Dádiva aos 70

Publicação: 2017-12-07 00:00:00 | Comentários: 0
A+ A-
Ramon Ribeiro
Repórter

Numa conversa rápida com a poeta e pesquisadora Diva Cunha, a cabeça sai estalando de ideias. O papo é quase uma aula informal, tamanha são as referências literárias que brotam. E assim como surgem nas conversas, as referências aparecem aos montes no mais novo livro da potiguar. Publicado pela editora Una, da amiga poeta Marize Castro, “Dádiva” traz ainda temas recorrentes na trajetória da autora, agora sob a ótica de uma mulher mais amadurecida. Às vésperas de completar 70 anos de idade, Diva lança “Dádiva” nesta quinta-feira (7), a partir das 18h, na Academia Norte-Riograndense de Letras. A entrada é franca.

O título: Brinco com a palavra dádiva, que significa presente, e pode ser vista também como da Diva
O título: 'Brinco com a palavra dádiva, que significa presente, e pode ser vista também como da Diva'

O título da obra mostra logo de cara uma das característica da autora, o bom humor. Durante a entrevista ao VIVER, seu sorriso esteve sempre presente. “Pensei num título lúdico. Brinco com a palavra dádiva, que significa presente, e que também pode ser vista como 'da Diva'. Tem essa duplicidade, de representar um presente que recebi ou que estou dando”, diz a poeta, que também sugeriu a imagem de capa, uma concha. “Sou litorânea, estou sempre ouvindo a voz do mar”.

O livro está dividido em três partes: “Multiversos”, “Ronda Matutina” e “Legado”. Todos os poemas foram criados depois de seu último livro lançado, “Resina”, de 2009. A primeira parte reúne 47 poemas sobre os mais diversos assuntos. Ela fala de Natal, sua cidade de origem, Espanha, onde viveu uma temporada, homenageia algumas pessoas queridas, expõe algumas impressões femininas, descreve acontecimentos prosaicos.

“Retomo temas de outros livros, mas com um olhar amadurecido, apresentando novas perspectivas. Vou completar 70 anos. A gente passa a olhar pra trás e vê que o tempo é efêmero”, comenta. Outra de suas marcas, a sensualidade no jogo de palavras, aparece em algumas cenas, assim como a ironia. “Gosto de ironizar em meus poemas. O humor é fundamental. E sensualidade sempre tem que ter nos meus livros. Eros é vida”.

Na segunda parte de “Dádiva”, a poeta potiguar apresenta seu poema mais longo já escrito, “Ronda Matutina”. Nos versos surgem referências a autores como Raul Bopp, Gonçalves Dias, Cecília Meireles, Manuel Bandeira, até estrangeiros como a russa Anna Akhmátova. “Faço um passeio pela memória que tenho de tudo que vi na poesia, desde os livros escolares dos anos 50. Dialogo com esses poetas. É um poema grande, bastante marcado pela intertextualidade”, explica.

Na terceira parte Diva faz um passeio por Natal, reencontra parentes e amigos, revelando bastante da sua memória afetiva. A Rua do Fogo, hoje chamada rua Padre Pinto, na Cidade Alta, onde morou até os 20 anos, quando casou e saiu de casa, foi tratada com carinho. “Paulo de Tarso chegou a comentar que nunca uma rua deu tantos poemas”, conta a autora, que hoje vive no Tirol.

Momento atual
Se tem um hábito que Diva não perdeu foi o de escrever seus poemas em caderninhos e só depois passar para o computador. Seu processo criativo requer silêncio, por isso prefere se trancar no quarto e trabalhar por horas, ao invés de digitar na varanda de seu apartamento, muito convidativa. Para ela, o processo de burilar os poemas são fundamentais.

“Ninguém tira poesia do nada. Tem que ter leitura. Tem que se estar estudando poesia. Poesia é trabalho. João Cabral dizia muito isso. Só a emoção não sustenta”, argumenta a potiguar, se referindo a algo que ela sente muito nos trabalhos de poetas atuais. “Parece professoral, mas quero dizer que também reconheço o deleite de se escrever. Arte também tem que dar prazer. Mas o poeta precisa polir o que escreve”.

Professora aposentada da UFRN, quando não está empenhada num novo projeto de livro Diva gosta de alugar filmes nas locadoras que ainda existem na cidade, já que a programação de cinema não lhe agrada muito. Em casa, a televisão passa a maior parte do dia desligada. Apenas canais como Arte1 e Canal Curta ganham sua atenção. Música ela não escuta quando está lendo – e ela lê bastante. “Tira a concentração e me dá vontade de beber”, diz.

Dentre as leituras de momento, está “Lima Barreto – Triste Visionário”, de Lilia Schwarcs, que a despertou para reler as obras do autor, como “O Triste Fim de Policarpo Quaresma”. Outras leituras são “A conquista da América”, de Tzvetan Todorov, e “A vida secreta das árvores”, de Peter Wohlleben.

Serviço
Lançamento do livro “Dádiva”, de Diva Cunha
Dia 7 de dezembro, às 18h
Academia Norte-Riograndense de Letras
Preço do livro: R$ 30


continuar lendo



Deixe seu comentário!

Comentários