Cultura em penitência

Publicação: 2011-06-18 00:00:00 | Comentários: 1
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Yuno Silva
repórter

“Não dá mais para protelar”, diz o ator João Pinheiro. “Queremos respeito, respostas concretas”, acrescenta a atriz Ivonete Albano. A dupla representa comissão formada por artistas de vários segmentos, que não suportam mais aguardar o desenrolar da novela que dá conta das pendências da Fundação José Augusto – eles cobram o pagamento de cachês, editais e prêmios que somam R$ 1,3 milhão. João, Ivonete e o restante do grupo irá se reunir na  quarta-feira (22), às 19h, na Casa da Ribeira, para iniciar um movimento coletivo capaz de sensibilizar os gestores da FJA e agilizar o desfecho da quitação.
O ator João Pinheiro e a atriz Ivonete Albano representam comissão que cobra pagamentos da Fundação José Augusto
A comissão está convocando os grupos que participaram do Festival Agosto de Teatro, realizado em outubro de 2010; Pontos de Cultura; artistas com cachês atrasados mais os proponentes dos editais/prêmios Chico Villa (de circulação teatral), Lula Medeiros (teatro de rua), Cornélio Campina (cultura popular), William Cobbet (audiovisual) e Moacy Cirne (quadrinhos). Ivonete reclama que não está mais conseguindo obter nenhum retorno por parte da Fundação. “Em março passado, fui informada que uma comissão estavaria se formando para avaliar os débitos. Depois disso não tive mais notícias”, lamentou a atriz.

A TN entrou em contato com Bruno Saraiva, do setor financeiro da FJA, que informou ter enviado relatório completo nesta quarta-feira (15). “Pedimos prioridade para a Secretaria Estadual de Planejamento, mas o levantamento desses débitos só será analisado após a reunião do Conselho Estadual de Desenvolvimento (CDE) na próxima terça (21)”, informou. A FJA solicitou crédito suplementar à Secretaria para quitar os débitos.

O calote do festival

O imbróglio do Festival Agosto de Teatro não atingiu só pratas da casa: grupos de Pernambuco, da Paraíba, Maranhão e São Paulo, e personalidades nacionalmente conhecidas do segmento teatral também foram envolvidos na situação. "São pessoas que vieram de outros estados justamente para repercutir o potencial do teatro potiguar", lembra Albano. "Ninguém recebeu (produção, artistas), nenhum fornecedor foi pago (gráfica, transporte)", enumera.

O custo total do Festival foi de R$ 220 mil, destes R$ 60 mil foram oferecidos como prêmios aos grupos participantes. "A situação só não está pior por que foi minha empresa que ganhou a licitação", disse João Pinheiro. O ator contou que apresentou um valor abaixo do estimado para garantir a realização do Festival: "Imagine se não fosse parceiro? A bomba já teria explodido há tempos", alfineta. O restante do valor, R$ 30 mil, foi viabilizado através de indenização. "O grande problema é que a nota fiscal foi emitida, e como não houve pagamento estou com impedimento na Tributação. Ou seja, estou deixando de trabalhar", lamenta.

Em tempo: no dia 30 de dezembro de 2010, Ivonete Albano e vários atores fizeram plantão na porta da Seplan para tentar garantir os pagamentos. "Só saímos de lá depois de  confirmarmos o empenho e a liquidação do empenho, falta só a ordem bancária. Assim que demos as costas os contratos foram cancelados", disse.

Sobrou até para o dramaturgo Amir Haddad

Responsáveis por ministrar oficinas e conduzir debates durante o evento, três deles se pronunciaram sobre o caso:

Stephan Arnulf, professor de História do Teatro e de Dramaturgia na Universidade de Santa Catarina, também autor de tese de doutorado sobre política do corpo e perspectivas críticas do século 20 baseadas na obra de Shakespeare, declarou-se disposto a entrar na justiça em ação coletiva: "Lancei a proposta de acionar um advogado e ajuizar uma ação em conjunto, com todos os participantes do festival lesionados pelo não pagamento. No mínimo, acho que devemos assegurar nossos direitos. Lamento esses inconvenientes, pois no nível pessoal, tenho boas lembranças", escreveu o oficineiro.

Já o jornalista e crítico teatral Kil Abreu, também veio à Natal como convidado e se solidarizou com a direção do Festival Agosto de Teatro. "Foi um momento importante (...) e o que restou inconcluso, não praticado, eticamente ignorado, foi a resposta do Governo do RN. Como explicar um Festival que mobilizou tanta gente em torno do teatro é algo que não tem interesse para a vida coletiva, do Estado, dos cidadãos?", questionou Abreu, curador do Festival Recife do Teatro Nacional, e consultor dos programas Petrobras Cultural e  Rumos Itaú de Teatro.

