Cultura versus política

Publicação: 2020-01-24 00:00:00
Alex Medeiros
alexmedeiros1959@gmail.com

Na década de 1960, quando os caminhos da contracultura, do rock ‘n’ roll e do movimento hippie cruzaram a avenida de conflitos ideológicos que avançavam no mundo, tanto a esquerda quanto a direita trataram de abrir trincheiras para recebê-los. As organizações comunistas criaram as condições emocionais para que os artistas se identificassem com elas. E investiram nos jovens a partir da revolução “cultural” de Mao Tse Tung e da mitificação da imagem do Che.

Logo, os partidos e tendências de esquerda arregimentaram estudantes, ocuparam os grêmios secundaristas e diretórios acadêmicos, e incutiram nas mentes o juízo de valor ideológico, criando a narrativa acusatória de que todo artista não alinhado com o socialismo era um alienado, um porra louca. Por sua vez, a direita também tratou de operar no meio da moçada, tendo a CIA papel importante na expansão mundial da marcha hippie por paz, amor e... drogas.

No básico e lógico raciocínio do establishment americano, que combatia a aliança Rússia/Cuba e apoiava governos militares na América, era mais aceitável um jovem drogado e curtindo rock do que um estudante guerrilheiro.

A História mostrou que tanto nas lutas do Leste europeu, quanto nas passeatas e luta armada no Brasil, a juventude e a arte estão para a dicotomia esquerda vs direita como a verdade para as guerras: são sempre as primeiras vítimas.

Como dizia Winston Churchill, “a mentira roda meio mundo antes de a verdade ter tempo sequer de colocar as calças”; uma assertiva mais do que significativa para o real quadro de sectarismo dos dias de hoje, um espelho do passado.

Artistas, intelectuais e jovens experimentam hoje um mesmo jogo político e ideológico que marcou os anos 60/70. Estão cegos na ilusão de poder que não lhes pertence, são a massa de manobra dos que almejam o poder pelo poder.

De todas as facetas da mentira, a política é a sua cara mais enganosa, tão enganosa que leva pessoas sensíveis, como os jovens, os artistas e os intelectuais, a acreditarem que sem ela tudo é ignorância e alienação.

Alienados, em verdade, são aqueles que imaginam a política – e tão somente ela – o elemento vital para o desenvolvimento social, cultural e econômico de uma nação. Isto é tão falso como conselhos de ética nos partidos políticos.

No Brasil, é fato, tudo aquilo que é bom para os partidos, é sempre ruim para a sociedade, para o mercado e para a cultura. Nada é mais triste e grotesco do que uma preferência partidária separar pessoas e unificar linguagem artística.

Os políticos, quer sejam de esquerda ou de direita, travam suas lutas pelo poder no tablado da farsa, na inutilidade do voto nas urnas. Depois retomam as negociações em encontros furtivos, saboreando os melhores vinhos e pratos.

Acato a sentença da jornalista e advogada Liana Machado, que na quarta-feira postou no perfil do Twitter: “Reconhecer o horror em Ustra e não reconhecê-lo em Lênin explica muito porquê chegamos ao ponto onde estamos”.

Sergio Moro
Ontem, pela enésima vez, a suposta colisão de interesses entre Jair Bolsonaro e Sergio Moro se espalhou no Twitter. No mesmo momento, o ministro comemorou a entrada em vigor da Lei anticrime, rasgando seda ao presidente.

Botafogo
Rodrigo Maia disse que a revogação do juiz de garantias pelo ministro Luiz Fux é desrespeito ao Parlamento e demais poderes. O que desrespeita mesmo os poderes e a República é ser matriculado no setor de propinas da Odebrecht.

Lula surdo
A notícia de que Luiz Inácio Lula da Silva está usando aparelho de surdez nos dois ouvidos está gerando memes nas redes. A mais hilária diz que diante do fato, as vaias dirigidas ao chefe do PT terão que ser feitas em libras.

Como sempre
Todo ano é a mesma coisa. O veraneio rola nos litorais, apinhados de gente de todas as bandas do estado e também do resto do País, mas a blogosfera politiqueira insiste em mostrar alpendres e varandas com políticos decadentes.

No vácuo
O deputado Hermano Morais circulou quarta-feira pelos points do Beco da Lama, trocando impressões com a fauna cultural do lugar. Sabedor da fragilidade da esquerda na eleição por vir, é bom interagir no ambiente dela.

Zé & Raimundo
Em 2014, os ícones nordestinos Fagner e Zé Ramalho gravaram um CD ao vivo e tiveram um desentendimento ao final do show quando o segundo abandonou o palco e deixou o primeiro cantando sozinho “Borbulhas de Amor”.

Tudo em paz
Amigos de longa data e vizinhos, Zé e Raimundo estão de boas de novo e expressaram isso em seus perfis do Instagram. Postaram fotos juntos com textos: “os campeões de volta à resenha” e “Esses irmãos não se largam”.

Remontada Natal
Temporada boa de resgates históricos no campo cultural. O músico Lola comandando as tropas do Festival do Forte, Eugênio Cunha remontando a Bandagália, e Cellina Muniz desencavando a história do humor na imprensa.

Os imbecis
Numa noite em que os campeonatos carioca e paulista abriram com peladas indignas de nota, o clássico potiguar surpreendeu em emoção e em fome de gol. Mas alguns torcedores doentes escolheram se agredir a exaltar os times.