Dácio Galvão revela o Cascudo Poeta

Publicação: 2019-05-29 00:00:00 | Comentários: 0
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Cínthia Lopes
Colaborou Ramon Ribeiro

Na década de 20, Luís da Câmara Cascudo ainda ensaiava os primeiros passos no caminho que o levaria a ser reverenciado como um dos maiores estudiosos da cultura popular e das tradições brasileiras. Nessa época, o potiguar também era um grande leitor de poesia, entusiasta do Modernismo e das Vanguardas, e, não raro, se aventurava nos versos. Esquecida por muito tempo, essa faceta poética de Cascudo ganha agora um abrangente estudo em livro. “O Poeta Câmara Cascudo – Um Livro no Inferno da Biblioteca”, de autoria do escritor e gestor cultural Dácio Galvão, mostra não apenas os poemas que se tem conhecimento de Cascudo, mas os analisa, e vai além, revelando também o trabalho como tradutor (ele traduziu poemas de Walt Whitman) e seu perfil de leitor de poemas.

Dácio Galvão, escritor e jornalista
Dácio Galvão, escritor e jornalista

Resultado da tese de doutorado de Dácio, “O Poeta Câmara Cascudo – Um Livro no Inferno da Biblioteca” traz ainda, encartado, uma nova tiragem do disco “Brouhaha”, com versos de Cascudo musicados por grandes nomes da MPB, como Arrigo Barnabé, Walter Franco, Raimundo Fagner, Xangai, Alceu Valença, além de posfácio do professor da USP e estudioso de Cascudo, Marcos Silva. A obra está sendo publicado pelo Selo Fecomércio e será lançado na próxima quinta-feira (30), a partir das 18h30, no salão de eventos do Sesc Rio Branco (Cidade Alta).

O VIVER conversou com o autor para saber detalhes da pesquisa. Na entrevista, Dácio fala da ligação de Cascudo com vanguardas nacionais e internacionais de sua época, da relação com Mário de Andrade, da admiração pela poesia do norteamericano Walt Whitman, dentre outros temas.
O que “O Poeta Câmara Cascudo – Um Livro no Inferno da Biblioteca” traz de diferente em relação a outros estudos sobre o perfil poeta de Cascudo?

O lance é legitimar o poeta e o leitor de poesia. A poesia perpassa seu universo criativo. Formal ou informal no seu campo da produção literária. Os anos de 1920 foi demarcatório. Atravessou os de 1930 e na década seguinte Câmara Cascudo operou as primeiras traduções no Brasil do vanguardista Walt Whitman. Nos anos de 1950 aparecia o poema “Maria Luíza”. Em 1959, publicou artigo na revista de cultura Cactus, editada em Natal, propondo espaço diferenciado para a poesia.

Poderia explicar o por que dessa poesia estar no “inferno da Biblioteca”?
Cascudo programou editar um livro de poemas. Mas não aconteceu. Tratou-o com entusiasmo fazendo interlocuções com craques do movimento modernista: Mário de Andrade (MA), Carlos Drummond, Manuel Bandeira, Ribeiro Couto. Depois de idas e vindas, eis o que MA lhe escreve em 1926: “E repito o ultimatum: você está na obrigação de continuar a escrever versos e se não quiser, está de uma ou de outra maneira na obrigação de mandar ou originais ou cópias dos versos que já tem feitos. Dou minha palavra que nada publicarei sem licença de você”. Além do estímulo, MA fizera reparos e sugestões aos poemas do amigo. E a resposta: “O que me enfureceu foi o conselho de 'modificar’... V. ainda  apresentou emendas  ao  projeto...  E  técnicas.  Bandido  complicado  em  erudito... Aqui pelo norte nós somos furiosamente, liricamente talentosos. Apontar uma falha é desmantelar o castelinho. E o meu veio abaixo como se fosse de poeira. Estou desanuviado. Mais lépido. Com a impressão de ter vencido. E venci numa convicção às avessas. Devo a V. Meti o livro de versos [num] envelope e seputei-o no inferno da biblioteca. Creia que estou sinceramente grato”. Até a presente data não se encontrou o volume que CC mostrou para MA. Mas Cascudo tinha convicção do que queria na criação dos seus poemas. Não absorveu absolutamente nenhuma sugestão ou crítica de Andrade!

