Culpa

Publicação: 2021-01-13 00:00:00
Rubens Lemos Filho
rubinholemos@gmail.com

Créditos: Divulgação

Peixeira, assassino frio, é implacável usando  a faca improvisada ao dilacerar colegas de cadeia no Filme Carandiru. O desempenho como Peixeira levou ao estrelato o ator Milhem Cortaz, talhado para personagens calhordas e violentos. Viveu o corrupto miliciano Capitão Fábio em Tropa de Elite, promovido a Coronel na segunda parte. 

O olhar de Peixeira em Carandiru disseca o telespectador por dentro. É a maldade nata, o instinto perverso é puro, o incorrigível que os humanistas de orelha de livro teimam em chamar de “reflexo da desigualdade social”.  

Pelas linhas tortas e toscas dos tais entendidos, a unanimidade da pobreza seria de bandidos.Hipocrisia . Há Peixeiras e há Suzane von Richthofen, endinheirada assassina dos próprios pais. 

As Suzanes do crime contam com a grana para bons advogados e as regalias rasgando códigos penais. Cadeia não foi feita para ricos e somente em barbáries como a de Suzane,  a tranca costuma ser fechada pelo lado de fora. 

No  filme,  do distante 2003 e ainda atualíssimo, Peixeira é chamado a concluir o extermínio de Zico, traficante devedor vivido por Wagner Moura, apenas  ator, não insuportável  militante de hoje. Ao olhar nos olhos de Zico, Peixeira vacila pela primeira vez. É a morte  rindo para ele e invadindo sua mente  de sociopata. 

Peixeira, desesperado, corre pela penitenciária  inteira e bate na enfermaria onde está o médico Drauzio Varella, interpretado por Luiz Carlos Vasconcelos. Aí Peixeira pergunta, em prantos: 

-Doutor, culpa tem remédio? 
O curador responde filosofando:
-Se tivesse, todo mundo ia querer...

Peixeira vira evangélico e, na história do cineasta Hector Babenco, é assassinado na invasão da Polícia Militar que acabou, na bala, a maior rebelião já vista no Brasil, no demolido presídio do Carandiru em São Paulo. 

A resposta de Drauzio Varela a Peixeira cai como cereja no amargo bolo do futebol potiguar, em férias forçadas pela incompetência dos clubes.

 O América foi eliminado pelo Floresta do Ceará da Série D, de onde já haviam saído o ABC, eliminado pelo Globo, e o Globo despachado pelo Sedex do Fast Clube de Manaus(AM). 

Não foram rebaixados a nada pois nada existe abaixo da Série D, o esgoto do futebol brasileiro, onde se debatem os times abaixo da estupidez tolerável.
É o lamaçal do Rio Estige, na Grécia, por onde navega, sinistro, o barqueiro Caronte, transportando mortos ao pior destino e recebendo moedas pelo nefasto serviço. 

O América foi eliminado pela quarta vez consecutiva do inferno. A sequência de adversários prova que estamos ali, coladinhos na barcaça assombrada de Caronte e à tenebrosa faca enferrujada de sangue por Peixeira. 

Derrotaram o América em mata-mata, Juazeirense(2017), Imperatriz(2018), Jacuipense(2019) e agora o Floresta. Respeito aos adversários e constatação de que nunca passaram de sacos de pancada sem história . Pior quem perdeu para eles. 

O ABC entrará no terceiro ano dentro do biombo horrendo da Quarta Divisão. Caiu por falhas próprias, autenticadas no cartório da bola. O ABC vem se esfarelando ao longo dos últimos anos, alimentado pelo veneno do bolo da inapetência, da vaidade, do distanciamento de suas raízes e da ingênua obsessão em pagar a finórios com promessas milionárias. 

Comodistas, virulentos de redes sociais culpam a Federação de Futebol. Federação não joga. O Brasil foi tricampeão do mundo sob a chefia do mefistofélico João Havelange. E duas vezes(1994/02), no comando não menos estarrecedor do genro dele, Ricardo Teixeira. 

Nas antigas, a Federação local era uma filha para um homem bom, generoso, rico e bem humorado, o jornalista João Cláudio de Vasconcelos Machado. Ele morreu duas vezes: de corpo em 1976 e de espírito em 2011 , quando derrubaram o estádio que levava seu nome, o Machadão. 

João Machado passou duas décadas no leme do futebol potiguar e os nossos limites eram o velho Juvenal Lamartine, simplório teatrinho de arena da bola antiga. João Havelange não escalava time nem fazia gol. 

Antes de apontar responsáveis,ABC e América, precisam de dupla varredura. De conceitos e atitudes. Olhar o espelho antes de terceirizar erros. Afinal, culpa não tem remédio.

Quem mandou 
Sujeito educado, de fino trato, o presidente do América, Ricardo Valério deixou o técnico Paulinho Kobayashi cheio de poderes. 

Arrogância 
No clube, a postura imperial de Kobayashi gerou rusgas. O tratamento indiferente dado a Leandro Sena, auxiliar técnico permanente  e escanteado, vazou  pela diretoria. 

Indesculpável 
Sena foi seu companheiro de time no acesso de 2006 à Série A.   Depois de 15 anos, comportamento presunçoso de Kobayashi. Bola  pune. 

Ditadura 
Enquanto prevalecer a relação promíscua  com técnicos, nem sobe ABC nem sobe América. Os dirigentes hipnotizados ou discriminatórios.  ABC pagou por sacanear Diá. Negando-lhe tudo.América, por não dar limites a Kobayashi. Aceitando tudo. 

 Jogadores 
Ninguém pode reclamar do baixo nível dos jogadores da Série D. Ficam  rebotalhos, péssimos, incapazes.  

Mancini 
O técnico Mancini, ex-jogador da Roma e do Atlético(MG) esteve em Natal, se reuniu com dirigentes, conheceu o ABC  e teve a petulância de sugerir seu fechamento, ao saber que não havia nutricionista. 











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