socialmente".

Evidentemente, essas classificações não se referem aos que são adeptos preferencialmente da "água que passarinho não bebe". Englobam todos os consumidores do álcool. O folclore desta Velha Ribeira, registra vários tipos de apreciadores de bebidas alcoólicas: Teve aquele comerciante que, na adolescência tava exagerando no consumo ao ponto de chagar à debilidade física e o pai mandou-o à fazenda da família para que se recuperasse.

Decorrido um mês de "leite-no- peito-da- vaca", o velho foi conferir o progresso do filho. Achou-o ainda fraco e questionou o administrador. "Doutor - entregou o homem - quando ele traz o copo p´ra gente encher de leite, já vem com três dedos de conhaque". Aqueloutro, que tinha uma "garçonnière" num velho prédio aqui da Ribeira, promovia animadas feijoadas aos sábados, para as quais convidava amigos. Mas a estrela, nesses regabofes, era seu "caso": uma das mais conhecidas inquilinas de Maria Boa. Daí que, era comum o anfitrião "encher a cara", adormecer num canto qualquer enquanto um dos convidados "cuidava" da anfitriã...Havia também aquela figura muito popular e querida por todos que o conheciam. Não perdia um aniversário, casamento, inaugurações, enfim qualquer evento onde fosse servido bebida grátis - a chamada "boca livre" ou "0800" na gíria atual. É fato comprovado que, na festa de inauguração da filial do Banco Nacional de Minas, instalada no Edifício Bila, na Duque de Caxias, depois de exagerar nas doses do uísque, generosamente servido, de repente desapareceu.

Encontraram-no horas mais tarde no banheiro do Grande Hotel, todo cagado e sem condições de levantar-se. Não houve tempo nem de arriar as calças. Teve o caso daquele contínuo de uma grande empresa, muito estimado pelos patrões e colegas, que começava muito cedo e já chegava "bicado" ao trabalho. O gerente contratou uma assistente social para tentar recupera-lo, mas o trabalho foi em vão.

Morreu de cirrose. O cabra que não prescinde de uma cachacinha, mesmo bem vigiado, sempre dá um jeito de satisfazer o vício. Foi esse o caso daquele comerciante aqui do bairro. No negócio da família, que mandava era a mulher - evidentemente que, em casa também. E ela, certamente incomodada com as incursões dele às bodegas da vizinhança, baixou uma ordem, impedindo-o de ausentar-se do trabalho para uma - ou várias - bicadas. Obedientemente, o cidadão passou a cumprir a determinação. Mas eis que, nas vezes em que ela chegava perto dele, "sentia o bafo" da cachaça e repreendia-o." Mas, como"? - defendia-se o "pinguço" - "se eu num arredo o pé daqui"! Sem provas concretas, ela se acalmava. Até um dia em que se fez necessário um limpeza no tanque d'água que tinha nos fundos da loja deles. Amarrada num barbante, com a ponta muito bem escondida, uma garrafa de Pitu, já com o rótulo descolando pela ação da água, jazia no fundo de cimento, com uma pedra de contrapeso, para segura-la, lá em baixo...


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