Por que a poesia despertou menos interesse dos intelectuais e estudiosos da obra cascudiana?
A poética de CC está sendo depurada. Mais vale qualidade que quantidade! Rimbaud fez escassa obra capital. Jorge Fernandes, um livro. Décio Pignatari alertou para distância entre a qualidade (produção) e a quantidade (consumo). A fortuna crítica sobre a poesia cascudiana ainda é reduzida. O historiador e professor na FFLCH/USP, Marcos Silva, que assina o posfácio no livro, afirma que agora se “amplia o debate sobre relações na obra de Câmara Cascudo entre ensaísmo e poesia. E aprofunda o estudo a respeito dos vínculos entre esse poeta e a vanguarda do Modernismo brasileiro.” É esperar para ver qual seu lugar.

Ao contextualizar a poesia de Cascudo produzida nos anos 20 com as vanguardas da época, o que é possível reconhecer e extrair dessa produção?
Fundamentalmente a identificação de um escritor antenado com as discussões estéticas mais avançadas. Fazendo uso e abuso. O poema “Brasil de Madrugada” publicado em Portugal emplaca bem essa relação. Ao opinar sobre método de abordagem crítica em 1934, cita Tristan Tzara, o romeno dadaísta: “Tzara diz que a ausência do método é um método e muito mais simpático.” Ora, num mundo provinciano de Natal onde não havia a internet, ele estava a produzir os poemas “Feitiço” e “Banzo” de temática afro-brasileira. Poemas da colonização. Do cinema mudo. Do lundu, do shimmy... Namorando a poesia japonesa. A cubana, a nicaraguense, a caligramática de e.e.cumings. Sua poética é como marco zero! [no Rio Grande do Norte].

Quantos poemas são atribuídos a Cascudo? E sobre o que tratavam?
O livro “Brouhaha” até o momento não foi encontrado. Temos notícias de 11 poemas. Dois não conhecemos os versos: “Feitiço” e o “Sentimental epigrama para Prajadipock, Rei de Sião”.  Os analisados no 1º Capítulo, o “Poema 1”, “Poema 2”, “Poema 3” e “Não gosto de sertão verde”, sinalizam o Brasil com raízes no mundo sertanejo. Os que foram lidos no 2º capítulo, “Brasil de Madrugada” e “Banzo”, indicam a investigação de temas da colonização na cultura brasileira. Os poemas analisados no 3º capítulo, “Lundu de Collen Moore” e “Shimmy”, revelam a perspectiva do poeta em relação à sua contemporaneidade, na periferia do capitalismo, com a modernidade representada na cultura norte-americana a exercer forte influência no Brasil. O “Maria Luíza” aparece em 1953, dedicado a amiga da família.

Acredita que as críticas de Mário e Bandeira suprimiu a criação de Cascudo, já que ele só voltou a escrever versos nos anos 50?
A decisão de não mais publicar o livro Brouhaha (Bruaá como grafou Drummond) quando já havia até mesmo publicizado no Jornal do Comércio pernambucano contando com o adjutório de Joaquim Inojosa.... é de complicada aferição concluir linearmente a atitude do escritor. Não acredito que as críticas de Bandeira foram decisivas. As críticas de MA, circunstancialmente o desestimulou. O que depreendo de mais importante: os poemas permaneceram e o resto sobra como pano de fundo.

Como era o Cascudo leitor de poesia?
Capaz de enxergar um poeta cantador negro alforriado, o Fabião das Queimadas. O leitor de olhos atentos que viram e fixaram nos anos de 1930 a mulher violeira-repentista, Maria Tebana. O leitor capaz de reinventar na língua-mãe um poeta da calibragem de um Walt Whitman ou um escritor da densidade de um Dante Alighieri.  Olhar que ao inferir a operação tradutora de parte fundante de “Folhas de Relvas”, ou da “Divina Comédia”, conseguiu explorar o processo da  tradução-invenção. Transcriou.

Serviço
Lançamento do livro “O Poeta Câmara Cascudo – Um Livro no Inferno da Biblioteca”, de Dácio Galvão

Dia 30 de maio, às 18h30

Sesc Rio Branco (av. Rio Branco, 375, Cidade Alta)





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