Outro nome presente no Festival realizado em outubro do ano passado foi o dramaturgo, diretor e professor de teatro Amir Haddad. Experiente e premiado, ele desenvolve trabalhos na região Nordeste desde a década de 1980 e garante que "jamais aconteceu coisa semelhante. Isaura Rosado (FJA/SeCultRN), é uma amiga que respeito muito. Certamente, pelo que dela conheço, não está confortável diante deste fato inexplicável", lamenta. "Quanto à governadora Rosalba Ciarlini, também grande amiga, devo dizer que sua política cultural foi fator de desenvolvimento em Mossoró (...) não posso entender o que esta acontecendo", surpreende-se o diretor.

"Os convidados deram verdadeiras aulas de teatro ao analisar e debater espetáculos apresentados durante o Festival Agosto de Teatro, uma experiência muito valiosa que não ser superada pelo descaso", disse Ivonete. "Além das 200 pessoas envolvidas no evento, é a credibilidade do Estado que está em jogo", conclui a atriz. O caso pode ganhar contornos de dramalhão mexicano, e a intenção é que o final, feliz de preferência, esteja próximo.

“Querem nos matar de inanição”, diz rebouças

O produtor cultural Nelson Rebouças, idealizador de projetos como “Uma lua na rota do sol”, “Poticanto” e “Cantando e Conversando”, é outro personagem dessa novela de débitos que não agüenta mais esperar pelo pagamento por serviços prestados. Desde março de 2010 tenta, em vão, receber R$ 10.080,00 da Fundação Cultural Capitania das Artes pela produção de apresentações realizadas há 15 meses durante  comemorações alusivas ao Dia da Poesia de 2010.

“Trabalho com arte e cultura, e, se os gestores querem matar os artistas de inanição, estão conseguindo”, constata Rebouças, que a partir da próxima terça-feira (21) vai montar acampamento na Funcarte e iniciar uma greve de fome para pressionar solução. Nelson está com nota fiscal emitida em 13 de abril de 2010 pela empresa C.B. de Alencar ME, localizada em São Gonçalo do Amarante, onde lê-se “Referente a contratação de atrações artísticas para o evento Dia da Poesia” - o produtor cobra cachê para o cantor Geraldo Carvalho, banda Rosa de Pedra, o poeta Paulo Varela e o grupo circense Tropa Trupe. “Liguei para lá e soube que é um escritório de contabilidade, ou seja, nada a ver com cultura. E como uma empresa de SGA, com inscrição municipal de lá,  pode prestar serviço para a Funcarte em Natal?”, questiona.

júnior santosO produtor cultural Nelson Rebouças tenta, desde março de 2010 receber R$ 10.080,00 da Funcarte pela produção de apresentações realizadas há 15 meses durante  comemorações alusivas ao Dia da Poesia de 2010O produtor cultural Nelson Rebouças tenta, desde março de 2010 receber R$ 10.080,00 da Funcarte pela produção de apresentações realizadas há 15 meses durante comemorações alusivas ao Dia da Poesia de 2010
Rebouças foi informado que o processo foi liberado para pagamento em maio do ano passado, e que até agora a Funcarte aguarda repasse da Secretaria Municipal de Planejamento. “Ao invés de produzir, tenho que ficar cobrando, correndo atrás de um dinheiro que trabalhei para ganhar. A partir da próxima terça estarei na Funcarte por conta, e se alguém também se sentir prejudicado e quiser se solidarizar já sabem onde me encontrar – quero ficar bem na entrada”, disse o produtor, que viu seu projeto “Poticanto” acabar em 2009 por causa do calote de outra Fundação, a José Augusto.

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Comentários

  • zilenelf

    Um governo que não cuida da educação com certeza não irá olhar para a cultura. A situação desses trabalhadores do entretenimento, essencial para a sociedade, é a mesma da maioria que luta pela sobrevivência, nesse caso, a situação é vergonhosa, desumana e sem precedentes. Será que esses camaradas não comem nem pagam contas? E os (ir)responsáveis pela situação ainda tem direito de se defender (que é a eterna condição deles!)? O que \"podem\" alegar? Que as contas \"são de gestões passadas?\" Enquanto isso os contribuintes são obrigados a pagarem seus impostos.