Dança para romper as barreiras

Publicação: 2020-08-06 00:00:00
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Tádzio França
Repórter


O bailarino e coreógrafo Alexandre Américo se move mais uma vez para apresentar sua particular forma de dançar. O artista potiguar apresentará pela primeira vez em formato de live o espetáculo “Myoclonus”, nesta quinta-feira, às 18h30, em seu perfil pessoal no Instagram. Alexandre usa das limitações impostas pela epilepsia para construir uma coreografia repleta de poesia em movimento. Uma dança sobre romper barreiras e repensar o próprio espaço – algo que tem muito a ver com os dias de hoje.    

Créditos: Brunno MartinsO bailarino e coreógrafo Alexandre Américo apresenta, em live, espetáculo na qual usa suas limitações para criar movimentosO bailarino e coreógrafo Alexandre Américo apresenta, em live, espetáculo na qual usa suas limitações para criar movimentos
    

“Myoclonus” estreou em 2015 e já passou por muitos palcos ao redor do Brasil, entre anfiteatros, salas, e até mesmo na rua. Um dos mais desafiadores será na casa do próprio autor. “Eu não quis alterar minha casa para gravar a live. Eu quero dançar no pouco espaço que tenho, porque acho que isso de alguma maneira também vai revelar como a gente está lidando com essa situação de isolamento”, afirma Alexandre. Ele ressalta que, dentre suas peças, essa é a mais adaptável em questão de espaço.

Alexandre Américo explica que “Myoclonus” se relaciona mais com o corpo do artista do que com o cenário. “O cenário é basicamente o que me rodeia, a arquitetura. Eu assumo a arquitetura como cenário e me relaciono com ela”, diz. Porém, mesmo sendo uma peça cenograficamente crua, o artista precisou adaptar sua noção de espaço para caber aos enquadramentos da tela do celular. “Tive que pensar quadro a quadro, momento por momento, em relação ao enquadramento da câmera do telefone”, diz.

O bailarino vai dançar e também vai manipular o celular que vai transmitir a live. “Vou expor a câmera em tal lugar, reenquadrar, brincar com o zoom, desfocar e focar, etc. Farei tudo enquanto agente que dança. É difícil, mas é algo que faz parte de ‘Myoclonus’. Não é uma dança que propõe passos, mas ações e maneiras de se mover dançando”, explica. Ele deseja mostrar que o ambiente também é capaz de condicionar a dança.

“Myoclonus” é um espetáculo chave na vida artística e pessoal de Alexandre Américo. Foi através dela que ele passou a lidar abertamente com sua epilepsia. “As convulsões invadiam meu espaço de trabalho. Meu corpo se recusava a dançar frases coreográficas ensaiadas. Mas resolvi que não ia parar e ia aprender outra forma de dançar. A contemporaneidade é um arco muito grande, que tem espaço para diversas formas de se expressar”, diz.

A partir da percepção da realidade de seu corpo, Alexandre Américo foi descobrindo novas formas de se mover. Os espamos musculares disparados pela ‘Epilepsia Mioclônica Juvenil’ se tornaram dança. “Basicamente eu tento estetizar isso. Eu não finjo um ataque. Eu uso os espasmos como mote para investigar e refletir sobre dança, sobre uma outra forma de dançar, sobre singularidades, a capacidade de subverter as impossibilidades que a vida sempre pode nos apresentar”, explica.

Após apresentar “Myoclonus” na 19ª edição do festival Solo-Tanz-Theatre, na Alemanha, a peça despontou e se tornou uma marca. Mais do que um espetáculo, Alexandre transformou “Myoclonus” em técnica e pedagogia.  

Serviço
Live de “Myoclonus”, de Alexandre Américo. 
Quinta, às 18h30, no perfil @alexandreamericooficial