Custo da Ivermectina varia até 100% nas farmácias de Natal

Publicação: 2020-06-16 00:00:00
Ícaro Carvalho
Repórter

O medicamento adotado pela Secretaria Municipal de Saúde de Natal (SMS Natal) para auxiliar no tratamento à Covid-19 em seu mais recente protocolo, o antiparasitário Ivermectina, está se esgotando rapidamente nas farmácias e drogarias de Natal. Nas maiores redes droguistas que atuam no Rio Grande do Norte, a medicação tem variação de 100% no preço de uma caixa, pela qual é cobrado de R$ 20 a R$ 40. Na maioria delas, o medicamento não passa mais de uma hora nas prateleiras. Apesar da procura desenfreada, não existem estudos conclusivos quanto à eficácia da Ivermectina na prevenção e tratamento da infecção causada pelo novo coronavírus.

Créditos: Adriano AbreuFarmácias e drogarias fixaram cartazes alertando clientes sobre falta da medicação nos estoques das redes na maioria das cidadesFarmácias e drogarias fixaram cartazes alertando clientes sobre falta da medicação nos estoques das redes na maioria das cidades


Ao longo da semana passada, a TRIBUNA DO NORTE mapeou pelo menos 20 farmácias localizadas em Natal e Região Metropolitana à procura do medicamento. Algumas delas não recebiam a Ivermectina há meses e, em outras, tem chegado semanalmente. Os preços variam  da quantidade de comprimidos  em uma caixa e se o medicamento é genérico ou não. Atendentes das farmácias e drogarias consultadas informaram  que algumas redes droguistas não possuem o fármaco em nenhuma unidade. Em alguns casos, a venda é limitada a duas caixas por cliente.

Em farmácias de manipulação, o preço é mais barato. No entanto, os moradores de Natal têm esbarrado na alta procura e na demanda reprimida por parte dos laboratórios. Em uma dessas farmácias contatadas pela reportagem, o preço do pacote do remédio, com seis comprimidos, para uma pessoa de 75kg, seria R$ 14, por exemplo.  

Há quem tente vender a medicação de forma clandestina em Natal. Uma dupla foi presa na na semana passada, na BR-101 Sul, nas proximidades de um shopping, com 50 caixas da Ivermectina, que estavam sendo vendidas por até R$ 100 cada. Segundo informações da Polícia Rodoviária Federal (PRF), que efetuou a prisão da dupla, os homens anunciaram a venda do remédio em redes sociais, o que levou a uma denúncia anônima. A carga do medicamento havia sido comprada em João Pessoa, na Paraíba.

Conforme a PRF, os homens foram detidos e encaminhados com o remédio para a Delegacia de Plantão da zona Sul, em Natal. O responsável pelo medicamento foi submetido à assinatura de um Termo Circunstanciado de Ocorrência (TCO), pelo crime previsto no artigo 132 do código penal, que diz “expor a vida ou a saúde de outrem a perigo direto e iminente”. O homem foi liberado. O crime prevê pena de detenção, de três meses a um ano, se o fato não constitui crime mais grave.

Alerta
Apesar de o medicamento estar sendo utilizado pela Secretaria Municipal de Saúde (SMS) em seu protocolo, em casos específicos, o Conselho Regional de Medicina do Rio Grande do Norte (Cremern) emitiu comunicado alertando a população potiguar sobre “os riscos da automedicação, do sensacionalismo e da autopromoção nesse momento delicado de pandemia”.

“Entende-se como automedicação o uso de medicamentos por iniciativa própria ou através da aquisição de receitas distribuídas de forma indiscriminada sem que o ato médico tenha sido concretizado. É uma atitude desaconselhável que resulta em riscos para a saúde”, diz a nota. “Repudiamos toda e qualquer postura sensacionalista que vise a autopromoção e que interfira no que há de mais importante no processo do tratar que é a relação médico/paciente e o ato médico que a envolve”, acrescentou.

Especialista aponta riscos para as grávidas e bebês
O diretor-geral do Instituto Santos Dumont (ISD), especialista em medicina fetal e instrutor nacional da Estratégia Zero Morte Materna por Hemorragia Pós-parto da Organização Pan-Americana da Saúde/Organização Mundial da Saúde (OPAS/OMS), Reginaldo Freitas Júnior, alertou que mulheres grávidas não devem usar Ivermectina - substância que passou a ser adotada pela Secretaria de Saúde de Natal no combate à Covid-19 e acabou levando a população a uma corrida às farmácias. 

