Curta metragem “Dionísia – Poema além da floresta” mostra como Nísia Floresta começou sua trajetória de luta

Publicação: 2021-02-23 00:00:00
Tádzio França
Repórter

Não se nasce uma mulher à frente do seu tempo, torna-se uma. Dionísia Gonçalves Pinto (1810-1885) entrou para a história como Nísia Floresta Brasileira Augusta, ativista pioneira dos direitos femininos no século 19, culta, e dona de seu destino – algo raro pra época. Mostrar como essa potiguar revolucionária desabrochou em sua trajetória de luta é a intenção de “Dionísia – Poema além da floresta”, curta-metragem dirigido por Nilson Eloy, com previsão de lançamento no segundo semestre do ano. A produção usa atores e cenários originais para voltar no tempo e contar uma história que muita gente ainda não conhece.

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Pode-se dizer que “Dionísia” é um filme de formação. A trama se passa entre 1817 e 1824, período em que a futura escritora vivia o auge da infância e seguia para o começo da adolescência, dos sete aos 14 anos de idade. “Preferi abordar essa fase da vida de Nísia para que o público possa compreender de onde surgiu a mulher que hoje conhecemos. As pessoas que estudam sua obra sabem que ela era abolicionista, contra a escravidão, contra a condição escrava do índio no país, feminista, mas ninguém sabe como ela adquiriu esses pensamentos e sentimentos”, explica Nilson à TRIBUNA DO NORTE.

No filme, o diretor mostra um pouco de sua visão a respeito do que teria contribuído para a formação do intelecto humanitário de Nísia. “O roteiro deixa claro que sua família contribuiu muito para essa formação, principalmente através de seu pai, Dionísio, que possuía o mesmo nome de batismo da filha”, diz. Nísia era filha do advogado português Dionísio Gonçalves Pinto, e da potiguar Antônia Clara Freire, herdeira de umas das famílias influentes da região. Viviam no sítio Floresta, em Papari, vila que ganharia seu nome séculos depois.

Créditos: DivulgaçãoCurta-metragem é dirigido por Nilson Eloy em cenários originaisCurta-metragem é dirigido por Nilson Eloy em cenários originais

Nilson Eloy explica que a diversas convulsões sociais do período atingiam a família de Nísia e, por sua vez, também a sua personalidade. Na época, o Brasil estava prestes a deixar de ser colônia, e as lutas pela independência eclodiam por toda parte. “Os reflexos da Revolução de 1817 (movimento republicano de origem pernambucana) e o que ela representou para a família de Nísia são mostrados no curta-metragem, quando da tentativa de assassinato de seu pai”, conta.

“O filme mostra uma menina que é fruto de uma família que estava fora dos padrões comportamentais daquela época. O que a tornou, desde cedo, alguém contestadora, determinada e segura de si”, diz.  Nilson acredita que o fato de Nísia ter sido uma mulher divorciada aos 14 anos de idade é algo que reflete até hoje nos preconceitos das pessoas que vivem na região onde ela nasceu, há mais de 200 anos. “Os moradores passaram décadas ouvindo falácias a respeito dela. Acho que até hoje a separação de Nísia ecoa nas paragens do município como algo absurdo e fora dos padrões comportamentais de uma mulher ‘decente’”, afirma.

Créditos: DivulgaçãoA atriz Isadora Gondim interpreta Dionísia aos 14 anos de idadeA atriz Isadora Gondim interpreta Dionísia aos 14 anos de idade

Questões de época
Para ambientar a época remota em que Nísia Floresta viveu, a equipe do filme procurou locações em cenários originais, como as fazendas Olho d’Água e Lagoa do Fumo, no município de São José de Mipibu, ambas com mais de 200 anos, e que preservam suas características coloniais. Nilson ressalta a dificuldade que é filmar uma produção de época, mesmo pequena. “É algo que requer muita pesquisa para que nada saia errado ou muito diferente do original. Além dos estudos anteriores ao roteiro, contamos principalmente com a ajuda das equipes de arte e figurino”, diz.

As cenas divulgadas do filme até o momento mostram o capricho nas ambientações e no figurino, mas não revelam os empecilhos com os quais a equipe esbarra – principalmente com a modernidade. “Um desafio extra é se desviar dos sinais dos tempos modernos, como as fiações elétricas, o arame farpado (que não existia na época), etc. A gente tem que sair cortando, disfarçando, não dá pra apontar a câmera pra qualquer lugar. Tem que tirar objetos de lugares, disfarçar as tomadas, é uma loucura”, conta.

O diretor enfatiza que, mesmo sendo uma ficção, e podendo contar a liberdade poética, procurou ser o mais fiel possível ao início do século 19. Pra montar o roteiro, ele contou com a obra escrita da professora Constância Lima Duarte, além da consultoria do professor Luiz Carlos Freire, ambos estudiosos da vida e obra de Nísia Floresta. Devido ao orçamento reduzido, o filme foi rodado em cinco dias, entre. 29 e 31 de janeiro, e 13 e 14 de fevereiro. Segundo ele, a idéia vinha sendo amadurecida há seis anos.

Créditos: DIVULGAÇÃOObra procurou ser bastante fiel ao início do século 19, no EstadoObra procurou ser bastante fiel ao início do século 19, no Estado

Elenco
No elenco principal estão Titina Medeiros, como Antônia Clara (mãe de Nísia), Rogério Ferraz, como Dionísio (pai), Alice Ferraz, como Dionísia aos sete anos, e Isadora Gondim, como Dionísia aos 14 anos. Também compõem o elenco Thazio Menezes, Stefany Tavares, Alex Benigno, Nilson Eloy, Camilla Natasha, Thalita Vaz, João Gabriel Medelima, Gabriel Tavares, Doc Câmara, Enio Cavalcante e Paulo Lima Firmino. O projeto conta com recursos da Lei Aldir Blanc, através do município de Nísia Floresta (Secretaria de Cultura e Turismo) e do Estado, através da Fundação José Augusto.

O filme está agora na fase de edição. A idéia é que ele seja lançado durante o Festival Literário de Nísia Floresta, em outubro. O evento é organizado pela secretaria de cultura do município, que já sinalizou o interesse de que a exibição de estréia seja no festival, com direito a presença de figuras nacionais importantes. Nilson também deseja que o filme tenha vôos mais altos, e pretende inscrevê-lo em festivais audiovisuais Brasil e mundo afora. “Por isso mesmo ele tem 20 minutos, para que possa participar desse tipo de evento”, ressalta.

Apesar de ser uma figura histórica para o movimento feminista brasileiro, Nísia ainda não é reconhecida no Rio Grande do Norte como se deve, na opinião de Nilson. “Infelizmente, ela ainda é mais ovacionada na Europa do que no próprio lugar de onde saiu. Existe muita ignorância, que se escuta da boca dos próprios moradores da cidade de Nísia”, afirma. Ele espera que o filme contribua para mudar esse cenário e leve a inspiração da potiguar para mais gerações. 










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