Crise internacional barrou projetos

Publicação: 2015-10-18 01:00:00
Não muito distante de Camurupim, outro grande complexo com 201 apartamentos também está com as obras paradas. O Sol do Atlântico Resort e Spa, também concebido para e financiado por noruegueses, ingleses e holandeses, dispôs unidades habitacionais cujos valores variavam de R$ 280 mil a R$ 450 mil. Entre apartamentos simples, bangalôs e coberturas exclusivas,  a proximidade com o Mirante dos Golfinhos, em Barra de Tabatinga, era o principal atrativo do empreendimento, instalado num  terreno de quatro hectares.

Conforme repassado à TRIBUNA DO NORTE por uma fonte que atuou na comercialização do complexo, somente 80 unidades habitacionais foram vendidas. Com a ampliação da crise financeira nos Estados Unidos e Europa entre 2008 e 2009, os reflexos nos negócios no Brasil foram inevitáveis. Tanto a incorporadora – Sol Empreendimentos Imobiliários Ltda. - como a construtora responsável – Enteco Engenharia Inteligente Ltda. faliram. Ainda segundo a fonte ouvida pela reportagem, os donos dos imóveis nem poderiam ser considerados ricos na Europa. Eram pedreiros, comerciantes, empregados do terceiro setor da economia. Os mais abastados costumam comprar imóveis nas cercanias do Mar Mediterrâneo.    
Arituba Spa Center I e II: O luxuoso spa e centro fitnesse hoje está com a obra abandonada, sem vigilância. Material de construção foi roubado por vândalos

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Um dos sócios do empreendimento, o empresário Sílvio Souto Maior, esclareceu à reportagem que o condomínio foi erguido de forma auto-financiável. Os recursos enviados pelos noruegueses, basicamente, mantinham o andamento das obras, frisou o empresário. Com a crise internacional e a consequente diminuição dos repasses de dinheiro, não foi possível concluir o projeto. “Faltou recursos para tocar a obra. A construtora enfrentou problemas e dificuldades financeiras”, comentou. Conforme anúncio publicado na internet em 2008, os apartamentos com o valor mínimo giravam em torno de 94 mil euros. As ofertas eram feitas, basicamente, na Europa.

Não bastasse o acúmulo de dívidas e, o pior, a insatisfação de centenas de compradores, a empresa e os responsáveis pelo empreendimento ainda respondem a inúmeros processos que tramitam na Justiça do Rio Grande do Norte. Desde supostos crimes cometidos contra a fauna da região, aos pedidos de devolução de recursos, são inúmeras as peças judiciais.   Em algumas delas, grupos de estrangeiros se reuniram e contrataram como representantes advogados como Tatiana Mendes Cunha, atual secretária-chefe do Gabinete Civil do Estado; e José Marcelo Ferreira Costa, ex-consultor-geral do Estado.
Golden Dunes Beach Condominium: O anúncio prometia as obras concluídas no fim de 2015, mas terceiro bloco não está acabado e não há morador fixo
No litoral Norte do estado, na praia de Graçandu, outro conjunto de apartamento voltado ao público europeu também enfrenta dificuldades. Dos três blocos previstos no projeto do Golden Dunes Beach Condominium, somente dois foram concluídos. O Bloco C, que fica em frente à Lagoa de Pitangui, está inacabado. No site da empresa responsável pelas obras, a estimativa era de que ficasse pronto ainda este ano, o que não ocorrerá. O norueguês, Otte Nessemo, responsável pelas vendas dos apartamentos do Arituba Spa Center I e II e do Golden Dunes Beach Condominium foi procurado para comentar a paralisação dos serviços nos dois empreendimentos. Ele informou, porém, que só iria se procunciar através do advogado Francisco de Assis Costa Barros.

Mega projetos nunca saíram do papel


A pompa dos lançamentos e o anúncio dos bilhões envolvidos nas operações de construção e operacionalização dos empreendimentos, não foi suficiente para tornar resorts e escolinhas de futebol no litoral norte do estado realidade. O ator Antonio Banderas esteve em Natal em dezembro de 2007 para conhecer o terreno onde o grupo espanhol Sánchez  construiria um megaempreendimento no qual os atores teriam uma propriedade. O Elegance Natal Golf, entre as praias de Pitangui e Jacumã ocuparia uma área de 2,2 mil hectares. Quase R$ 7,4 bilhões estavam previstos para a construção que jamais saiu do papel.

No ano seguinte, em janeiro, foi a vez do astro do futebol inglês, David Beckham, aportar em terras potiguares. Ele, acompanhado do presidente do Grupo Brazil Development, Torben Franzten; e da então governadora Vilma de Faria, lançaram o projeto de um mega resort na praia de Cabo de São Roque, distrito de Maxaranguape. Além de Beckham, o ex-piloto de Fórmula 1, Rubens Barrichello, seria investidor do empreendimento avaliado em R$ 250 milhões. Cerca de 1.350 unidades habitacionais seriam construídas, além de campos de golf e futebol, quadras de tênis e o centro de treinamento “The David Beckham World of Sport”. Tudo, porém, só ficou no campo das ideias.
Sol do Atlântico Resort & Spa: Resort prometia espaços para esportes, spa, bares e quiosques. A obra está inacabada e construtora e incorporadora responsáveis faliram e acumulam processos
Com um porte menor, mas igualmente luxuoso, seria o Jacumã Beach Resort, que previa R$ 200 milhões em investimentos, na construção de 821 unidades em condomínios residências e apart hotéis, além de uma ampla infraestrutura esportiva e de lazer. As promessas eram que as obras seriam concluídas até o fim de 2010. No entanto, o local só conta atualmente com uma edificação: o estande de vendas.

Na Lagoa do Coelho, em Touros, seria construído um resort com investimentos da ordem de  R$ 2,4 bilhões para a construção de 14 mil unidades, entre apartamentos e casas, além de campos de golfe, futebol e parque aquático com nada menos de 123 piscinas. O terreno chegou a ser desmatado por duas vezes, mas nada foi construído. O espanhol Luis Nicolas Mateos, responsável pelo empreendimento, acabou preso em 2008 numa operação da polícia espanhola sob acusação de fraudes na construção de condomínios para idosos na Espanha.

Desde 2006, as obras do Hotel BRA, na Via Costeira de Natal, estão paralisadas. A promessa dos proprietários de retomar os serviços não se cumpriu ao longo deste ano. Aproximadamente R$ 50 milhões foram consumidos ao longo da construção. Hoje, dois vigilantes fazem a segurança do local, que antes servia como ponto de consumação de drogas e prostituição.