Crítica fala sobre arte e política e a nova cena nordestina

Publicação: 2019-09-04 00:00:00 | Comentários: 0
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Ramon Ribeiro
Repórter

“A recepção foi muito afetiva. Mas é aquela coisa, tem pessoas que a amam e as que odeiam. E a exposição não foi feita para trazer paz ou confortar corações, ela também foi feita para incomodar”. A afirmação é da crítica de arte e curadora pernambucana Clarissa Diniz sobre a grande mostra “À Nordeste”, realizada em São Paulo, e da qual é uma das curadoras. Sua fala se deu em palestra no evento Nordeste das Artes, promovido em Natal pelo Sesc RN.

Clarissa Diniz vem ganhando cada vez mais evidência no cenário da curadoria de arte
Clarissa Diniz vem ganhando cada vez mais evidência no cenário da curadoria de arte

“À Nordeste” reuniu um conjunto de 343 trabalhos de 160 artistas – a maior parte deles nordestinos. A mostra foge de esteriótipos acerca da região, propondo uma reflexão mais sobre a ideia de estar “à nordeste de algo” do que tratar de identidade. Pelo menos nove artistas potiguares estavam presentes: Jota Mombaça, Pêdra Costa, Maíra Sansara, Vicente e Vinícius, Marcelo Gandhi, Abraham Palatinik, Falves Silva e Jota Medeiros. Sobre essa mostra e o cenário das Artes Visuais no Nordeste, Clarissa Diniz conversou com a TRIBUNA DO NORTE.

Nordeste das Artes
O Nordeste das Artes tem como intuito fomentar, articular, difundir e valorizar a produção artística e cultural dos estados da região Nordeste. Segundo o diretor regional do Sesc RN, Fernando Virgílio, as discussões servem para pensarmos uma política para a cultura, senão nacional, para os nove estados do nordeste. “Os Sescs do Nordeste se juntaram e propuseram para o departamento nacional, ainda no final de 2018, a ideia de pensar a cultura e a arte da região. A partir dai, durante esse ano todo, vem acontecendo vários encontros”, explicou o diretor. A música teve um encontro no Ceará, a literatura, no Sergipe, as artes, em Natal, as artes cênicas, focada no Circo, será na Paraíba. O patrimônio histórico será na Bahia. Confira entrevista com a curadora:

Quais foram as principais preocupações que vocês tiveram ao montar essa mostra em São Paulo?
O principal cuidado que a gente teve foi o de não alimentar os esteriótipos. Em nenhum momento falamos de sotaque, sertanejo, seca, ainda que essas coisas atravessem alguns artistas, não são temas da exposição. Nossa abordagem não foi dar uma outra camada sobre essas perspectivas que se tem do Nordeste, foi convocar outras perspectivas. Outro cuidado foi em pensar sobre como o nordestino é visto em São Paulo. Por exemplo o núcleo do Trabalho [um dos oito eixos temáticos da exposição], ele tem muitas obras de artistas do Sudeste sobre os nordestinos trabalhadores. Queríamos fazer esse encontro de perspectivas. Não é uma exposição de nordestino falando de Nordeste. É uma exposição que problematiza a ideia de Nordeste. À Nordeste de quê? Qual é o centro?

Como tem sido a repercussão sobre a mostra? Imagino que tem olhares afetivos, mas conflituosos também.
Teve uma pessoa que chegou vestida de gibão, revoltado porque não encontrou nenhum jumento na exposição. Não sabemos o seu nome, só que era nordestino. Mas também tem o texto da Aracy Amaral, uma crítica de arte muito importante. Ela escreveu sobre não encontrar obras de três artistas na exposição [Francisco Brennand, João Câmara ou Miguel dos Santos]. Isso faz pensar o quanto tão forte é essa projeção de esteriótipo. Para essa crítica de arte, Nordeste sem esses artistas não é Nordeste. Então estamos falando de um processo muito profundo de esteriotipização, de cristalização de uma determinada imagem do Nordeste. Não é pouca coisa. É um pano de fundo extremamente denso. E o ano de 2018, com tudo que aconteceu no país, ajudou a aflorar novamente esses preconceitos.

Em 2019 assistimos os governadores dos nove estados do Nordeste se organizarem em um Consórcio Nordeste. Essa aproximação de alguma forma pode refletir na arte?
Sem dúvida. Essa perspectiva regional não é o mesmo tipo de abordagem regionalista da década de 30, que era essencialmente cultural, com “somos parecidos, temos os mesmos valores, etc”... É um regionalismo político, de fundo eleitoral, com várias repercussões econômicas, mas sem sombra de dúvidas pode engendrar políticas públicas para cultura, políticas que retroalimentem essa ideia de região. Se isso vai ser interessante do ponto de vista político estratégico, ou se isso vai acarretar uma série de novas ondas de esteriotipização não sabemos. Mas o curioso é ver que em 2019 estamos vivendo a mesma interrogação sobre a região que os artistas do começo do século 20 viveram. Claro que não pelos mesmos motivos. E acho que hoje a gente tem muito a aprender sobre a experiência de um século atrás, que já vivemos, mas que muitos nem lembram mais.

