Cena Urbana - Vicente Serejo
Da intolerância
Publicado: 00:00:00 - 25/11/2021 Atualizado: 23:34:29 - 25/11/2021
Vicente Serejo
serejo@terra.com.br

Divulgação


Tenho resmungado, comigo mesmo, embora, às vezes, também neste mesmo canto de página, da intolerância que vem tomando conta do mundo. Virou uma pandemia e, no Brasil, exacerbada pela direita que depois de ficar anos calada pela pobreza de líderes, botou seus ódios de fora com a chegada de Jair Bolsonaro ao poder. Os sectários, acima das ideologias, não enriquecem em nada o debate político. Os polos discutem ideias, mas os extremos, quase sempre, vomitam estrupícios. 

A livre circulação de ideias, pensamentos, palavras e gestos são condenados ao linchamento das redes sociais e assim vamos perdendo a capacidade do debate saudável. Vivemos uma era feita de olimpíadas de confrontos. Tudo é motivo de disputas jurídicas, de condenações ou prisões. A palavra virou instrumento desmedido de ataque e a liberdade banalizou-se, a ponto de perder-se por motivos fúteis. Prisão virou vingança e o exercício da lei uma forma solene de poder absoluto.

Andamos tão assim, desumanizados, que há poucos dias a juíza da Segunda Câmara de Direito Público, Celina Kiyomi Toyoshima, negou recurso da Mitra Arquidiocesana de São Paulo pedindo que fosse permitido a cada igreja tocar seus sinos de acordo com a tradição de séculos. Não! Bradou, em sentença, a magistrada. A lei impõe o limite improrrogável de sessenta segundos, ou seja, um minuto, e é assim que a Mitra deve recomendar aos vigários e párocos de São Paulo. 

Aliás, por tocá-los livremente a Arquidiocese de São Paulo já foi multada em R$ 36,5 mil reais que a Justiça argumentou não poder dispensar. Ora, ora, fiquei pensando comigo mesmo naquelas badaladas no clamor glorioso da Sé de São Paulo, cercada por uma multidão, no histórico comício das Diretas, pedindo que a liberdade abrisse as asas sobre nós. Já esquecemos? Somos ingratos historicamente e reduzimos os sinos a um simples barulho que os vizinhos não suportam? 

Os tempos são outros e, nesses outros tempos, não vale mais a beleza do poema de Antônio Nobre, o poeta de ‘Só’, seu único livro que tem aqui em algumas edições, uma delas rara, da Livraria Tavares Martins, Porto, 1968, numerado e com o timbre dos herdeiros do poeta. É tão bonita no seu couro clássico que vê-la é ter o ímpeto de roubá-la e é muito natural. Tem aquele aviso, assim: “... tende cautela, não vos faça mal... que é o livro mais triste que há em Portugal”. 

Lembro ‘Os Sinos’, de Manuel Bandeira, no ritmo sonoro badalando no poema. Os sinos humildes de Santa Tereza, no tão pequeno poema de Zila Mamede e que Bandeira e Drummond incluíram na antologia dos quatrocentos anos do Rio. Como esquecer os dois artigos do padre João Medeiros Filho lembrando que sinos são anunciadores do Ângelus, e recomendados pelo Direito Canônico? E o belo aviso de Oswaldo Lamartine - “Os sinos são a voz da alma?” Tristes tempos...

ESTILO - Causou estranheza o comunicado do deputado-coronel André Azevedo de que não vai presidir a CPI da Arena das Dunas na mais importante reunião que é a aprovação do seu relatório. 

MISTÉRIO - Na opinião de um dos membros da CPI, o coronel alegou marcar cirurgia, mas sem qualquer caráter de urgência. Agora só uma CPI da CPI para se saber a razão verdadeira do gesto.

ANTES - O coronel teve posição de firmeza quando foi ao Tribunal de Justiça, com Mandado de Segurança, para garantir a CPI, quando esta foi engavetada pela Assembleia. Ao contrário de hoje.   

ADEUS - Jovem romancista e contista, nascido em 1980, Renato Essenfelder lança o primeiro livro de crônicas pela ‘Arte & Letra’, de Curitiba: ‘Ninguém mais diz adeus”.  E a crônica resiste.   

VALEU! - Os dias macios são assim: chegam de Portugal, onde vivem, sobrinhos queridos como Williams Nunes e Gina. Com livros, jornais e revistas. E a vida fica animada para os tios setentões.

INOVA - O mercado virtual fica 24 horas no ar. Por isso, a Estante Virtual lança a oferta do Black Friday: livros bem abaixo do preço de mercado, se comprados entre meia noite e cinco da manhã.  

AGENDA - O procurador Anísio Marinho Neto lança dia 7, na Ampern - Amintas Barros, 4175 - seu livro ‘Tribuna & Holofotes”. Na capa, no bronze solene, a figura de Themis, Deusa da Justiça.  

POESIA - Do poeta Márcio Simões, versos iniciais do poema ‘Conversão’, que sabem flagrar o falso nessa vida real: “Conheço tanto do fastio do sábio / quando provo da satisfação do simples”. 

AVISO - A Áustria, ícone do primeiro mundo, em lockdown, temendo a quarta onda da pandemia e a contaminação volta a crescer no Brasil. Natal anuncia que entre 9 e 12 de dezembro Natal terá o “maior carnaval fora de época do mundo”. A quem vamos cobrar, juridicamente, pelo controle? 

NADA - Duas verdades, assegura uma fonte de governo: Cipriano faz uma gestão burocratizada na pasta da saúde, mas que uma justiça seja feita: nada tem com a decisão do governo participar do Consorcio Nordeste e de transferir os recursos. Se a CPI for por ai, não vai encontrar culpa sua.

ALIÁS - A mesma fonte chega a afirmar que o silêncio de Cipriano Maia servirá muito mais para proteger o governo do que a ele mesmo. Se houve o uso de recursos federais para pagar folhas de pessoal, a lei já permitia esse percentual de livre aplicação. E o Tribunal de Contas já sabe disto. 

Os artigos publicados com assinatura não traduzem, necessariamente, a opinião da TRIBUNA DO NORTE, sendo de responsabilidade total do autor.

Plantão de Notícias

Baixe Grátis o App Tribuna do Norte

Jornal Impresso

Edição do dia:
Edição do Dia - Jornal Tribuna do Norte