Dória, o disparo

Publicação: 2021-01-20 00:00:00
Vicente Serejo
serejo@terra.com.br

Créditos: Divulgação

Esta coluna não precisa mudar de opinião sobre o político João Dória. Sempre o achou uma espécie de E.T. da política, por seu artificialismo. Um tipo pré-moldado, eivado daquele estilo que o separa dos políticos de referência de São Paulo, como Franco Montoro e Mário Covas, do tipo que quis encarnar. Nem por isso pode ser punido pela eficiência que demonstrou ao negociar a vacina Coronavac, causando irritação ao presidente Jair Bolsonaro e seus acólitos.
  
Na política, como na vida, punir a competência é o mais enganoso de todos os caminhos. O governo federal errou desde a primeira notícia da chegada do Covid-19 ao Brasil. E o próprio presidente virou um símbolo de contestação, não aos adversários, mas aos princípios científicos que a ciência recomenda no mundo e, no caso, neste país que, no continente, dispõe das duas mais importantes instituições de pesquisa e produção de vacinas contra epidemias e pandemias.

Um desastre público que vai da prosaica ‘gripezinha’, à ordem a laboratórios do Exército para a fabricação e distribuição de ivermectina e hidroxocloroquina, o deplorável exemplo de escancarado e impune charlatanismo. Nem que as substâncias produzissem os milagres da cura, nem assim, poderiam ser prescritas e ministradas sem ordem médica, no tal fajuta ‘tratamento preventivo’, como se a ciência pudesse ser submetida ao critério de uma bizarra ordem unida. 

Quem acompanhou a cena pôde constatar que o governador João Dória, à parte de sua inegável ousadia marqueteira, esteve muito melhor assessorado. O tempo inteiro. Soube muito cedo posicionar-se no terreno do qual não era íntimo, mas tinha, e ouviu, o assessoramento, a partir da experiência internacional do Instituto Butantan: acertou detalhes, fechou o contrato, cumpriu o combinado e não esqueceu de garantir ao Butantan o direito de fabricar a vacina.

Como negar ao governador o direito de ser o primeiro, ele que salvou o próprio governo federal, evitando a omissão injustificável? Vendo ser tratada com desdém de ‘vacina da China’, até ser proibida? Seria ferir a política que sabe esgrimir as formas de poder. O presidente não podia tentar subalternizar o governo de São Paulo, e nenhum outro, autonomia que o Supremo Tribunal Federal garantiu com base nos princípios desta infelicitada e ferida unidade federativa.    

Não há o que fazer. A vitória é do governador João Dória. O mérito da agilidade - aliada à inegável competência política e técnica - garantiu ao seu dedo indicador o direito de acionar o gatilho. Seu disparo levou o Ministério da Saúde a despertar do grave sonambulismo e ainda flagrou o amadorismo do contrato que anunciava a chegada ao Brasil de dois milhões de doses. Ontem, nos céus e nas ruas, os aviões e os caminhões levavam a Coronavac. Ora, fazer o quê? 

GESTO - Um gesto de elegância a visita do deputado Arthur Lyra a Henrique Alves quando da viagem a Natal. E mais elegante ainda foi saber fazê-la sem interesse político. Como amigo. 

ALIÁS - Lyra também ligou para o ex-senador Garibaldi Filho. Aos dois, Henrique e Garibaldi, trouxe o abraço do pai, o ex-deputado Benedito Lyra. A elegância sobrevive nos grandes gestos. 

VOTO - Como vota a bancada federal? As fontes dizem que Walter Alves vota em Baleia Rossi e de Natália Bonavides não se tem certeza do voto, mesmo o PT mandando votar Baleia Rossi. 

ERRO - A Cooperativa Cultural, UFRN, dispensou a presença de Wilson, o mais antigo e mais experiente de seus livreiros, aquele que anos e anos foi a melhor marca de atenção e eficiência. 

ESTILO - Uma gestão, se começa assim, esquece que cooperativa não é propriedade privada e atenta contra o próprio destino. E o conselho cala e consente na sempre cômoda conivência.   

TIRO - “O ser imoral que atende por Jair Bolsonaro forçou o jornalismo a deseducar e endurecer a linguagem...”. Jânio de Freitas, Folha de S. Paulo, no jornalismo de alta voltagem.

POESIA - De Horácio Paiva, poeta e tradutor, das suas terras nos longes de Taipu, alpendre da Vivenda da Conceição, nas cercanias do Mato Grande: “Nada como estar a sós com o passado”.

AVISO - De Nino, o filósofo melancólico do Beco da Lama, ao ouvir a história de um artista que enganou a freguesia como se fosse santo: “A melhor fantasia do Diabo é a de intelectual”.   

TESTE - A governadora Fátima Bezerra e os prefeitos estão diante de um grande teste que é cumprir, rigorosamente, os critérios de urgência e prioridade nesta primeira fase da vacinação. Basta o flagrante de um pistolão e o político - que já anda em baixa - pagará o preço do abuso. 

POESIA - Sábado que vem, coisa das dez da manhã, tem sarau na calçada do Sebo Vermelho, na Av. Rio Branco. Será o lançamento da segunda edição das ‘Cartas de Drummond a Zila Mamede’, com organização e introdução de Graça Aquino. Apoio cultural da Lei Aldir Blanc.

CANHÃO - O livro de Eduardo Cunha - ‘Tchau Querida, o Diário do Impeachment’ - tem Rodrigo Maia com um dos alvos para um petardo de canhão. Ele presta um serviço à história política ao revelar que Michel Temer foi o grande conspirador para derrubar Dilma Rousseff.    








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