Cruzeiro de Macaíba quer brilhar no Brasileirão Feminino

Publicação: 2019-03-10 00:00:00 | Comentários: 0
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Ícaro Carvalho
Repórter

Se fazer futebol ou qualquer esporte no Rio Grande do Norte já é algo repleto de dificuldades por diversos fatores, tocar um clube feminino no Estado ganha ainda novos contornos com a falta de apoio, visibilidade e estrutura dos clubes potiguares. Mesmo com os obstáculos, as meninas do Cruzeiro de Macaíba, clube da região metropolitana de Natal, não se deixam abalar e driblam aos poucos as barreiras que cruzam pelo caminho. Em 2019, o clube da Grande Natal realiza um sonho: vai disputar pela primeira vez o Campeonato Brasileiro de Futebol Feminino. Carregando a bandeira do RN no peito, as potiguares se credenciaram a participar da Série A2 do Brasileiro, a segunda divisão do torneio, por terem conquistado o campeonato potiguar do ano passado.

A equipe da cidade de Macaíba, região metropolitana de Natal, realiza um trabalho árduo de treinamentos e preparação das atletas, conquistando, assim, o respeito de adversários fora do Estado
A equipe da cidade de Macaíba, região metropolitana de Natal, realiza um trabalho árduo de treinamentos e preparação das atletas, conquistando, assim, o respeito de adversários fora do Estado

Há pouco menos de um mês para o início do torneio, o representante potiguar intensifica os preparativos e concentra as ações para tentar fazer história no principal campeonato feminino do país. Com outras 35 equipes, elas disputam uma fase de grupos com mais cinco times: Náutico-PE, Botafogo-PB, Lusaca-BA, Canindé-SE e Uda-AL. Em turno único, os dois melhores de cada chave avançam às fases mata-mata. Quem chegar às semifinais sobe de divisão.

A lateral-direita e capitã da equipe, Larissa Almeida, de 22 anos, conta que o Cruzeiro chega em condições para o torneio e diz que quer trabalhar um passo de cada vez na disputa do Brasileirão. Debutando num torneio desse porte, ela comenta as expectativas para representar o Estado no campeonato.

“A gente é muito pé no chão. Óbvio que a meta principal é alcançar o acesso, mas por pensar em partes a gente pensa que o primeiro objetivo é classificar a equipe para segunda fase. Depois a gente pensa no resto”, conta.

“A gente chega preparada, dentro das nossas limitações, obviamente, mas pegamos um grupo o qual as equipes têm o mesmo nível técnico, o que facilita um pouco pra gente, o que não significa que vai ser fácil. Sendo que, diante das equipes que têm no Brasileirão, digamos que o grupo que a gente pegou estão no mesmo nível que nós, então é tudo muito incerto, mas as expectativas são boas”, salienta.

O time é um misto de força e técnica sob um bom comando fora do gramado
O time é um misto de força e técnica sob um bom comando fora do gramado

Mesmo com uma história recente no futebol feminino, uma vez que o time de Macaíba tinha o departamento masculino como carro-chefe do clube, aos poucos o Cruzeiro busca ir se consolidando como uma das forças femininas no Estado. Após conquistar o vice-campeonato em 2017, com direito a goleada por 14 a 0 na última rodada, as meninas venceram o Estadual no ano passado e agora realizam o sonho de disputar o Brasileirão. Com uma equipe de cerca de 27 atletas, as meninas treinam duas vezes por semana sob o comando do técnico Bernardes Filho.

De acordo com ele, apesar das dificuldades e de uma rotina de treinos não tão intensa como gostaria, o treinador cruzeirense espera fazer uma boa apresentação no torneio, apesar das dificuldades. Jogando três dos jogos longe do RN, o treinador avalia o grupo como difícil e coloca o Cruzeiro no mesmo patamar de duas equipes, sem citar quais. Como as duas melhores avançam, a ideia é ser o franco-atirador do grupo e tentar surpreender.

