Dançando na rua dos passos

Publicação: 2019-02-10 00:00:00 | Comentários: 0
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Ramon Ribeiro
Repórter

Na vida da bailarina e professora Anna Thereza todas as coincidências levam ao bairro de Morro Branco. Mais precisamente, à rua Dr Carlos Passos. Foi lá, por exemplo, que ela, aos 17 anos, começou o namoro com o seu marido, Marcelo Miranda companheiro e sócio no Studio Corpo de Baile. A escola de balé – que em 2019 completou 22 anos, um feito raro! – também é outra coincidência que leva à rua Carlos Passos, já que é nessa via que a primeira unidade da escola começou e existe até hoje.

Outra coincidência é que foi na mesma rua que Anna morou por um bom tempo depois de casar – primeiro numa casa e depois num apartamento. Chegou na área já com uma filha e teve mais duas. Hoje ela reside em Candelária, no entanto o dia ela passa nesta rua, administrando a escola. Mas nada impede que ela vá morar novamente no lugar, revivendo o tempo em que ia andando de casa para o trabalho.
Todos os caminhos conduzem a bailarina e professora Anna Thereza Miranda a Morro Branco
Todos os caminhos conduzem a bailarina e professora Anna Thereza Miranda a Morro Branco

Anna lembra do começo da escola, quando uma típica casa de conjunto foi adaptada para um estúdio de balé. Ela também dá suas impressões sobre o bairro Morro Branco, uma localidade que não se sabe nem se é oficialmente um bairro – como se isso importasse para aqueles moradores antigos que não arredam pé da área de jeito nenhum. Talvez esses moradores tenham escolhido o Morro por feitiço, depois de ouvirem a tal Missa Encantada, o cântico que muitos ouviram mas que ninguém chegou a ver, conforme citou em livro o historiador Itamar de Souza.

O namoro

Na adolescência comecei a ter uma relação com esse bairro, na verdade com essa rua em que estamos, a Dr Carlos Passos. Foi aqui que namorei meu esposo, Marcelo (Miranda), aos 17 anos. Ele morava na esquina da rua. A casa ainda é da família, o irmão dele mora lá. Nessa época eu morava no Tirol.

Chegar pra morar

Pouco depois de casar vim morar nesta mesma rua. Já tinha minha primeira filha. Mas a segunda e a terceira nasceram naquela casa. Mas não ficamos muito tempo e nos mudamos de novo, para um apartamento, ainda nesta rua. Lá morei vários anos. No apartamento hoje mora um cunhado. Foi quando morávamos lá no apartamento, em 1997, que começamos o Studio Corpo de Baile, um projeto que a gente já vinha trabalhando.

A escola de ballet do bairro

Estávamos procurando um local, casas, em vários bairros. E, coincidentemente, um corretor aparecer e nos fala de uma casa na Rua Dr Carlos Passos. A gente tomou um susto. Como assim na rua que a gente mora e a gente não sabia! Fomos ver a casa e foi aqui que tudo começou. Era uma típica casa de conjunto. Fizemos uma reforma para adaptar o local a uma escola de balé. Depois vieram outras reformas até chegar nesse formato de agora.

A rua do ballet

Quatro anos depois de começar a Corpo de Baile abrimos um anexo no outro lado da rua. Tínhamos começado a escola com duas salas de aula. Fizemos uma terceira. Depois surgiu a necessidade de mais salas. Alugamos um anexo no outro lado da rua e lá fizemos mais duas salas. A maior que a gente tem, onde ensaia a nossa companhia de dança, a Domínio, e a sala funcional, além do espaço do Pilates, que é coordenado pela minha filha.

Integração com o bairro

Começamos a divulgação da escola com faixas. Fechamos o primeiro ano da escola com 80 alunos. No início só tinha balé e dança de salão. Depois incluímos sapateado, jazz, dança flamenca, dança contemporânea. Desde o início promovíamos espetáculos. Sempre no Teatro Alberto Maranhão, algumas vezes no Teatro Riachuelo, Centro de Convenções, nunca aqui. Já pensei promover uma apresentação aqui na rua, montar um palco, no Dia Internacional da Dança, mas era período de chuva e não deu certo, tivemos que fazer num lugar fechado. Mas na rua já fizemos bloquinho de Carnaval, com bandinha, circulando só por aqui perto.

Vizinha do trabalho

Nossos alunos em grande parte são de fora do bairro. Até chegamos a ter uma Kombi para deixar os alunos que moravam longe em casa. Com o Uber paramos com esse serviço. Mas teve a época que eu morava na rua e vinha andando de casa para o Studio. O problema é que acabava ficando o dia todo aqui, chegava de manhã e só saia tarde da noite. Foi uma fase que minhas filhas sentiram bastante a minha falta.

Professora e mãe

As três fizeram ballet durante muito tempo. A mais nova está morando no Canadá, é formada em Direito. Ela ficou com uma certa mágoa de mim. Tudo porque num teste para passar de nível eu não passei ela. Da turma toda só ela não passou. Vez por outra ela lembra: 'Você me reprovou', que é um termo que não usamos. Confesso foi meio errado. Claro que eu vi que o corpo dela ainda não estava preparado para o outro nível, mas também tinha uma coisa de mostrar para as outras meninas, de dar o exemplo que era importante o corpo estar formado. Minhas outras filhas trabalham aqui. A mais velha é do financeiro e a filha do meio tem o Pilates na unidade aqui da frente.

Ballet é escola pra vida

Dancei pela última vez quando estava grávida da minha primeira filha. Praticar ballet tem que ser em sala de aula. É o lugar mais adequado. Mas quem faz ballet tem a mania de alongar o corpo, ficar com fazendo exercícios em casa. As mães falam: “minha filha não pára de girar em casa. Estuda esticando  a perna, exercitando a flexibilidade”. Mas o ballet não é só corpo. Independente de se tornar profissional ou não, o ballet é importante pra vida. Autoconfiança, disciplina, postura, determinação, concentração, são ensinamentos que você leva para o seu dia a dia.

Região de convergência

Essa área do Corpo de Baile é bem legal. Na esquina da rua já existia a Academia Stylo. Aqui do lado, depois que começamos com o Studio, abriram uma escola de inglês. Depois surgiu a escola Mapple Bear. Nas ruas paralelas tem duas escolas de músicas, com aulas de violão e de canto. Isso é bom. Gera um trânsito de pessoas.

Um morro que mudou muito

O bairro mudou muito. Era mais residencial e agora tem muitos comércios. Está crescendo na parte de alimentação. Mas ainda é um lugar tranquilo. Aqui as pessoas ficam todas em suas casas. Acho que é por causa da insegurança. A vida é mais corrida também, não deixa tempo para se parar na rua. Quando acaba o horário comercial fica bastante silencioso. Morro Branco é um lugar que dá pra morar e resolver a vida. A localização é boa, é perto de tudo, o maior shopping da cidade está próximo. Gosto demais daqui.





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