Crônica da loucura cotidiana

Publicação: 2011-07-02 00:00:00 | Comentários: 1
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Yuno Silva
repórter

Loucura, senso crítico afiado, língua ferina e o eterno conflito de quem discorda das convenções sociais e questiona a própria existência. A escrita de Alex Nascimento — o “Bardo da rua São João”, como o chamam os amigos/leitores — é tudo isso e muito mais, e um fragmento desse universo absurdo, cru e real, materializado na obra  “Recomendações a Todos” (1982 /Editora Maturi. esgotado), ganha os palcos através da livre adaptação do Coletivo de Atores à Deriva.
Os quatro atores (Henrique Fontes, Bruno Coringa, Doc Câmara e Paulo Lima) dão vida à voz do escritor, personagem principal do espetáculo
A estreia tem previsão para chegar aos palcos em setembro, mas o público natalense poderá sentir um gostinho do que estar por vir neste próximo domingo (3), às 20h, durante ensaio aberto no Circuito Cultural da Ribeira, na sede do grupo localizado na rua Frei Miguelinho, 47a, Ribeira (em frente à Casa da Ribeira).  Aos interessados em ver o ‘esboço’ de “Recomendações a Todos”, vale lembrar que a proposta cênica ainda está em plena construção, e trata-se de mais uma etapa do processo coletivo de montagem.

“Foi o texto de Alex Nascimento que nos uniu”, confessa a diretora equatoriana Coco Maldonado, que ao lado do alemão Anatol Waschke, colabora na formatação da estrutura do espetáculo. “Com cada capítulo dava para montar uma peça inteira”, acrescenta Anatol, responsável pela parte técnica da montagem. Henrique Fontes conheceu Maldonado em agosto de 2010, quando participavam de projeto teatral em Alagoas – Waschke só entraria na história, e na vida de Coco, alguns meses depois. “Li o livro em 1990 e ficou guardado por mais de 20 anos. O texto é extremamente teatral e caiu como uma luva durante a primeira crise do Coletivo, enfrentada logo após encenarmos ‘O corte sem casca’, em março de 2010”, lembra Fontes.

Ele apresentou o texto para Coco Maldonado em novembro, quando a equatoriana esteve em Natal com o espetáculo “Soledad del Monte”, monólogo apresentado na cozinha da casa de pessoas interessadas em abrigar o projeto – por acaso a estreia do espetáculo foi na cozinha de Henrique – mas a montagem de “Recomendações a todos” começou mesmo há cerca de um mês. “Quando comecei a ler fiquei encantada. Seu modo de escrever faz com que o leitor mergulhe no pensamento extremamente dinâmico do autor”, disse a atriz e diretora.

Anatol, que cruzou o caminho de Maldonado no início deste ano em Salvador, acrescenta: “Ele constrói imagens, conta toda uma história e, em determinado momento, chega a conclusão de que não é nada daquilo afirmado antes”. “Pura metaliteratura” arrisca Fontes. Apesar de referências localistas, o livro de Alex Nascimento é universal e sua narrativa “não propõe soluções e sim problemas”, constata Waschke. A estada de ambos em Natal contou com o apoio do Sesc RN e Natal Card.

Cenas

Como o livro foi escrito em primeira pessoa, os quatro atores (Henrique Fontes, Bruno Coringa, Doc Câmara e Paulo Lima) em cena dão vida a voz do escritor, esta sim a personagem principal do espetáculo.

“Eles constroem uma nova voz coletiva, ao mesmo tempo que cada um tem sua própria. É uma forma de nos apropriarmos do discurso”, adianta Maldonado.

“Tenho muita vontade de estrear a peça com o relançamento do livro (que está esgotado), seria perfeito, mas primeiro temos que convencer Alex. Editores, podem entrar em contato”, convida Henrique Fontes.

Saiba mais sobre os grupos

 http://teatropraviagem.anatol.biz/

 http://soledaddelmonte.blogspot.com/

http://atoresaderiva.blogspot.com

O bardo da rua São João

Notívago de carteirinha, Alex Nascimento estreou na literatura com “Recomendações a todos”. Lançou também “Almas de rapina”, “Alma minha gentil” e “A última estação”. Foi cronista da TRIBUNA DO NORTE, é visto por incautos como louco e excêntrico. Figura cativa em bares do bairro Petrópolis, perambula pela noite para rever os amigos e dorme durante o dia.

“Quando li ‘Recomendações a todos’ em 1984” disse: ‘era isso que queria ter escrito’”, contou o jornalista Carlos de Souza, colunista de literatura da TN. “Me influenciou muito, inclusive meu primeiro livro ‘Crônica da Banalidade’ bebeu nessa fonte. Mas não me lembro dos detalhes. Conta a história de um cara meio louco, alter ego de Alex Nascimento, pontuada por passagens eróticas e experiências sensoriais”.

Trecho de recomendações Hospital Colônia Ilha de Vera Cruz

Nome: Alex Nascimento

Data: 20 de junho de 1947

“Agora sinto-me bem. Há pouco, muito pouco, matei o doutor. Basta que olhem aqui e vejam o sangue nas minhas mãos. Se não gostam de sangue, pouco importa: não tenho a intenção de agradar ninguém. Foi tudo muito rápido, muito simples, igualzinho ao que se vê todos os dias. Uma faca no seu pescoço, carótidas inclusas, e despencou aquele monte de merda científica. Pobrezinho! Seus olhos se arregalaram contra mim, sua boca tentou dizer alguma coisa que não compreendi, mas ainda fui gentil, não deixando que sua cabeça batesse contra a parede. Sabia pouco e jugava demais o doutor. A prepotência a serviço de encobrir a ignorância, portanto, nenhuma novidade. E o que acontece é que assumo novamente. Afinal, sou eu que me conheço, e não um psicopata deficiente, amestrado e travestido de branco. Se há dupla personalidade, tanto melhor: uma há de sempre fazer companhia à outra, dando um afortunado adeus à solidão...”

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Comentários

  • janielsonvirtual

    Nossa! Gostaria muito de conhecer o Alex, achei a obra dele genial, muito bacana mesmo, o humor, a sátira são ingredientes que deixaram esse livro espetacular.