Créditos: Arquivo TNEspecialista aponta risco do uso irrestrito da ivermectina para saúde das grávidas e dos bebêsEspecialista aponta risco do uso irrestrito da ivermectina para saúde das grávidas e dos bebês


“Essa é uma droga que pode atravessar a barreira placentária, e pode ser tóxica para o fígado da mãe e tóxica para o fígado do bebê. No momento, não há segurança o suficiente para recomendar o uso da ivermectina na gravidez”, disse o especialista. Ele acrescentou que a droga nunca foi testada em grávidas.

Além de não ter eficácia comprovada para tratar Covid-19 em humanos (apenas pesquisas in vitro, ou seja, com células, têm resultados divulgados até agora), o uso do produto sem orientação médica é contraindicado – na própria bula – não só para mulheres grávidas ou que estejam amamentando, mas também para crianças com menos de 5 anos de idade. 

Os fabricantes alertam ainda que ele “deve ser administrado com cautela a pacientes em uso de medicamentos que deprimem o Sistema Nervoso Central, como medicamentos para o tratamento de insônia, ansiedade, alguns analgésicos ou mesmo bebidas alcoólicas”. Informam, ainda, que diminuição da pressão arterial (principalmente quando associada ao levantar-se) e piora da asma brônquica foram relatadas desde o início da comercialização da droga, em vários países”.

O uso da substância, segundo Freitas Júnior, também pode trazer uma perigosa sensação de segurança para as grávidas e levá-las a comportamentos de risco, do tipo “ah, eu posso fazer isso porque estou tomando ivermectina”. “Isso preocupa e merece o alerta. De tudo o que a gente já estudou e já provou, são as medidas gerais, mais simples, como lavagem de mãos, a etiqueta da tosse, a etiqueta do espirro, e o distanciamento social que têm se mostrado mais efetivas”.

Ele ressalta que o uso de máscaras de tecido é essencial em todas as situações em que for indispensável sair de casa, não só para consultas de pré-natal ou exames. “O cuidado com a lavagem das mãos, com a proteção dos olhos, da mucosa do nariz, da mucosa da boca, precisa ser permanente”, pontuou o especialista.

Neste mês, ao menos duas mulheres morreram após o parto no Rio Grande do Norte  em casos associados à Covid-19 registrados em Natal e Mossoró.

SMS Natal faz busca ativa por grupos de risco
A SMS Natal tem adotado o uso do antiparasitário ivermectina no seu protocolo médico desde o início de junho. A pasta, inclusive, iniciou um mapeamento de pessoas inseridas nos grupos de risco para a Covid-19 visando aplicar o medicamento em usuários classificados com comorbidades. O trabalho da busca ativa começou nos últimos dias e a distribuição do remédio será a partir desta semana.

O capítulo 11 do documento da SMS Natal, que trata da quimioprofilaxia para Covid-19, cita que “estudos in vitro (laboratório) mostram que a ivermectina reduz a aplicação de RNA viral do SARS-COV-2. Considerando seu perfil de segurança farmacológico, larga experiência de uso clínico em outras doenças, custo e comodidade posológica, esse medicamento revela-se como uma opção a ser utilizada não somente para tratamento, como também para profilaxia, somada a outras intervenções não medicamentosas”. 

A proposta descrita no protocolo, é de que o esquema profilático seja sugerido para profissionais de elevado risco de exposição (profissionais de saúde, de segurança, bombeiros) e para indivíduos com fatores de risco para desenvolverem a forma grave da Covid-19.  A Ivermectina não é indicada para nutrizes e gestantes.

O protocolo da SMS Natal também prevê o uso da hidroxicloroquina e da cloroquina nos pacientes internados nas unidades de saúde da capital potiguar. “A decisão é 100% do médico. Ele não é obrigado a usar o protocolo. Assim também como o paciente tem também o direito de querer fazer o uso desses medicamentos”, informou George Antunes, titular da SMS Natal, acrescentando que um termo de consentimento por parte do usuário precisará ser assinado concordando que fará uso dos remédios.

A Secretaria de Estado da Saúde Pública (Sesap/RN), não recomendou nenhum desses três medicamentos em seu mais recente protocolo, publicado no dia 28 de maio. “A prescrição de medicações com potencial antiviral (cloroquina, hidroxicloroquina e ivermectina, por exemplo) para SARS-COV-2 ainda possui baixo respaldo científico. Estudos que avaliem o potencial benefício dessas drogas ainda estão em andamento. Deve-se evitar o uso de corticosteróides nessa fase de replicação viral”, detalha o documento.

A SMS Natal confirmou que irá começar a distribuir a medicação ao longo desta terça-feira, dia 16. A pasta efetivou a compra de mais 50 mil caixas da medicação, cuja data de chegada não foi detalha, nem como a distribuição.