“Estamos num grupo com boas equipes e sentimos que podemos fazer uma boa competição. É a primeira competição das meninas a nível nacional, temos jogadores inexperientes a nível desse tipo de competição, mas acredito que vamos fazer uma boa apresentação. Os resultados são consequência do trabalho e nós sabemos disso. Esperamos fazer um bom trabalho dentro daquilo que nós planejamos e quem sabe conseguiremos passar à segunda fase”, disse o treinador.

Enquanto se prepara para a grande estreia, que será fora de casa contra o Náutico, o clube define os últimos detalhes para as viagens e sobre o palco de jogo no Rio Grande do Norte. Em solo potiguar, o Cruzeiro vai receber o Lusaca-BA e o Uda-AL. O palco de jogo ainda será definido junto à FNF, uma vez que não poderá receber as adversárias no CT, em Macaíba. O treinador Bernardes acrescenta ainda a falta de “margem de manobra”, justamente por ser turno único na primeira fase.

Segundo as jogadoras do Cruzeiro, o time está pronto para o torneio nacional
Segundo as jogadoras do Cruzeiro, o time está pronto para o torneio nacional

“Não posso dizer que nossa equipe está no mesmo patamar das outras, mas é uma equipe em que o trabalho está sendo bem realizado e lógico que nós acreditamos que podemos fazer uma boa competição. Se vai passar de fase é consequência do que vai sendo feito. [...] A gente tem os pés no chão, mas nunca deixando de acreditar”, explica.

Marketing ativo e rede de parcerias: rotina do clube
Sendo um clube ainda de pequeno porte, uma vez que o futebol feminino ainda engatinha tanto no Rio Grande do Norte quanto no resto do país, o Cruzeiro de Macaíba passou a procurar alternativas das mais diversas possíveis para atrair as jogadoras a acreditarem no projeto, além de angariar fundos para manutenção da equipe.

Como a maior parte das meninas mora em Natal e região metropolitana, o máximo que o clube consegue dispor para as jogadoras é um auxílio transporte. No entanto, a supervisora técnica da equipe, Júlia Maria Medeiros, de 23 anos, atuando na equipe cruzeirense desde o começo das atividades do departamento feminino, em 2016, explica que, mesmo diante desse cenário, o profissionalismo adotado em todos os setores do clube faz com que as meninas acreditem no projeto.

“Não adianta a gente tentar mostrar serviço se a gente não fizer funcionar todos os departamentos de forma profissional. Por isso que quando a gente trabalha com futebol feminino no Cruzeiro, as meninas, a comissão, o departamento de marketing, todos se portam de forma profissional, e dessa forma a gente consegue vender o nosso produto.”, explica.

A união dentro de campo inspira os trabalhos de marketing
A união dentro de campo inspira os trabalhos de marketing

Conforme explica Júlia Maria, o marketing do clube conseguiu fechar com dois patrocinadores locais, além de pequenas parcerias que agregam valor à marca do clube. Esse profissionalismo, acrescenta, acabou por criar uma espécie de sócio torcedor da equipe cruzeirense. Os torcedores e admiradores do Cruzeiro podem pagar uma taxa mensal, que acaba sendo revertida em descontos em academias, hamburguerias, petshops, restaurantes, lojas de roupas, entre outros. O clube também trabalha com venda de camisas para os torcedores como forma de angariar fundos.
“As meninas começaram a acreditar e a ver, através dessa oportunidade, uma forma de crescer no futebol. A maioria delas sonham em ser jogadoras e sabem que a oportunidade aqui no NE é muito difícil. Várias delas já recusaram propostas para saírem do time, ganhando, porque sabem que o nosso trabalho é diferenciado e podem levá-las a oportunidades melhores”, diz.

“A gente trabalha de forma profissional justamente para tentar mudar a realidade do futebol feminino no Brasil, porque o maior problema é o amadorismo das equipes. Vão levando como querem, treinam de qualquer jeito. Isso torna o esporte amador. Viemos tentando mudar essa realidade”, conclui.




















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