Não te incomoda essa ideia de pensarmos como uma região? Por que ainda estamos discutindo isso?
Não é uma questão de positivo ou negativo pensar sobre isso. O mais importante é pensarmos “A serviço de quê que a gente usa isso?”. Será que é estratégico reforçar o lugar de um autor? Acho que a identidade regionalista pode ser uma porta de entrada para situações muito favoráveis do ponto de vista econômico, mas também pode ser completamente o oposto, encarceradora, pode implodir forças e potências. É importante cultivar um exercício autocrítico de sempre se questionar sobre que imagens a gente está construindo sobre nós mesmos.

Na visita aos estados, vocês sentiram que os artistas daqui trabalham com essa preocupação?
Há vários artistas que trabalham numa chave regionalista que fazem essa reflexão o tempo inteiro, como o Jonathas de Andrade, um exemplo. Mas há outros que fazem sem a reflexão. Às vezes, nem sempre, acabam caindo na própria armadilha. Na hora que querem tirar o chapéu de coro não conseguem, porque não deixam.

E sobre o Rio Grande do Norte, o que mais chama a atenção na produção daqui?
A produção LGBT, sem dúvida, foi a marca mais forte pra gente. Porque é algo que surge a partir do RN. Há mais de 10 anos atrás, um dos primeiros projetos de arte nessa relação com o “queer” foi o Solange Tô Aberta, da Pedra Costa. É uma referência fundamental que vai desenvolver toda uma cena muito tempo depois e que agora está ganhando força no Brasil. E também do RN tem Jota Mombaça, que é uma referência não só do ponto de vista poético, mas teórico, de anti-colonialidade no Brasil como um todo. Ligado ao RN tem algumas das produções mais instigantes de crítica colonial no Brasil e que apontam para as armadilhas da identidade. Acho que é um dado fundamental. Mas além da Pedra e da Jota, tem a Maíra Sansara, o Vicente e o Vinícios, também artistas que lidam com questões de gênero. Tem também o Palatinik, o poema processo de Falves Silva, a geração da poesia visual, super relevante, com Jota Medeiros, além do Marcelo Gandhi.

Tendo em vista as outras linguagens, como o Cinema, a Música, o Teatro, qual o lugar das Artes Visuais no Nordeste?
Do ponto de vista econômico e de projeção, as artes visuais não estão no mesmo lugar que o cinema e a música, por exemplo. Mas as artes visuais repercutem demais. Alguns dos artistas mais comentados no momento são nordestinos, inclusive jovens. É um dado importante. Jota Mombaça, por exemplo, tem uma circulação muito forte hoje. Das 10 jovens artistas brasileiras, sem dúvida é uma das mais proeminentes. Mas ela não está falando sobre ser nordestina, ainda que toda a experiência de ser nordestina atravesse seu trabalho. Mas é bom lembrar que quando a gente fala de artes visuais a gente está falando de muitas artes. Arte contemporânea, moderna, popular, cada uma tem circulações muito distintas. E outra coisa, boa parte do nosso cinema é extremamente ligado às artes visuais. Karim Ainouz [cearense], que pode concorrer ao Oscar e tal, é um cara que pensa o filme dentro do repertório das artes visuais, inclusive faz instalações. Então elas [as artes visuais] estão ai, só não estão advogando seu espaço.

Exposição “conciliatória”
Durante bate-papo no Sesc Rio Branco, a curadora Clarissa Diniz disse que toda a produção da mostra “À Nordeste” (incluindo a programação cultural), realizada entre  maio e agosto, custou R$ 4 milhões dos cofres do Sesc São Paulo. “O dinheiro dessa exposição veio do mesmo lugar de onde se moveu o impeachment, o pato da Fiesp. Também nos perguntamos sobre 'a serviço de que nós fomos convidados para montar essa exposição?’”.

Segundo ela, poderia ser facilmente “uma exposição conciliatória, mostrando como o Sistema S não é preconceituoso, racista, ser uma grande apologia ao nordestino, poderia cair nesse lugar, mas não caiu", comenta a curadora.

“Mas também entendo o quanto o Sesc SP está tentando resistir nesse cenário formado. Vejo a efetividade das práticas do Danilo Miranda (diretor do Sesc SP). Depois de tantos ataques [ao Nordeste], o Sesc queria tratar do assunto. Até porque, desde os associados até aqueles que movem a economia, muitos deles são nordestinos".





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