Jornal de WM
Da Intentona Comunista
Publicado: 00:00:00 - 24/11/2013 Atualizado: 13:59:54 - 23/11/2013
Está fazendo 78 anos da Intentona Comunista, deflagrada em Natal, no começo da noite de 23 de novembro de 1935. A subversão que sacudiu o governo de Rafael Fernandes teve início num quartel do Exército e se espalhou, na mesma noite, por toda a cidade. Durou três dias e meio. Acontecia o primeiro governo comunista na América do Sul. Há muita coisa escrita e publicada sobre o episódio. Tema para historiadores, sociólogos, cientistas políticos e ficcionistas. Por estas bandas potiguares, vários autores se debruçaram sobre o acontecimento que rendeu também no campo da ficção. Nei Leandro de Castro, por exemplo, escreveu o romance As Dunas Vermelhas.

Uma das primeiras publicações sobre a Intentona é do advogado João Medeiros Filho, à época, chefe de Polícia do Rio Grande do Norte. Foi preso pelos comunistas e ameaçado de fuzilamento. O livro tem o título de  Meu Depoimento e foi publicado em 1937. Em 1980, João Medeiros publicou um segundo livro: 82 Horas de Subversão (Intentona Comunista de 1935 no Rio Grande do Norte), com prefácio de Edgar Barbosa. Na abertura, o autor faz um esclarecimento:

“O título – ’82 Horas de Subversão’ compreende o período de  tempo entre 19:00 horas do dia 23 às 5:00 do dia 27 de novembro de 1935, começo e fim do levante, ao que se seguiriam as providências de “limpeza” após a fuga do grosso dos militares e civis nele comprometidos”.

O  professor Homero Costa também escreveu sobre a insurreição de Natal. Foi tese de uma dissertação  de mestrado em Ciência Política feito na Unicamp e depois transformada no livro A Insurreição Comunista de 1935 – Natal, o primeiro ato da tragédia, publicado em 1995 pela Cooperativa Cultural da UFRN. A Intentona também está nas páginas do livro de memórias do desembargador João Maria Furtado, Vertentes. O capítulo tem o título de “O levante vermelho”.

Em seu livro História do Rio Grande do Norte, Luís da Câmara Cascudo tira um fino sobre o assunto. Coisa de apenas 5 linhas. Mas foi no seu livro de memórias “O Tempo e Eu”, de 1967, relendo esta semana, que fui encontrar o mote para a coluna de hoje. No capítulo “No rastro das velhas imagens”, Cascudo faz um perfil do monsenhor João da Matha Paiva, que foi vigário-geral da Diocese de Natal, professor do Atheneu, deputado estadual, presidente da Assembleia Constituinte (1935/37) e vice-governador do Estado. Está lá o monsenhor João da Matha, envolvido, sem querer, na Intentona Comunista. Conta Cascudo:

Monsenhor Matha

“Na noite de 23 de novembro de 1935 irrompeu o movimento comunista em Natal. Todas as autoridades estavam no Teatro Carlos Gomes, assistindo a uma festa escolar de premiação. O governador Rafael Fernandes e o mons. João da Matha eram os mais procurados pelas patrulhas vermelhas, enchendo a cidade com o estridor das descargas e a confusão dos gritos alarmadores. As pessoas mais influentes conseguiram se refugiar nas moradas da av. Sachet, inclusive o mons. Matha, que encontraria guarida em prédio próximo.

Durante o resto da noite, aproveitando o tumulto e o tiroteio incessante, o cônsul do Chile, Carlos Lamas, pregou na fachada de sua residência um cartaz anunciando ao Consulado do Chile, apregoando o direito de exterritorialidade respeitada pelos chefes comunistas. Convenceram ao mons. Matha que deveria mudar de roupa e transferir-se para o Consulado, duas casas além. Depois de algumas hesitações, mons. Matha vestiu o traje civil, deixando o hábito talar na cama, depois de beijá-lo respeitosamente. Ao sair, da porta, teve uma exclamação de revolta e protesto: - Eu estou abandonando Nosso Senhor! Estou traindo o meu Deus! Sou seu ministro! Devo morrer por Ele!’

Desvestiu-se. Calçou as meias roxas, envergando a batina negra de orla e botões lilases, meteu na cabeça o chapéu eclesiástico, e, de passo firme, decidido, impávido, atravessou o corredor e saiu à rua, disposto ao sacrifício. Felizmente a Sachet estava quase deserta. Ninguém notou a passagem lenta daquele padre, Vice-Governador do Estado, que calmamente alcançou a casa de Carlos Lamas e aí permaneceu até a manhã de 27, quando os comunistas dispersaram-se ante a aproximação das forças militares, vindas da Paraíba.

Não negara a Jesus Cristo em hora suprema e cruel. ‘Essa atitude define o Homem e consagra o Sacerdote’.”

A família Lamas

Lendo Cascudo agora, me lembrei de uma carta que Aluízio Alves me escreveu em 10 de abril de 1984. Assim:

“Woden:

Fui ontem à tarde levar o velho Chico Lamas à última morada. E fiz essa dolorosa constatação: a cidade de Natal ainda não fez justiça à família Lamas.

Figuras importantes no desenvolvimento comercial. Participaram de todos os acontecimentos sociais. Estimularam os esportes nos seus vários setores. E deram à vida cultural contribuição inestimável.

O Rio Grande do Norte tivera uma orquestra sinfônica no governo Alberto Maranhão, com os recursos oficiais. Carlos Lamas fez uma, anos depois, com a ajuda de poucos e, sobretudo, com recursos e trabalho seu. Quando se fizer a história do rádio no Rio Grande do Norte, Carlos Lamas será honrado como o grande pioneiro, organizando e mantendo, com enormes sacrifícios, a Rádio Educadora, agora Rádio Poti.

Foi uma família querida por todos os que com ela conviveram. Mas falta a homenagem que caracterize a gratidão da Cidade e do Estado.

Fiz essa reflexão na hora de levar a minha saudade ao Chico Lamas, cuja alegria, antes da morte, foi apagada pela doença prolongada.

Ajude, com a força de sua opinião, esse movimento de justiça. Um abraço,

Aluízio Alves”

Mais carta

A carta de Aluízio serviu de mote para uma outra de João Medeiros Filho, que ele me escreve logo no dia seguinte à sua publicação nesta coluna. Será assunto para o próximo domingo.

Prêmio São Paulo

Será amanhã o anúncio dos vencedores no Prêmio São Paulo de Literatura, patrocinado pelo Governo daquele Estado. É o mais valioso do país (200 mil reais). Entre os finalistas tem escritor nascido no Rio Grande do Norte: Antônio Salvador, totalmente desconhecido na província.

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